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Altered Carbon: O futuro é uma tortura (Crítica da primeira temporada)

Os mártires do pós-apocalipse.

2 fev 2018
10h07
atualizado às 10h37
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Nota: 2/5

Foto: AdoroCinema / AdoroCinema

A nova série da Netflix, baseada no livro "Carbono Alterado", de Richard K. Morgan, parte de uma premissa interessantíssima. Num futuro distópico, é possível trocar de corpo quando este perece por velhice ou doença. Com a consciência armazenada num cartucho e posicionada na nuca, basta transferir o objeto a outro corpo e seguir adiante. As possibilidades desta ideia são imensas: com as diferenças sociais, os mais ricos adquirem corpos jovens e trocam-nos sucessivas vezes, tornando-se quase imortais, enquanto os pobres se contentam com corpos frágeis e se sujeitam às "mortes reais", ou seja, definitivas. Como o corpo é mero acessório - uma "capa", diz-se na série, como para um telefone celular - um homem pode se tornar uma mulher, uma pessoa negra pode se transformar em branca e depois asiática, um europeu ganha as feições de um latino e assim por diante. 

A história acena a uma potente leitura política e social dos tempos atuais - afinal, toda ficção científica usa o futuro para debater a contemporaneidade. No entanto, Altered Carbon não explora a fundo nenhuma dessas vertentes, pois sua preocupação é mais psicológica do que social. Através de uma dúzia de personagens traumatizados, depressivos ou vingativos, ele busca mostrar de que modo os percalços do presente (amores partidos, famílias desintegradas, amizades desfeitas) marcam uma pessoa a ponto de transformá-la. Todas as figuras da série dividem a alcunha de vítimas e vilões. Eles buscam redenção, mas também alguma forma de conexão com outros, seja em versão clonada, androide, virtual, simulada. Pelo visto, o futuro é triste e solitário.


 

O protagonista é Takeshi Kovacs, um mercenário cujas origens asiáticas e do leste europeu são escondidas no corpo do ator sueco Joel Kinnaman. Ele é o mártir principal, sofrendo ataques, torturas, vendo seus amores e familiares partirem repetidas vezes diante de seus olhos. Muitas vezes, "Tak" retorna e se sacrifica mais uma vez pelos poucos que restam, ou por um ideal de sociedade. Este mercenário aceita trabalhar para um milionário, encarregado de descobrir as circunstâncias da última morte do empregador. A contratação de Takeshi é pouco convincente, mas passemos: o objetivo é confrontar o protagonista a figuras ainda mais cruéis e insensíveis do que ele. Por isso o protagonista oferece o corpo nu e com "memória de combate" aos maus-tratos da tecnologia ao redor. Mesmo sem ser uma série religiosa, a ideia de penitência e redenção está muito próxima. É através do sofrimento e da admissão de culpa que os personagens progridem. O mundo futurista de Altered Carbon funciona como um amplo purgatório.

A trama é desenvolvida por Laeta Kalogridis, escritora especializada em ficção científica e fantasia, mas de trajetória bastante irregular. São delas as histórias de O Exterminador do Futuro - Gênesis, Desbravadores, Alexandre e Ilha do Medo, todos muito problemáticos. Os problemas se repetem nesta série. A roteirista cria uma série de personagens agressivos e sangrentos, beneficiados pela classificação etária adulta, mas de pouca profundidade. Seus motivos são vagos, ou tanto confusos. A ligação de Takeshi com a policial Ortega (Martha Higareda) soa abrupta e depois não se desenvolve, a transformação de Lizzie (Hayley Law) numa proto-Mulher Gato beira o absurdo, a relação incestuosa com a irmã Reileen (Dichen Lachman) força mais momentos de aproximação e repulsa do que a trama consegue desenvolver.


 

De modo geral, a primeira temporada gasta tempo demais se explicando, ou melhor, criando suas próprias regras para quebrá-las em seguida. Como este é um mundo novo, os personagens precisam explicar uns aos outros - e ao espectador, por extensão -, o que significa Matusa, Ceifador, Protetorado, Emissor, cartucho, dupla-capa, constructo, FHD e afins. Enquanto algum personagem faz alguma afirmação introdutória ("Só é possível clonar a capa X se o cartucho Y estiver em posição tal, com o backup tal"), o outro o contesta ("Mas eu alterei os códigos do backup, de modo que é possível ter uma dupla-capa se X, Y e Z forem alterados no sistema"). É difícil ficar feliz com o anúncio de qualquer uma dessas notícias. Elas dizem respeito a uma lógica que desconhecemos, e as brechas nas regras nos são igualmente distantes. Assistimos às explicações como quem lê um manual - passivamente, dispostos a absorver conhecimento, mas sem poder antecipar nada, nem se identificar com quem quer que seja.

