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TeatroEscola: O caminho da arte para periferia de Salvador

TE visa tornar a juventude extremamente questionadora, fazendo com que ela se conheça e se aproprie da própria história

21 abr 2022 05h00
| atualizado em 25/4/2022 às 10h53
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Salvador é uma cidade que expressa arte e cultura em todo o território, principalmente nas comunidades. São as diversas manifestações culturais populares e espaços de artes que fazem parte e encantam a toda população na capital baiana.

Em 2003, a Lei 10.639 entrou em vigor e alterou a Lei de Diretriz da Educação, tornando obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira na grade curricular do Ensino Fundamental e Médio.

Mesmo com essa lei em vigor há muito tempo, será que os jovens dos bairros periféricos têm facilidade em estudar e/ou produzir arte e cultura em Salvador?

Para melhorar o acesso, algumas instituições, como o TeatroEscola (TE), oferecem cursos gratuitos destinados aos jovens que não possuem condições de entrar em um projeto para desenvolver cultura e arte.

De acordo com Roberlan Araújo, o TeatroEscola lhe deu acesso a discursos libertadores e encontros socioculturais de grande impacto que nortearam sua atuação profissional enquanto produtor cultural.

“O olhar diferenciado sobre questões identitárias e sociopolíticas presentes na instituição me preparou para estar em todos os espaços. Hoje me reconheço enquanto um agente de transformação no meu território, atuando na gestão pública como Superintendente Municipal de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Gênero em Ituberá, Baixo Sul da Bahia”, conta.

Ele, que é ex-aluno da instituição, tem 27 anos, e é produtor cultural, diz que o TE oferece consciência racial e de classe social, a partir disso se criam objetivos com criatividade e soluções.

“O primeiro passo é a consciência racial e de classe, maior tesouro ofertado pela escola. A partir daí, você consegue mirar seus objetivos com pés no chão e a cabeça cheia de novas ideias e soluções”, afirma.

O ex-aluno ressalta que os jovens devem ser protagonistas para assim mudarem todo o ambiente em que vivem. “Jovens negros periféricos, hoje, só têm acesso à violência e às políticas públicas sucateadas. Quando nos tornamos protagonistas, mudamos tudo ao nosso redor, despertamos os nossos e asseguramos nossa dignidade”, relata.

Mesmo não estudando mais na instituição, ele já foi voluntário por dois anos no setor de produção executiva e comunicação. Araújo lembra que quando chegou no TeatroEscola precisava de um acolhimento, pois já morava em Salvador - na comunidade do Nordeste de Amaralina - mas, como a maioria dos jovens negros, estava desempregado e precisava de oportunidades.

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

“Encontrei tudo isso lá. Comecei como estudante de produção cultural, depois adentrei no departamento estudantil e posteriormente estava coordenando as produções executivas da escola. Neste período, tive acesso a muita informação e oportunidades de trabalho, dentro e fora da escola”, relembra.

O produtor cultural conta que gosta da diversidade pulsante que há na instituição e destaca como ela é importante para ele.

“Como não falar das vivências com a comunidade surda?! Tivemos professores surdos, colegas e grandes profissionais que nos ensinaram muito sobre a potencialidade na diversidade. Um dos momentos mais incríveis (e são muitos) foi o workshop de percussão surda com o grupo ‘MusiLibras’. O melhor é que sempre fica a sensação de família, o laço só cresce”, exalta.

Já para a aluna Elane Anjos, de 27 anos, moradora do bairro de Periperi, subúrbio de Salvador, o curso mudou sua vida.

“Tive uma melhora surreal em relação ao meu comportamento e conhecimento, principalmente sobre minhas raízes. Com isso, sou mais comunicativa, confiante, me sinto preparada para as batalhas da vida e hoje consigo ajudar outras pessoas”, garante.

Atualmente, Anjos faz três cursos na instituição: teatro, fotografia e produção cultural. Segundo a aluna, o TE é muito importante na vida dos jovens das comunidades: "O Teatroescola mostra que somos fortes e que temos um apoio muito forte que vem de Nell Araújo [gestor da TE]. Para mim, ele é um espelho que reflete coisas incríveis.”

