
Fãs acampam e dispensam conforto à espera dos ídolos

Andréia Fernandes Redação Terra
O acampamento de férias mudou de endereço. Pelo menos é isso que pode constatar quem passar pela entrada do Anhembi, zona norte de São Paulo. Lá estão instaladas há quase um mês, em mais de cem barracas, adolescentes à espera da abertura dos portões para os shows dos meninos do Backstreet Boys, que acontecem nos dias 5 e 6 de maio. Elas passam fome, lutam contra o frio e o calor, ficam sem tomar banho, dormem apertadas numa desconfortável barraca e temem ser assaltadas. Mas o principal medo é outro: perder o lugar na fila. “Já vieram dizer que vem um ônibus do fã-clube da Argentina tomar os lugares na nossa frente!”, revolta-se Tatiana Brasil que, convenhamos, não é tão adolescente assim: tem 27 anos.Para evitar possíveis confrontos, uma “organizadora” apelidada de “Madonna”, que só chega ao acampamento à tarde e não foi encontrada pela reportagem, distribuiu senhas entre as barracas por ordem de chegada. As garotas juram que vão respeitar as regras quando os portões forem abertos e pretendem entrar no Anhembi em fila. O aparente clima pacífico entre a “vizinhança”, porém, é ameaçado ao menor sinal. “Se alguém entrar na minha frente, parto para cima”, revela Cíntia Coelho, de 14 anos. Sem escola - Salvas algumas exceções, todas estão “matando” as aulas do colégio. “Ih! Esquece de escola! Vou à aula só uma vez por semana e já perdi um montão de provas. Mas minhas amigas passam as matérias por telefone e faço todas as lições, ó”, diz, mostrando as folhas de fichário repletas de exercícios de matemática, uma garota de 17 anos que se intitula Rafaela H. “Carter” (sobrenome de um dos integrantes da boy band). “Eu nem fazer lições, faço, ‘desencanei’ completamente”, afirma a colega de barraca Denise de Oliveira, 16. “Se bobear, já fui até explusa do colégio”, completa, com uma ponta de orgulho, Cíntia Coelho. Outras garotas têm mais sorte de morar perto do Anhembi e revezam com as amigas para cuidar da barraca. “Eu e minha colega estudamos à tarde e tem outras duas que vão ao colégio de manhã. Dá para revezar numa boa e nenhuma de nós está perdendo aula”, explica Fernanda Ramos, 14 anos. “Meus pais não deixariam eu vir se tivesse que parar de ir à escola”. Este é o ponto: de forma pacífica ou não, todos os pais das garotas acampadas foram coniventes em relação à decisão das filhas. “Meu pai achou um absurdo, mas sabia que não ia adiantar”, revela Rafaela “Carter”. “Minha mãe chora toda vez que me liga”, lamenta Denise de Oliveira. Para convencer a loucura, Fernanda Ramos dá uma dica de psicóloga: “Não adianta proibir, é pior. Meus pais, pelo menos, apoiaram”. E muitos apóiam mesmo, a ponto de participar. Lazara Silva Santos, mãe das gêmeas Elaine e Eliane Santos da Cruz, de 14 anos, veio com as filhas de Santos e, acampada com as meninas, guarda lugar na fila para assistir aos dois shows. “Eu gosto deles”, jura. Lazara não vê problema no fato das filhas perderem aula. “Se deixei meu trabalho para acompanhá-las, porque elas não podem fazer o mesmo? Aliás, acho que quando eu voltar já não vou ter mais emprego”, ri. Já Rosemeire de Oliveira prefere tirar o lucro do prejuízo. Ela trazia, todos os dias, uma marmita para a filha Carolina, de 15 anos, quando as outras colegas sugeriram que ela vendesse a comida para o acampamento. “Bem melhor que comer cachorro-quente”, alivia-se Rosemeire, que passa os finais de semana na barraca da filha porque tem outros dois filhos para cuidar. E o mais surpreendente: o pai de Carolina não sabe de nada. “Ele vai ser o último a tomar conhecimento. Mas logo, logo vai saber, estamos saindo muito na imprensa”. Romance - Apesar da predominância feminina, quem pensa que o local é uma espécie de “clube da luluzinha” está enganado. Já existe uma boa quantidade de meninos acampados pela calçada. É o caso de Renan Mariano, 14 anos, que tem os cabelos pintados de loiro em homenagem aos ídolos. “Adoro os Backstreet Boys. Eles dançam muito bem”. O garoto garante que convive bem com o a histeria constante das meninas. “É bom pra mim, né?!”, ri. A possibilidade de pintar um clima de romance entre as barracas, porém, é muito remota. Se depender das garotas, as chances de Renan são zero. “Só tenho olhos para os Backstreet Boys. E põe aí que o Nick é o homem da minha vida”, suspira Tatiana Brasil.
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