Envie um cartão virtual de Gil na rádio Expresso 2222Veja apresentações acústicas exclusivas do cantor no Chat Show
Leia entrevista de Gil no Percpan 2000
Veja também:
» Milton e Gil se apresentam em festival de Jazz em Paris
» Gil processa Warner
Como um bom vinho Bordeaux tinto, Gilberto Passos Gil Moreira vem passando por um processo de vinificação de sua musicalidade que serve de exemplo para seus companheiros de profissão. Completando 59 anos hoje, o baiano de Salvador está em plena atividade, longe da aposentadoria dos meios musicais - na primeira semana de julho, no dia 7 mais precisamente, estará ao lado do parceiro Milton em um show no 6º Festival de Jazz de Vilette em Paris. Antes disso, continua sua bem-sucedida turnê no Brasil com o mineiro e informou, por meio de sua assessoria, que quer passar esta terça descansando.
Apesar de intimamente ligado à música, Gil expandiu sua atuação para a direção de festivais musicais (Percpan), criação de rádio online (Expresso 2222), participação em eventos sociais (Movimento GNT) e outras atividades pelo país. Com uma extensa carreira, mantém uma aura de respeitabilidade que poucos no Brasil podem dizer que tem. Gil parece reencarnar o rei Midas, pois tudo que toca imediatamente ganha peso e verdade. Se faz a trilha de um filme como Eu Tu Eles, por exemplo, ela vira hit nas paradas brasileiras. E Gil não parece se preocupar com o ouro que cria, tanto que vive dando entrevistas e gentilmente explicando seus pontos de vista.
A trajetória "mitológica" de Gil teve sua estréia musical oficial no longínquo compacto de 1962 Povo Petroleiro, com a marcha Coça, Coça, Lacerdinha. De lá para cá sua biografia se transforma em um infindável número de acontecimentos significativos dentro da música e adjacências. O disco de estréia foi Gilberto Gil - Sua Música, Sua Interpretação, de 1963. Fã de João Gilberto, chegou a cantar no mesmo estilo que a fonte geradora da bossa nova.
Festivais
Em 1965 conheceu seu parceiro mais recorrente, Caetano Veloso, na direção do show Inventário. No mesmo ano, já morava em São Paulo e circulava pelos meios culturais da cidade. Com Maria Betânia, Gal, Tom Zé e Caetano, participou de vários espetáculos teatrais, o que chamou a atenção da cantora Elis Regina, que passou a incluir músicas de Gil no famoso programa de TV O Fino da Bossa, da TV Record. Louvação foi seu primeiro hit.
Nessa época, deixou seu emprego burocrático na Gessy-Lever e gravou seu primeiro LP por um selo grande. A participação no Festival da Record com Domingo no Parque, ao lado dos Mutantes, foi um momento decisivo na carreira de Gil. Outras canções do compositor também participaram do III FMPB, nas vozes de outros cantores.
O tropicalismo e seu efeito na música popular brasileira começava nesta época e o disco Gilberto Gil trazia todas as características do movimento. Tropicália ou Panis et Circensis mostrava que o caminho da tropicália era diferente da bossa nova que marcava o perfil da MPB da época.
Gil continuou se apresentando nos Festivais da Record, veículo das idéias musicais e políticas mais significativas da cultura brasileira dos anos 60 - afinal, a TV e a música levavam para o país todo as mensagens às vezes não tão veladas assim contra a ditadura.
Prisão e exílio
Com isso, em 1968, Gil, ao lado de Caetano, foram presos em dezembro em São Paulo e soltos na Quarta-feira de Cinzas em 1969. Em confinamento e já em Salvador, compôs um de seus hinos, Aquele Abraço. Lançou o disco seu terceiro disco e logo arrumou suas malas para um exílio em Londres.
Ficou quase três anos fora do país e enviou canções como Fechado para Balanço, gravada por Elis Regina. Em 1972, lançou o disco Expresso 2222. um novo parceiro surgiu em 1975: Jorge Ben Jor, com o disco Gil-Jorge. Rita Lee juntou-se ao barco em 1976 com o disco e show Refestança.
Seu nome já rodava em círculos extrangeiros devido à vários shows, como Montreaux, e discos gravados fora do Brasil, como Nightingale. Em 1979 lançou mais um disco clássico de seu currículo, Realce, com uma "pegada" mais pop. A vertente reggae de Gil talvez tenha se acirrado com a parceria com Jimmy Cliff, em 1980, quando a dupla fez shows pelo Brasil.
Vários discos vieram: Um Banda Um, Extra, Raça Humana. Gil não começou sua carreira como "trilheiro" para cinema com o recente filme Eu Tu Eles - fez Quilombo, Jubiabá e Um Trem para as Estrelas, entre outras. O último filme/música, aliás, foi feita em parceria com Cazuza e parte de um novo segmento na música brasileira: o forte pop rock dos anos 80.
Seu primeiro disco acústico oficial também não foi o lançado pelo selo MTV - Gilberto Gil em Concerto, de 1987, já trazia Gil no formato que ele mesmo diz nunca ter saído. Com um pé informal na política, acabou elegendo-se Vereador - algo que poucos lembram - por Salvador com o maior número de votos já alcançado por um candidato na região.
Prestígio
O X Prêmio Shell deu-lhe um prêmio pelo conjunto de sua obra em 90 - além de receber o título de Cavaleiro da Ordem e das Artes do Ministério da Cultura Francês. Continuou sua carreira internacional com shows, como o que fez ao lado de Caetano, Tom Jobim e Sting para a fundação Mata Virgem, e discos como Afoxé - Ernie Watts With Gilberto Gil. Rodou a Europa com voz e violão em punho, recebendo mais uma homenagem no Festival de Montreaux de 1993.
Sua trajetória pelos anos 90 reafirmaram seu prestígio e qualidade no cenário da MPB. O Unplugged de Gil, marco do selo da MTV, o CD duplo Quanta, e a versão ao vivo do mesmo, asseguravam seu lugar na música, enquanto, ao lado do percussionista Naná Vasconcelos, promovia o Percpan, Panorama Percussivo Mundial - festival que trouxe diversos artistas de qualidade para o país, além dos brasileiros, em ousados formatos percussivos.
A recente união com o mineiro Milton Nascimento para um CD é uma das facetas do trabalho do compositor baiano. Da parceria com um dos cantores brasileiros mais respeitos no exterior, percebe-se um lado às vezes subestimado de Gil, o da interpretação. Passou o tempo e Gil depurou seu melhor instrumento, a voz.
Ricardo Ivanov / Redação Terra
volta