Anjos conta que está no setor de comunicação da instituição, trabalhando voluntariamente. “Estou no setor de comunicação do Teatroescola, trabalhando voluntariamente com meus colegas para que essa família nunca se perca. Está sendo incrível toda a experiência e dedicação para selar nossa caminhada”, afirma.

Elane Anjos diz que foi por meio do TeatroEscola que a vida dela como fotógrafa melhorou.

“Foi através do teatro que minha vida como fotógrafa iniciante deu um up (se elevou), pois fiz um ensaio chamado ‘As pretas’. A instituição me deu a chance de expor esse ensaio no site. Fiquei muito feliz que outras pessoas me apoiaram”, revela.

TeatroEscola

De acordo com o idealizador e gestor do TeatroEscola, Nell Araújo, de 34 anos, o projeto surgiu de um sonho ainda quando era garoto, aos 12 anos de idade. Ele recebeu da avó um ingresso para ir ao teatro, mas percebeu que os amigos da comunidade nunca tiveram acesso a esses espaços de arte e cultura.

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

“Minha avó me presenteou com um ingresso de um teatro e a primeira coisa quando eu acessei o local foi voltar para minha comunidade. Foi nesse momento que percebi o quanto meus amigos nunca acessaram espaços de arte e cultura, isto é, um teatro”, relembra.

Ele, que nasceu na comunidade da Gamboa de Baixo, em Salvador, prometeu que um dia iria colaborar para que os amigos e familiares pudessem se fazer presentes em espaços como o teatro. “Se passam anos, me formo em relações públicas e entro na área da cultura, posteriormente desenvolvo o TeatroEscola, em 2018."

De acordo com Nell Araújo, o TeatroEscola, que funciona dentro do teatro Jorge Amado, traz um conceito de uma escola de arte e cultura que tem um centro de estudos da cultura afro-brasileira e indígena para trazer um pertencimento da juventude com sua história e cultura.

“TeatroEscola veio para ter esse lugar. O nome diz teatro escola e não escola de teatro, pois a gente tenta ressignificar os espaços de arte e cultura transformando-os em uma escola de formação”, afirma.

Ele frisa que a instituição é uma escola de educação humanística, que oferece cursos com no máximo um ano de formação, com direito a certificados artísticos de teatro, produção cultural, libras nas artes, dança moderna, técnico de palco e produção de arte. “Uma escola que traz esse lugar de escola vivencial e que traz à existência uma grande provocação que é possível, sim, falar sobre educação e cultura no mesmo espaço e não de formas separadas”, diz.

O gestor fala que a instituição se tornou a primeira escola de arte e cultura no Nordeste a ter um curso de libra nas artes, em que forma os jovens para se tornarem intérpretes nas áreas da arte e da cultura.

Além disso, eles têm um componente extenso que é a formação sociopolítica que também complementa as informações deles.

“As disciplinas que eles possuem dentro da escola são componentes curriculares voltados aos estudos da cultura afro-brasileira. Nas diversas matérias trabalhamos também com os estudos indígenas e eles têm acesso a componentes de direitos humanos, afroempreendedorismo, além da aula de curadoria artística e muito mais dentro da estrutura curricular da escola”, explica.

Além desses cursos, o TE este ano vai oferecer aulas presenciais e também aulas pela plataforma no laboratório virtual de arte e cultura, que é uma ferramenta que a escola criou para trabalhar cursos informativos. “A gente esse ano vai ofertar um curso de cerimonial e protocolo para eventos culturais e outro para a elaboração de projetos”, revela.

O produtor cultural explica que a instituição beneficia os jovens no desenvolvimento, além da profissionalização na área da arte e cultura.

“O benefício da escola é o progresso do jovem com a sua matriz cultural e histórica. Eu acho que isso é o primeiro ponto. Claro que temos outros benefícios, como profissionalização na área da arte e cultura”, assegura.

