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13 Reasons Why: Crítica da 3ª temporada

A vida após a morte.

25 ago 2019
19h56
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NOTA: 2,5/5,0

Foto: Netflix / AdoroCinema

É impossível avaliar, ou até mesmo assistir, a uma obra artística, de qualquer natureza que seja, desconsiderando a influência do contexto social dentro de sua narrativa. No caso de 13 Reasons Why, mais especificamente de sua terceira temporada, existe um fantasma rondando todos os pretextos, escolhas e decisões feitas pelos personagens dentro da trama.

Ao contrário do que se imagina, este espírito não é o de Hannah Baker — fio condutor primário da proposta inicial da série —, muito menos de Bryce Walker, cujo misterioso assassinato promete servir como ponto de partida para mais uma continuação. O maior fantasma de 13 Reasons Why é o das irresponsabilidades cometidas pela Netflix na tentativa completamente desastrosa de abordar com sensibilidade assuntos delicados como depressão, suicídio e estupro.

Assim como é impensável julgar um produto sem desconsiderar o seu meio, o mesmo acontece com a ideia de conceber uma análise a respeito da terceira temporada sem pensar em seus antecedentes: em uma varredura rápida, estamos vindo de uma segunda temporada que sequer deveria ter acontecido e conseguiu a proeza de ser ainda mais desastrosa que a primeira. No entanto, por incrível que pareça, a Netflix pareceu ter encontrado um certo equilíbrio desta vez — ou quase isso.

Conforme já foi exaustivamente divulgado nos trailers e fotos promocionais, a morte de Bryce (e o mistério clichê de quem teria sido o assassino) é o que rege os 13, desnecessariamente longos, episódios do novo arco. Mas, apesar de não se sustentar como força motora para guiar o grupo de adolescentes à condução dos acontecimentos que reverbaram no fatídico homícidio, a decisão do roteiro de eliminar o personagem caiu como uma luva.

Durante as duas temporadas anteriores, Bryce tornou-se uma espécie de antagonista: um mal a ser combatido. De certa forma, ele realmente era, mas sua figura acabou ganhando um status quase mítico, um vilão absoluto dentro de uma história que se propunha a debater uma mazela sintomática. Walker, que praticamente já estava acima de qualquer concepção de maldade, pôde, pela primeira vez, ser retratado como apenas mais uma peça dentro de um ciclo vicioso muito maior que qualquer outra pessoa deveria ser dentro da série. 

No entanto, o que deveria ter sido a grande carta na manga de 13 Reasons Why nesta temporada, acabou se tornando seu maior demérito: a investigação. A trama é muito mais crível, palpável e emocionante quando se permite parar por alguns segundos para explorar toda a complexidade do que fica dentro de cada um depois do trauma. Jessica, por exemplo, que foi vítima de abuso sexual na primeira temporada, protagoniza alguns dos momentos mais esperançosos e tocantes da narrativa, criando um diálogo íntimo e direto com os espectadores: desde a volta da autodescoberta de sua intimidade sexual até o processo de saber o momento de externalização. Seria uma pena se estas passagens fossem minúsculas quando comparadas à conflitos desnecessários que apenas servem à chegada da conclusão (pouco original, inclusive) do grande assassino. 


Muito mais do que enviar a mensagem de que é possível superar experiências envolvendo assédio, a personagem vivida por Alisha Boe traz uma nova perspectiva sobre a sobrevivência ao trauma, e isso é muito bem desenvolvido quando Jessica inicia um grupo com outras pessoas que passaram por experiências parecidas. Juntas, elas buscam entrar em pautas como a perpetuação do machismo dentro da cultura esportiva, a impunidade aos assediadores dentro da escola e novas ideias para um futuro menos problemático. O interessante, neste caso, é que alguns dos membros deste mesmo grupo — incluindo, eventualmente, a própria Jessica — discordam a respeito da forma de ativismo praticado em prol da causa ("será que dançar em cima de suas covas é a melhor maneira de mostrar que somos diferentes?").

Apesar da abordagem muito mais madura e sólida do que restou àqueles que sobreviveram aos abusos cometidos por Bryce — e muitos outros homens —, a série começa a cair na própria incapacidade de sustentar-se apenas nisso. Sempre que passamos por um momento emocionante, o roteiro parece fazer questão de querer nos lembrar que não pode ser profundo por muito tempo. Rapidamente, já nos vemos de volta à uma enrolação que já se tornou marca registrada das tentativas frustradas de dar ao público algum clima de mistério do que poderia facilmente ter sido resolvido em alguns minutos. Ao fim da grande revelação sobre a pessoa responsável pelo assassinato, a sensação que fica é a de que não faria a menor diferença se tivéssemos descoberto no primeiro episódio. Seguindo o caminho inverso da primeira temporada, a terceira funciona como diálogo e falha como suspense.

Para ressaltar a diferença entre as duas linhas temporais nas quais o enredo se passa, a direção de fotografia quase que subestima ao espectador com a alternância constante entre tons frios (presente) e quentes (passado). Como se já não tivesse ficado claro nos primeiros momentos, ainda há uma insistência da montagem em realizar transições supostamente perspicazes o tempo todo. Foram incontáveis os momentos em que um personagem olhava para o lado no passado apenas que a câmera deslizasse e víssemos sua feição de tristeza ou medo no presente. 

