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Ninguém Tá Olhando: Crítica da 1ª temporada

A vida não é aleatória por acaso.

27 nov 2019
20h21
atualizado às 22h45
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NOTA: 4,0/5,0

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

Tem gente que segue as regras, e tem gente que muda o mundo.

Sendo um pouco mais simplista e desconsiderando a segunda parte da frase de efeito acima, vou quebrar uma das regras padronizadas e não escritas da crítica — se é que elas existem — para relatar uma das primeiras lembranças às quais fui evocado ao assistir os minutos iniciais de Ninguém Tá Olhando, nova série de comédia da Netflix, com direção geral de Daniel Rezende.

Lembro bem do primeiro contato que tive com uma obra que retratasse nossa realidade etnocentrista e dogmática através de narrativas ambientadas parcialmente fora do nosso mundo: O Guia do Mochileiro das Galáxias, do incrível Douglas Adams.

Na ocasião, o protagonista Arthur Dent descobriu que sua casa seria demolida apenas no momento em que notou uma leva de tratores direcionando-se ao seu lar. No entanto, o projeto da construção estava "à disposição" na Secretaria de Obras há nove meses. Paralelamente a isso, todos os terráqueos ficaram sabendo que seriam completamente dizimados pelos vogons apenas quando eles desceram os céus em suas imensas naves. Justificando-se, os extraterrestres afirmaram que a ordem de demolição esteve em exposição no departamento local de planejamento, em Alfa de Centauro, nos últimos 50 anos. 

A conclusão que tiramos deste preâmbulo praticamente desnecessário é a seguinte: a burocracia é sintomática a absolutamente qualquer ser vivo (ou morto) do universo. Em Ninguém Tá Olhando, os acontecimentos não fogem a esta regra. A trama da série começa a partir do momento em que Ulisses (Victor Lamoglia) é gerado como um novo Angelus: um ser supostamente divino cujo propósito é proteger os humanos dos mais variados tipos de acidentes. 


Ao passo em que Uli é apresentado formalmente ao sistema de operações pelo fiscal Fred (Augusto Madeira), é possível percebermos como o local possui uma rotina muito similar a de um cartório, por exemplo. Humanos operacionalizam processos sem muita necessidade e complicam o que deveria parecer fácil. Com os Anjos (Angelus, na verdade) isso não seria muito diferente. O enredo começa a tomar corpo quando o personagem principal envolve-se indevidamente com a humana Miriam (Kéfera Buchmann) e parte à procura do Chefe para tirar satisfações. No entanto, ele descobre que... bom, Ninguém Tá Olhando.

O primeiro efeito comparativo interessante à nossa própria humanidade surge já quando Uli é apresentado às quatro regras que jamais devem ser quebradas (caso sejam, o transgressor é obrigado a assistir ao filme Cidade dos Anjos, com Nicolas Cage, para o resto da eternidade). 

1. Cumprir a Ordem do Dia.
2. Não aparecer para os humanos. 
3. Não proteger humanos fora da Ordem do Dia. 
4. Jamais entrar na sala do chefe. 

Seguindo um arquétipo básico de novato questionador, Ulisses já deixa claro no primeiro episódio que não é como os outros Angelus. Realizando perguntas que partem das dúvidas mais básicas até as maiores reflexões possíveis, o personagem é o fio condutor existencialista do debate que a série propõe de maneira muitas vezes sutil. A comparação a The Good Place é inevitável, contudo, aqui o texto assinado por Mariana Trench com auxílio de Mariana Zatz, e eventualmente do próprio Daniel, mistura a comédia a um ar quase que niilista, transicionando-se entre o humor e o drama em um bater de asas (sacaram?). 

E, já que estamos falando sobre o texto, vale ressaltar como algumas linhas de diálogo se destacam em meio a determinadas situações. As cutucadas feitas pelos Angelus a respeito de como a humanidade mudou desde que eles foram concebidos, há cerca de oito mil anos, são muito bem desenvolvidas. Desde a ascensão da astrologia como tendência, até os charlatões religiosos e coaches, a série tece críticas sem perder a leveza de seu tema ou acabar tornando-se mais agressiva do que seu tom permite. 