Ele faz questão de falar que o TE torna a juventude em um ser bastante questionador politicamente, além de fazer com que os jovens se apropriem da própria história.

“O Teatroescola possui esse lugar de tornar a juventude um ser extremamente questionador político e fazendo com que eles conheçam e se apropriem da própria história. Eu acho que são os principais pontos da nossa instituição. Quando a gente mexe no empoderamento do conhecimento, é essencial e extremamente transformador”, enfatiza.

Ainda conforme Nell Araújo, a instituição traz uma coisa bastante interessante: “A gente prepara esses jovens hoje dentro do Teatro Jorge Amado para que eles se tornem lideranças e possam ter o seu próprio protagonismo dentro dessas comunidades, que eles aprendam na instituição e levem esse seu processo para continuarem impactando dentro de suas comunidades”, destaca.

Embora os benefícios sejam notórios, a instituição tem um grande desafio em sua “caminhada”: a busca por um patrocinador oficial que possa manter as atividades da escola, que já está na ativa há quatro anos. 

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

“A escola vem se mantendo através de uma rede colaborativa de voluntários profissionais e apoiadores. Então, o nosso grande desafio hoje é ter um aporte financeiro, ou seja, ter um apoiador que possa contribuir para uma formação dos jovens”, avisa. 

Ele diz que, mesmo com a falta de apoiadores e sem recursos, a escola já formou, até hoje, quase 600 jovens. E mais de 5 mil espectadores assistiram aos trabalhos e amostras culturais dos alunos. 

“Nessa jornada de atuação, conseguimos fazer um projeto sem recursos financeiros com muita aptidão, no qual acredito que essa qualidade fez com que a escola se tornasse a referência de uma escola de arte e cultura no Brasil. Imagine, uma escola de Salvador trazendo esse modelo transgressor artístico quando se fala em uma escola de arte e cultura afrocentrada”, pontua.

O idealizador explana que para o jovem entrar na instituição, ele participa de um processo seletivo, por meio de um edital.

“As inscrições acontecem no site (www.teatroescola.org) e os candidatos passam por uma série de processos e dinâmicas grupais para entenderem a filosofia e a base de estudos da escola. Depois, eles passam por uma dinâmica desses trabalhos que a gente realiza em grupo. Após isso tudo, sai o resultado dos alunos que estarão presentes no ano letivo na escola”, esclarece. E completa:

“A gente sempre tenta fazer um processo seletivo muito mais humanizado. Um processo para diferenciar um pouco daqueles que todo mundo já está acostumado, que é um pouco maçante e que traz danos psicológicos para a mente da população periférica”, conta.

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

Ele explica que oferece cursos gratuitos de arte e cultura para a população negra, que no Brasil costumam ser caros.

“Os cursos de arte e cultura no Brasil ainda são caros e a gente sabe que quando se discute a presença da população negra periférica hoje, têm vários quesitos na sociedade. Contudo, a arte é excludente, isso já é um fato, então a gente pensou que uma forma de tornar isso muito mais acessível foi oferecer cursos gratuitos”, explica.

Ele conta que por causa da pandemia que os atingiu, esse ano vai ter uma taxa única para fazer a matrícula, porém o ano letivo não tem mensalidade.

“Eles pagam uma taxa única na matrícula, porém o ano letivo inteiro deles não tem mensalidade e partiu deles essa questão da manutenção para escola, pois a gente não tem nenhum tipo de apoiador para manter ainda viva toda a organização para poder contribuir em alguns pontos no processo escolar deles dentro da instituição”, conta.

Segundo Araújo, a escola tem um quadro de jovens negros de 98%, já que a maioria da população é formada por negros e, com isso, cria-se uma política preferencialmente para eles.

“A gente precisa dizer que os grandes moradores são da população negra, então por isso a gente cria essa política e dá esse lugar no processo seletivo aos jovens negros que se autodeclaram afrodescendentes e também indígenas, então são pessoas que a gente termina tendo essa prioridade no processo de seleção”, diz.

Entretanto, ele salienta que isso não é um processo de exclusão, pois se tiver algum outro jovem que queira entrar no TE será bem-vindo.

