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Americano pode ser preso por falas negativas sobre resort

Defensores dos direitos humanos há muito criticam a lei da difamação tailandesa, que pode levar a acusações criminosas por reclamar e, às vezes, é usada por interesses de negócios para calar os críticos

29 set 2020
10h54
atualizado às 11h13
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Um americano que mora na Tailândia não gostou de o hotel de um resort cobrar 15 dólares pela garrafa de gin que havia levado consigo ao restaurante. Reclamou com o gerente e mais tarde fez o que para a maioria dos hóspedes insatisfeitos se tornou comum: postou comentários negativos na internet sobre o resort.

O hotel, do resort Sea View Koh Chang, na ilha de Koh Chang, também não gostou da atitude do hóspede e do que considerou uma campanha pessoal para prejudicar a sua reputação. Na impossibilidade de alcançá-lo ou de fazer com que parasse de publicar mensagens no TripAdvisor, o resort lhe moveu uma queixa na polícia tailandesa apelando para a rigorosa lei de difamação do país.

Resort na Tailândia
Resort na Tailândia
Foto: Reprodução

Consequentemente, o hóspede, Wesley Barnes, foi preso este mês e passou uma semana na cadeia. Se for condenado por difamação criminosa, poderá pegar dois anos de cadeia.

Se o Sea View esperava recuperar o seu bom nome, procurando a ajuda da polícia, o tiro saiu pela culatra. A prisão de Barnes desencadeou uma condenação geral na internet, episódios negativos e uma série de péssimos comentários para o resort. Um gerente do hotel disse que o resort estava recebendo ameaças de morte de estrangeiros. "Não entendo por que os gênios encarregados dos hotéis aqui acham que prendendo uma pessoa por 'prejudicar sua reputação' com um comentário negativo merecido, iriam recuperar a sua reputação", dizia uma nota no Google postada na segunda-feira por alguém que se chama Wholesome Bot.

A prisão prevista pela lei de difamação tem também péssima repercussão para a Tailândia, que procura desesperadamente reconstruir o seu setor de turismo destruído pelo novo coronavírus. Uma de suas estratégias é encorajar as pessoas que vivem no país a conhecê-lo de perto.

A Tailândia é um dos destinos mais populares do mundo e o turismo constitui a maior parte da sua economia. Mas para conter o vírus, o governo proibiu o ingresso de viajantes estrangeiros em abril, e agora tenta encontrar maneiras de reabrir o país em segurança.

Defensores dos direitos humanos há muito criticam a lei da difamação tailandesa, que pode levar a acusações criminosas por reclamar e, às vezes, é usada por interesses de negócios para calar os críticos.

A controvérsia do Koh Chang revelou um famoso blogueiro de viagens, Richard Barrow, em posts no Twitter. Depois que Barrow falou da prisão, o Sea View e Barnes enviaram para ele suas próprias versões do ocorrido, que Barrow também postou.

Barnes disse que ficou "chocado" pela taxa cobrada sobre a bebida durante sua permanência em junho e reclamou com o garçom. Um gerente interveio, e, depois de uma discussão acalorada, Barnes admitiu, o gerente desistiu de cobrar a taxa.

O cliente afirmou que mais tarde ele viu o mesmo gerente brigar com o garçom e concluiu que "há um relacionamento patrão/escravo". Então decidiu escrever um comentário.

Ao que parece, ele não se limitou a um comentário, mas escreveu vários no TripAdvisor e no Google dando ao hotel a menor nota e criticando, além disso, a gerência. Um post irritou particularmente o resort por afirmar: "Evitem este lugar como se fosse o coronavírus!".

Barnes disse que, depois de sua prisão, foi levado pela polícia de volta ao Koh Chang, uma ilha no Golfo da Tailândia a cerca de uma hora de voo a sudeste de Bangkok. Mas quando lá chegou no dia 12 de setembro, um sábado, era tarde demais para pagar a fiança e ele passou duas noites na cadeia antes de ser solto na segunda-feira seguinte.

O Sea View afirmou no seu relato que havia procurado Barnes para tentar resolver a situação amigavelmente, mas não recebeu resposta. O hotel contou que foi à polícia somente como extremo recurso para acabar com a enxurrada de comentários depreciativos.

"Concordamos que usar uma lei de difamação pode ser considerado excessivo para esta situação", admitiu o hotel. "No entanto, o hóspede se recusou a responder às nossas tentativas de comunicação e continuou a postar comentários negativos e inverídicos sobre o nosso negócio".

A declaração prosseguia: "Queremos apenas garantir que estes comentários inverídicos parem, e por outro lado não tivemos nenhuma chance de negociar uma solução com o hóspede até depois de apresentarmos queixa junto às autoridades".

O TripAdvisor divulgou um comunicado afirmando que estava investigando o incidente e que era contrário a que uma pessoa fosse condenada por causa do conteúdo de um comentário.

"O TripAdvisor se opõe à ideia de que um turista possa ser condenado por expressar opiniões", afirmou a companhia. "Felizmente, em termos globais, condenações como esta são raras e centenas de milhões de turistas podem expressar-se livremente sem enfrentar acusações criminosas".

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Estadão
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