E falando em feições, parte do elenco continua um tanto impassível, destoando consideravelmente do tom dramático que a história tem. E a Netflix percebeu isso, não à toa deu as maiores cargas emocionais aos personagens cujos intérpretes são mais capazes de aguentar o tranco: Jessica, Bryce e Tyler. Falando neste último, este texto exige uma pausa apenas para que abramos um debate a respeito dele. 

Depois de protagonizar a cena mais problemática e controversa da segunda temporada, Devin Druid roubou a cena completamente no arco de Tyler que, inclusive, é um dos elementos mais bem desenvolvidos dentro da trama. Sua performance foi arrebatadora, sensível e superou qualquer receio de que pudesse acabar caindo na caricatura ou na total inexpressividade diante das situações (como acontece com Miles Heizer, o Alex). Sem querer entregar muitos spoilers, mas a cena em que seu personagem conta pela primeira vez sobre a agressão que sofrera é, de longe, o melhor momento da temporada. 

Apesar da insistente necessidade em transformar uma história essencialmente simplista, mas complexa, em um amontoado cansativo de charadas aparentemente irresolutas, a terceira temporada de 13 Reasons Why acaba cumprindo a meta de limpar parte da bagunça de absurdos que deixou para trás, principalmente em seu segundo ano. Hannah se foi. Bryce também. E o que resta para os que ficaram é a vida após a morte: não apenas a morte literal de pessoas que faziam parte de seus entornos, mas os próprios pequenos óbitos que permaneceram dentro de cada um após agressões. Abusos. Assédios. Transtornos. Mas como muito bem disse Belchior (perdoem a referência antiga) e certeiramente implicou Jessica em alguns de seus discursos: "Ano passado eu morri, mas neste ano eu não morro". 


Uma outra questão que chamou atenção foi a coragem em aplicar uma espécie de tentativa de redenção ao personagem de Bryce. Conforme já foi dito anteriormente, deveria ter sido claro que o personagem é uma consequência sintomática à perpetuação de abuso, assim como Montgomery, um abusador que é abusado diariamente por seu pai. O problema é que isso vem logo após uma segunda temporada concluída com a ideia de que Walker jamais seria punido por seus atos, logo, apareceu de maneira um tanto confusa. Mas o que surpreendeu, neste caso, foi o pulso firme em projetar em Bryce a ideia de ressocialização. Por mais que ele tenha sido morto. 

Falando em ressocialização, é interessante observar certas críticas ao reducionismo: algo que, na verdade, esteve presente de maneira implícita em todas as temporadas. Bryce, Justin, Tyler, Jessica, Zach, Alex... todos os personagens citados já cometeram crimes e atitudes moralmente condenáveis. Alguns, em proporções gigantescas, outros de maneira muito sutil.

O ponto é que, com exceção de Bryce, todos eles haviam recebido pequenos arcos redentores e tentaram lidar com as consequências das próprias atitudes, e antes de morrer nas mãos de um misterioso assassino, Bryce também ganha uma espécie de redenção, da própria maneira, condizente com o desenvolvimento do personagem. No entanto, estamos falando de um homem que estuprou sete mulheres e sai de cena no meio do caminho, antes de realmente enfrentar as próprias consequências disso, começando, apenas agora, a entender a dor que causou. Pela pressa com a qual a questão foi tratada, soa problemático ao trazer a morte do personagem como uma interrupção do que poderia ter terminado de outras centenas de maneiras mais sólidas.

Por fim, a presença de Ani, nova personagem, surge para coroar a lista de conflitos que surgem apenas para dar mais tempo e terminar a trama com 13 episódios que poderiam, facilmente, ser reduzidos em 7 sem nenhum problema. Ela parece existir apenas em função de suprir furos no roteiro e narrar os acontecimentos de maneira praticamente onipresente, uma vez que em alguns meses de amizade ela conseguiu descobrir absolutamente tudo sobre todos. O único momento em que sua narração realmente faz diferença é já mais perto do final, de maneira até interessante.


Se você passou pela desgastante experiência de assistir a segunda temporada, concluir o terceiro arco será melhor em todos os sentidos possíveis, no entanto, sua existência serve muito mais como um pretexto para consertar todos os erros grotescos e absurdos cometidos pela Netflix ao longo dos anos. Ao tentar dialogar com jovens passando por momentos difíceis e reverter irresponsabilidades emocionais cometidas anteriormente, a série fez bem em inserir discursos dos atores e alertas de 'gatilhos' antes e depois de seus novos episódios.

Quem dera pudéssemos ter contado com tudo isso na primeira temporada. A história de 13 Reasons Why tenta nos ensinar tanto sobre os perigos de correr atrás das próprias irresponsabilidades só quando o pior acontece, que ela mesma não parece ter aprendido a lição que pretendia passar.

Em 13 Reasons Why, o pior já aconteceu. Agora é tentar correr atrás.

AdoroCinema
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