“Quanto mais jovens dentro da escola estudando arte e cultura e os estudos da Cultura afro-brasileira, a gente sabe que está contribuindo para mudar a vertente social e histórica desse país”, afirma.

O sonho da instituição, de acordo com o idealizador do projeto, é ser uma escola de referência em arte e  cultura no Brasil e ser reconhecida como uma escola de qualidade, mesmo oferecendo de forma mais acessível a educação.

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

“Estamos conquistando esse sonho aos poucos, esse reconhecimento. Por enquanto, podemos dizer que a escola já está tendo uma relevância internacional, na África, com as parcerias que a escola vai fechando com o continente Africano, com os países da língua portuguesa presentes nesses países”, fala entusiasmado.

Nell diz que o TeatroEscola hoje é uma instituição com centro de estudos da Lei 10639, de 2003, que traz essa obrigatoriedade da cultura afro-brasileira dentro do escopo educacional e indígena. Além disso, é oferecido um programa de intercâmbio, desenvolvido no ano passado, com os países da língua portuguesa na África por meio dos jogos africanos.

“A gente também tem o 'Colado com Enem', que é um projeto de linha de formação que oferece ‘aulões’ preparatório para o Enem. Em 2020, conseguimos ter mais de 22 alunos aprovados no nível superior. Então, a gente tem esses programas de intercâmbio e preparatórios para o Enem, tudo isso integrado da escola artística”, conta.

Transformando vidas

“O TE, a partir do oferecimento de cursos artísticos, transversalizados por componentes sociopolíticos, possibilita ao jovem uma amplitude de visão quanto aos seus talentos e competências; quanto à realidade que o cerca e quais alternativas tem para protagonizar sua caminhada enquanto pessoa e profissional”, confirma a pedagoga, Jane Carvalho, de 57 anos.

Ela é coordenadora do Núcleo Pedagógico da instituição e diz que o TE é operado 100% por voluntários. “São pessoas e profissionais de excelência que abraçam a causa e fazem acontecer”, afirma.

Foto: Agência de comunicação TeatroEscola

A pedagoga relata que atende a um contingente de jovens que enfrenta uma realidade dura, no sentido da desvalorização da arte e da cultura, da banalização da violência, da naturalização da superficialidade e de um sistema de educação tecnicista.

“O TeatroEscola surge como um oásis, no qual são oferecidas possibilidades de análise e reflexão sobre essa realidade, ou seja, o exercício da flexibilidade e criatividade evidenciando que existem uma infinidade de alternativas no campo da cultura e da arte para os jovens”, conta.

Ela explica que a instituição desenvolve um trabalho cultural muito importantes nas comunidades soteropolitanas, por meio de festivais e amostras culturais.

“O trabalho cultural é muito importante a partir de nossas mostras culturais, festivais, sobretudo, pelo processo de multiplicadores, uma vez que, no geral, os jovens quando saem do teatro, caminham com o sentimento de pertencimento e responsabilidade com sua realidade e sua comunidade”, afirma.

Carvalho reforça que projetos como esse são importante para as comunidades: “Sumamente importantes, pois abrem e ampliam a visão para o novo e para que nos esperancemos por dias melhores”.

Ela conta que muitos jovens já passaram no TeatroEscola e hoje estão construindo carreiras de sucesso.

“Posso dizer de um jovem que iniciou conosco, aos 14 anos, muito tímido, e hoje está produzindo sua carreira de modelagem e a carreira da mãe, como estilista. Ou outro jovem que hoje está estudando na Universidade de São Paulo (USP) e já nos avisou que quando se formar vem para o TeatroEscola como educador voluntario”, conta alegremente.

Jane Carvalho diz que se sente esperançosa por transformar a vida de tantos jovens.

“Me sinto esperançosa e revigorada! Esse sentimento me faz levantar todos os dias, acreditando que estamos contribuindo para a melhoria da vida de pessoas com o objetivo de uma mudança social planejada”, finaliza.

ANF
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