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Peça Nem Todo Filho Vinga luta para voltar ao Museu da Maré

Produção aborda temas como racismo, direito à cidade, acesso à universidade, políticas públicas na favela e relação com a polícia.

10 jan 2022 09h00
| atualizado em 11/1/2022 às 10h25
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Atores da peça Nem todo Vinga no Morro do Timbau_Complexo da Maré
Atores da peça Nem todo Vinga no Morro do Timbau_Complexo da Maré
Foto: Thiago Santos / ANF

O espetáculo “Nem Todo Filho Vinga”, da Companhia Cria do Beco, tenta retornar ao palco do Museu da Maré, depois de dois anos de interrupção, por causa da pandemia, com reestreia prevista entre o fim de fevereiro e início do mês de março.

Ganhadora do 9° Festival de Teatro Universitário (Festu), em 2019, a produção foi baseada na obra “Pai Contra Mãe”, do escritor Machado de Assis (1839-1908). A cena desenvolvida por jovens universitários, negros e moradores do Complexo de Favelas da Maré, nasceu a partir da provocação feita pelo autor, que termina sua obra literária com a frase que dá título à cena: “Nem todo filho vinga”. Segundo Renata Tavares, 43 anos, estudante de artes cênicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), professora no Entre Lugares Maré e encenadora do espetáculo, o objetivo é mostrar a relação da universidade com os favelados, falar sobre o embranquecimento do autor e abordar as realidades vividas pelos jovens da favela.

Espetáculo premiado que fala de resistência luta pra retornar aos palcos da maré
Espetáculo premiado que fala de resistência luta pra retornar aos palcos da maré
Foto: Cynthia Salles / ANF

“O ‘Nem Todo Filho Vinga’ está refletindo o momento atual depois do evento com o George Floyd (afro-americano assassinado em Minneapolis- EUA, em maio de 2020, estrangulado por um policial branco durante uma abordagem, por supostamente usar uma nota falsa de vinte dólares em um supermercado); a gente começou a se questionar e  discutir sobre os direitos dos pretos, o quanto eles foram escravizados, então, eu acho que é o momento da comunidade preta saber quais são os seus direitos e requerer todos eles, o que lhes pertence”, afirma.

Produção aborda temas como racismo, direito à cidade, acesso à universidade, políticas públicas na favela e relação com a polícia.
Produção aborda temas como racismo, direito à cidade, acesso à universidade, políticas públicas na favela e relação com a polícia.
Foto: Cynthia Salles / ANF

E completa: “nós não vamos sentar com as pessoas e explicar porque o racismo acontece, é questão de ensino e educação, vão ter que tentar entender, porque já se passou bastante tempo e, se não aprenderam até hoje, não vamos ser nós a sentar pacientemente e detalhar. Falta paciência pra explicar para os brancos o racismo estrutural, no qual não temos sobrenome, nem as mesmas oportunidades, mas temos que tomar cuidado na rua porque sempre podemos ser alvejados, isso não tem como ensinar para alguém porque só quem é preto é que vive".

Depois de ganharem o prêmio como a melhor esquete (produção teatral de curta), a companhia iria se apresentar na Mostra de Teatro de Curitiba-PR, entretanto, os planos foram interrompidos pela pandemia. Renata lembra que ainda tentaram manter os trabalhos de forma remota, mas a dificuldade com a conexão impediu.

A peça, escrita por Pedro Emanuel com colaboração da Companhia Cria do Beco, foi reformulada durante esses dois anos e aborda temas como o racismo, direito à cidade, acesso à universidade, políticas públicas na favela e relação com a polícia. O espetáculo é acompanhado pela música de Gabriel Medeiros da Silva, 23 anos, nome artístico Zaratustra, que vive o personagem Digão e divide a direção musical com Renata.

“Renata é uma pessoa da voz, traz muito a questão do solfejo (que é quando você lê as notas musicais quase como se fizesse o som do instrumento com a boca); eu pego isso e transformo em música, de fato, com a guitarra, cavaco, ou batidas, qualquer dos instrumentos à disposição”, relata Zaratustra.

