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Festival do Rio 2018: Tinta Bruta busca o símbolo da resistência em uma onda de conservadorismo

Longa dos diretores gaúchos Márcio Reolon e Filipe Matzembacher está em competição no festival carioca e acompanha um jovem tentando vencer na vida em Porto Alegre.

8 nov 2018
12h10
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Pedro (Shico Menegat) é um jovem em uma situação complicada. Ele responde a um processo criminal, que o fez abandonar a faculdade e perder os poucos amigos, ao mesmo tempo em que sua irmã muda para outro estado para seguir a carreira. Seu único sustento financeiro são as suas performances eróticas na internet, que faz utilizando tintas neon — daí seu apelido, "GarotoNeon." Quando ele descobre que outra pessoa está copiando sua ideia original, conhece Leo (Bruno Fernandes), uma pessoa completamente diferente do seu mundo fechado.

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

Ambientado em Porto Alegre, Tinta Bruta venceu o Prêmio Teddy de Ficção no Festival de Berlim (dedicado a produções com temática LGBT) e trata-se do segundo da dupla Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, também diretores de Beira-Mar (2015). Aqui, os cineastas exploram a relação do jovem pós-moderno com a cidade, a sensação de abandono e opressão amplificadas tanto pela relação com o virtual quanto pelo conservadorismo de uma cidade fechada contra a cena cultural.

Os diretores e os protagonistas conversaram com o público do Festival do Rio durante a exibição do longa nesta quarta-feira (07), explicando como a cidade é um símbolo universal da trama.

"O filme surgiu de uma vontade nossa de conversar sobre a relação que temos com a cidade de Porto Alegre", relata Matzembacher. "É uma cidade em que crescemos, estudamos e vivemos. E sentimos que ela tem se tornado cada vez mais hostil e violenta, e que também é um ponto de partida. Há alguns anos, percebemos que de 10 dos nossos amigos, 6 ou 7 haviam ido embora. Porto Alegre se tornou um ambiente violento e massacrante pela cultura social e pela gestão das últimas prefeituras. Isso acabou fazendo com que a cidade se tornasse não-frutífera, especialmente para os jovens. Então esse personagem sofre uma síndrome de abandono, e a cidade é um reflexo dele. A cidade o julga e traz à tona a questão da opressão.

Aparentemente, um ponto importante é que trazemos a cidade para dentro da casa do Pedro, a cidade invade o seu espaço físico", segue, relembrando o trabalho da direção de arte e de fotografia para acentuar a sensação de esmagamento.


"O trabalho que a direção de arte fez foi olhar para o centro histórico de Porto Alegre e trazer aquele ambiente para dentro do apartamento", completa o codiretor. "Olhar para aqueles prédios, aquele ambiente antigo, cinza e abandonado, e colocá-lo dentro da casa do Pedro."

Para Shico Menegat, que faz sua estreia como ator, retratar a fobia do personagem também é um símbolo de resistência política.

"Como jovens artistas, sempre tentamos fomentar a cena cultural e sentimos o impacto de uma cidade não-receptiva, que não valoriza a cultura da cena LGBT, das festas de rua e dos movimentos independentes. Isso está no filme de uma forma muito sutil. Nada disso é dito, mas cria-se um panorama de uma cidade que vem sofrendo, nas últimas décadas, uma enorme onda de conservadorismo. Não só Porto Alegre, mas o Rio Grande do Sul e o Brasil como um todo.

Então o Pedro, por mais que tenha essa relação com a cidade, quando ele conhece o Leo acaba vendo outras possibilidades de como existir e resistir em uma ambiente assim. Ele consegue encontrar pessoas que têm ideais próximos ao dele, e como para alguém que não tem nenhuma perspectiva é importante. Então a relação do Pedro com o Leo, e a relação deles com Porto Alegre potencializam o sentimento de resistência em ambientes conservadores. É possível resistir e é possível viver."

Bastante focado no tema de resistência social e política frente à onda de conservadorismo, o debate trouxe à tona também a importância do arco final de Tinta Bruta, que se equilibra como uma carga otimista no meio de um turbilhão de ocorrências negativas na vida de Pedro.


"Desde o início da concepção do roteiro, queríamos que o Pedro fosse um personagem reativo", explica Matzembacher. "Ele está imerso, sofrendo uma opressão sistêmica constante, e que a vida dele vai ainda mais para a fossa depois que ele decide reagir à opressão. Queríamos que o filme falasse, a partir dali, para onde olhar. E por isso que o final era um pouco otimista. A mudança é uma mudança interna do Pedro, porque ele conseguiu olhar para outro lugar. O que era interessante, para nós, era ver este momento de emancipação dele."

Mas o elemento mais marcante de Tinta Bruta, naturalmente, é a tinta neon, que para os diretores tem vários significados.

"O neon tem vários elementos que utilizamos no início do roteiro, e acho que representa os sentimentos intrínsecos do Pedro que ele não consegue expressar", continua. "E em um certo momento, o Glauco [Firpo, diretor de fotografia] trouxe um pensamento que nos iluminou. O Pedro é um vulcão, ele está quase entrando em erupção. E a tinta é a lava."

Leia aqui a crítica do AdoroCinema.

AdoroCinema

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