Contudo, aqui nenhuma crítica é feita de maneira unilateral, e este talvez seja o seu maior mérito. Até mesmo a personagem fanática pelos signos, que são "alvo fácil" devido a sua falta de comprovação científica, possui argumentos palpáveis que seguem o caminho inverso ao discurso contra astrologia. Uli, por exemplo, é contra o estudo de mapas astrais, mas também está preso aos próprios sistemas e crenças, das quais não abre mão sob nenhuma circunstância. 

Sobre as interações entre os protagonistas, houve uma grata surpresa em perceber que, aquele que costuma ser o ponto de maior debate em produções nacionais — as atuações plásticas e, em algumas vezes, engessadas, com falta de naturalidade — aqui é sanada quase que por completo. Ao lado de Lamoglia estão Júlia Rabello e Danilo de Moura nos papéis de Greta e Chun, os Angelus selecionados para supervisionar Uli ao longo de seu aprendizado. De maneiras diferentes, os dois entram em seus próprios ciclos de evolução e desenvolvimento sem serem necessariamente deixados de lado para que a narrativa principal possa avançar. Sendo completamente opostos um do outro, a química funciona especialmente bem por mostrá-los lidando com a nova ideia de "mundo sem regras" sob perspectivas bastante diferentes.

Algumas piadas, no entanto, acabam sendo facilmente telegrafadas, especialmente com assuntos que tornam-se desgastados pelo uso recorrente, como a astrologia, que ganha inclusive um episódio inteiro de destaque. Talvez a questão a ser trabalhada na possível temporada seguinte possa estar justamente na eficiência em equilibrar alguns excelentes trocadilhos tipicamente brasileiros (destaque para o uso da canção Imortal, da dupla Sandy e Júnior) com anedotas mais universais. Dentre as pequenas ressalvas que acabam impossibilitando uma nota maior, vale destacar também algumas decisões tomadas pelos personagens que, por mais que sejam um pouco condizentes com suas personalidades, foram claramente postas ali apenas para justificar a existência de certos conflitos.

É legal abrir um parêntese para falar rapidamente sobre as autoreferências da direção extremamente competente de Daniel Rezende. Seus dois longa-metragens (Bingo: O Rei das Manhãs e Turma da Mônica - Laços) possuem easter-eggs sutis e divertidos ao longo da trama, o que se relaciona diretamente com o estilo bastante próprio e autoral que ele tem criado para suas obras. Encaixando-se naturalmente nas cenas, até mesmo o canal pessoal do Victor Lamoglia no YouTube é referenciado com algumas de suas fantasias DIY. 


Lamoglia, que inclusive segura bem o papel que exige certas doses de inocência e ambiguidade. Na realidade, todo o grupo de protagonistas e coadjuvantes cai como uma luva para seus respectivos personagens. Augusto Madeira cumpre o peso do antagonista iludido pelo sistema, enquanto Kéfera realiza a tarefa de sintetizar corretamente os humanos contemporâneos em sua melhor forma. Ainda sobra espaço também para Leandro Ramos (Sandro) servir como um dos principais alívios cômicos. 

Talvez uma das sequências que melhor resuma a ideia por trás de Ninguém Tá Olhando seja aquela em que Uli, na tentativa de distrair Fred, começa a enviar peças aleatórias para o supervisor, como parafusos e pregos. Fred, sendo extremamente preso ao dogma de adoração ao lendário símbolo de autoridade, começa a achar que na verdade está recebendo mensagens divinas do "Chefe", agindo assim de maneira completamente deturpada ao que aquilo realmente significava: absolutamente nada. 

Ninguém Tá Olhando sai de cena em sua primeira temporada como um importante gancho para uma segunda temporada mas, assim como a já equiparada The Good Place, precisará de alguns malabarismos para não cair na repetição da própria fórmula original. Contrariando a própria frase de Uli, que inclusive dá espaço ao subtítulo desta matéria, até mesmo a ocasionalidade pode ser programada.

A vida é aleatória por acaso. 

AdoroCinema
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