Apoio Financeiro e participação da comunidade

Quando questionada sobre o apoio financeiro para manter o projeto ativo, Renata diz que o dinheiro está contado e, diversas vezes, já surgiu a dúvida sobre o que seria feito para manter a produção, já que o projeto faz parte da Companhia Cria do Beco, trabalho criado a partir dos encontros e não conta com apoio financeiro, porém, o dinheiro arrecadado em 2020, na Festa no Beco, que seria usado para custear o transporte do cenário para a mostra de Curitiba está guardado e algumas parcerias haviam sido pagas antes da pandemia.  

“Trabalhamos sete horas por dia e precisamos de pelo menos um lanche, mas todo dinheiro que seria usado para transporte e lanche dos atores acabou. Moro em Bangu, tenho que fazer sete baldeações até chegar aqui. É quando a gente vê que essa estrutura racista está mesmo entranhada, porque se de fato houvesse uma preocupação em ter um aparelho cultural ligado a esses órgãos, a gente não precisaria estar falando sobre isso. A valorização viria naturalmente”, lamenta a encenadora.

Renata diz que eles também não têm mais cachê e, para se manter, às vezes aparece algum trabalho, os artistas atuam tanto em grupo, quanto de forma independente. “Artistas no Rio de Janeiro que não têm contrato com a televisão, fazem qualquer coisa para pagar os vencidos, todo mundo tem uma série de funções, numa pessoa só, para poder dar conta”.

Para conseguir voltar aos palcos, a equipe iniciou uma campanha de arrecadação. As doações podem ser feitas pela chave PIX do espetáculo: producaonemtodofilhovinga@gmail.com.

No dia dessa entrevista, o ator Jefferson Melo, 26 anos, que interpreta Maicon, protagonista da peça, e outros dois membros do elenco, foram diagnosticados com coronavírus, por isso essa entrevista aconteceu por telefone e eles disseram estar vivendo um dejavú, já que, há dois anos, quando estavam prestes a estrear em Curitiba, a apresentação foi cancelada às pressas, e depois, novamente adiada devido à pandemia.

Melo lembra que fazer a favela ir ao espetáculo já era um desafio existente antes da pandemia e será uma dificuldade novamente, mas acredita que os mareenses irão prestigiar a apresentação. “Depois que passar a quarentena, vamos refazer os testes e, com certeza, a gente vai voltar, porque estamos com uma sede enorme de falar e de mostrar o nosso espetáculo, de fazê-lo na favela”, afirmou.

 

Anderson Oli, de 26 anos, que dá vida a Wallace na peça, disse que a retomada está sendo um desafio. “É um pouco frustrante pensar nesse momento. Nosso espetáculo fala sobre vidas e a gente traz essa temática: por que nem todo filho vinga?”, ao mesmo tempo, o ator diz estar esperançoso para o espetáculo e deseja que consigam se apresentar. Também deseja que a pandemia acabe para rever os amigos. Oli acredita que a retomada é um suspiro para a cultura e para os artistas e políticos que pensam em um futuro melhor e mais justo.

O Museu da Maré, palco do espetáculo, fica localizado na Av. Guilherme Maxwel, 26 – Morro do Timbau, Maré, Rio de Janeiro, RJ. Acompanhe mais sobre espetáculo pelas redes sociais @nemtodofilhovinga.

Ficha técnica:

Elenco: Anderson Oli, Camila Moura, Jefferson Melo, Natália Brambila, Ramires Rodrigues e Zaratustra

Encenação: Renata Tavares

Dramaturgia: Pedro Emanuel com colaboração da Cia Cria do Beco

Direção Musical: Renata Tavares e Zaratustra

Preparação Corporal e Movimento: Gabriela Luiz

Figurino: Tiago Ribeiro

Equipe de Iluminação: João Gioia, Lucas da Silva e Raimundo Pedro

Cenografia e Arte Gráfica: Flávio Vidaurre

Fotografia: Thiago dos Santos

Operador de som: Thiago Manzotti

Produção: Cia Cria do Beco

Produção e Produção Executiva: Vanessa Greff

"Trabalhamos sete horas por dia e precisamos de pelo menos um lanche"
"Trabalhamos sete horas por dia e precisamos de pelo menos um lanche"
Foto: Renata Tavares / ANF

 

Fonte: Equipe portal
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