Além disso, o roteiro não consegue evitar a tentação de inserir um número farto de clichês e frases de efeito. Prepare-se para vilões que proferem discursos longos antes de matar a vítima, apenas para serem surpreendidos por um terceiro que aparece e salva o dia; armas carregadas que convenientemente aparecem sobre algum cômodo no meio de uma luta acalorada; confissões que poderiam ter sido feitas desde o início, mas são seguradas para causar maior impacto no futuro; personagens mortos que reaparecem magicamente quando convém à trama. Para o espectador preocupado com coerência narrativa e originalidade, estes constituem problemas sérios. Para quem busca apenas o prazer de lutas elaboradas, amores impossíveis e reviravoltas de último minuto, Altered Carbon cumpre seu papel com folga.


 

No que diz respeito ao elenco, Joel Kinnaman é uma boa escolha para o protagonista. O ator de Robocop evita transformar Kovacs num sujeito puramente agressivo, tampouco enxergando-o como um coitado. Existem transformações notáveis ao longo da temporada, e mesmo os diálogos piegas são proferidos com convicção. As ótimas Renée Elise Goldsberry e Tamara Taylor atingem o mesmo equilíbrio, buscando atenuar as frases vilânicas e conferir peso aos diálogos dramáticos. Martha Higareda, no entanto, tem postura corporal pouco convincente nas cenas de ação, e expressividade limitada nos momentos lacrimosos. Dichen Lachman parece se divertir muito com o fel dos diálogos, porém se restringe à vilã impiedosa e quase cartunesca. Alguns bons atores, como Ato Essandoh e Kristin Lehman, são tristemente subaproveitados.

Quanto às imagens, a série ostenta com clareza o generoso orçamento de cada episódio. Os cenários se multiplicam, os figurinos ganham múltiplos detalhes, cada arma ou geringonça futurista é pensada para brilhar nas luzes de neon azuis, verdes e vermelhas que invadem os ambientes através das paredes translúcidas. Talvez o resultado não seja dos mais realistas - o hotel no que Takeshi se hospeda parece muito um cenário teatral - mas funciona para o espetáculo de efeitos visuais. Altered Carbon explora sem moderação as projeções, hologramas, telas translúcidas, letreiros em neon, cenários externos escuros e decadentes, bueiros dos quais sai fumaça, personagens soturnos em casacos pretos e afins.


 

Não existe nada de errado nesta configuração, que é de fato bem executada pela equipe. Mas há de se pensar: 34 anos de passaram desde os androides com corpos intercambiáveis de O Exterminador do Futuro, 35 anos desde o futurismo neon de Blade Runner - O Caçador de Androides, 39 anos desde as naves de Alien - O Oitavo Passageiro, 41 anos desde a comunicação por luzes de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. O cinema e as séries ainda não encontraram nenhuma alternativa para representar o futuro, a distopia, o contato com outros seres? Nada além das telas translúcidas, os mesmos coturnos, o mesmo neon? Altered Carbon depende demais do imaginário criado e reiterado pelas histórias clássicas. Aqui, os elementos soam como uma evocação nostálgica, uma maneira de jogar o espectador mais facilmente naquele universo. Você pode não entender as regras do jogo, mas as cartas são as mesmas de qualquer outro.

O resultado deixa um gosto amargo por partir de um conceito tão original e inovador, apenas para tratá-lo com as convenções de inúmeros filmes B de ação ou ficções científicas consagradas. Serve como escapismo leve, no entanto, se o espectador dedicar atenção a cada episódio, deve questionar diversas atitudes dos personagens e atalhos narrativos. Pelo menos, o décimo episódio oferece uma conclusão satisfatória, amarrando todos os fios soltos. Talvez a resolução do caso Bancroft seja fácil demais, porém a esta altura da série, é possível se contentar com a coerência em detrimento da verossimilhança. Uma eventual segunda temporada se beneficiaria caso se arriscasse mais na forma e no conteúdo.

AdoroCinema

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