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Por que o Jardim Ângela está topo da lista de covid em 2022?

Moradores apontam contaminação no trabalho e no reveillon. Distrito vive com alta na procura por atendimento médico

11 fev 2022 15h40
| atualizado em 14/2/2022 às 15h51
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UBS Jardim Nakamura, no Jardim Angela, zona sul de SP @Léu Britto/Agência Mural
UBS Jardim Nakamura, no Jardim Angela, zona sul de SP @Léu Britto/Agência Mural
Foto: Agência Mural

A advogada Maria Rhaiza de Souza Silva, de 27 anos, se viu sem conseguir respirar normalmente após semanas de dor de garganta, febre e calafrio que cessavam e voltavam durante as primeiras semanas de janeiro. "Acho que eu me contaminei no ano novo, porque lá tinha a mãe do meu padrasto, que estava bem gripada. Depois do ano novo, todo mundo ficou bem gripado", explica.

Moradora do Jardim Santa Lúcia, na zona sul de São Paulo, Maria Rhaiza chegou a procurar atendimento na UBS (Unidade Básica de Saúde) que atende a região, ficando seis horas à espera.

Realizou testes para detectar a presença da covid-19, mas todos deram negativo. Por falta de exame de gripe na unidade. Saiu sem saber o que tinha mesmo frente à subida de casos no começo deste ano.

A preocupação de Maria foi a mesma de ao menos outras 4.093 pessoas da área que pertence ao distrito do Jardim Ângela. Essa região, onde vivem cerca de 300 mil habitantes, começou o ano de 2022 como o bairro com mais casos de covid-19 e de gripe na cidade de São Paulo.

No bairro, UBSs lotadas, com longas horas de espera pelo atendimento médico, profissionais da saúde contaminados, relembram o começo da pandemia em 2020.

Uma profissional da saúde que conversou com a Agência Mural contou que a unidade de saúde onde ela trabalha chegou a atender 90 casos de covid-19 positivos em três horas de atendimento, no começo do ano.

"Na última semana de janeiro deu uma melhorada, já diminuiu bastante os casos e procuras, mas as duas primeiras semanas foram cruciais. Bem difícil mesmo, bem complicado", diz, citando ter visto famílias inteiras contaminadas de uma vez na região.

Trabalho presencial

Além das festas de fim de ano, moradores da região também citam a contaminação após o fim do home office, como foi o caso da assistente de vendas, Jaine Xavier Nascimento, 27, moradora do Guavirituba, bairro do distrito. "Acredito que me contaminei no trabalho, porque lá teve um surto de covid, uns cinco dias antes dos sintomas".

Inicialmente, Jaine teve sintomas leves que pioravam e melhoravam durante os 13 dias com o vírus ativo. Pela demora em fazer o exame pelo convênio, a assistente de vendas procurou uma farmácia, onde o resultado positivo saiu na mesma hora.

Sem conseguir confirmar se ficaram doentes durante as atividades no ofício, as queixas de Valmir de Souza, 58, e Francisca Lucidalva de Jesus Silva, 50, são as mesmas: colegas colaboradores usando máscaras de proteção no queixo.

Valmir é gerente de loja e fez teste rápido em uma farmácia após um surto de tosse, que deu positivo. Ao procurar uma UBS para confirmar a doença, ficou indignado por não solicitarem mais exames e ao ouvir que ele estava assintomático.

Já Francisca, que é auxiliar de limpeza, precisou se ausentar do trabalho enquanto aguardava o resultado e encarou uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial) lotada durante seis horas de espera.

Testes em falta

Exames para detectar a covid-19 ficaram escassos em muitos postos de saúde espalhados pela cidade, o que ajudou na dificuldade em confirmar novos casos da doença.

Moradora do Riviera, o auxiliar de departamento pessoal e fiscal Diego Luiz Rego Costa, 35, procurou atendimento em uma UBS distante de sua residência para falar sobre o que vinha sentindo: dor no corpo, falta de ar, tosse, nariz irritado e coriza, sem sentir o gosto da comida e nem mesmo o cheiro. "Os primeiros dias foram surreais", contou.

Diego ficou sem saber se o que lhe causava mal estar era covid, pois a unidade de saúde não tinha o exame disponível, e as farmácias procuradas não atendiam em domicílio.

"Precisaria fazer o teste presencialmente, pois a farmácia não fazia em casa, mas não fui devido ao estado de saúde; não conseguia nem sair da cama"

Diego Luiz

Menos letalidade

Apesar de ser o bairro com mais casos de gripe e covid, o Jardim Ângela foi o 44º em vítimas por causa do coronavírus neste começo de ano. A região registrou nove vítimas da doença. Na capital, os distritos de Itaquera, com 28, Saúde, com 22, Jabaquara, com 21, e Jardim São Luís, com 19, foram os que tiveram mais perda.

Um dos pontos para a redução da letalidade é a vacinação. É o que acredita o técnico de suporte de TI (Tecnologia da Informação) Lucas Francisco Lima, 25. "Possuo rinite e sinusite, que são agravantes, e sabe se lá Deus onde estaria sem a ajuda das vacinas".

Vacinação em posto do Jardim Ângela @Léu Britto/Agência Mural
Vacinação em posto do Jardim Ângela @Léu Britto/Agência Mural
Foto: Agência Mural

Ele e a esposa, Vitória Cristina Sousa Lima, 23, foram pegos de surpresa no último dia 22 de janeiro. Em princípio, acreditaram ser uma gripe comum, tratando a febre com antitérmico e chá, mas o sinal de alerta veio com o cansaço e a persistência dos sintomas.

"Cansaço de varrer a casa e já sentir muito, como se tivesse corrido uma maratona. E tosse seca que, por consequência, chegou a dar dor de garganta", disse a auxiliar administrativa.

Ambos conseguiram passar por teleatendimento médico e, devido ao convênio da esposa, realizar o teste, que foi liberado em duas horas com o "detectado". Os dois passam bem. "Após ter passado o susto de ficar dois dias sem levantar da cama, praticamente, é bom ter tido a oportunidade de ter me vacinado.

 

Prefeitura nega falta de testes

Por meio da SMS (Secretaria Municipal da Saúde), a Prefeitura de São Paulo afirmou que vem realizando o diagnóstico para covid-19 e Síndrome Gripal de forma clínica desde o dia 15 de janeiro na cidade.

Tendo adotado protocolo específico para a testagem aos grupos prioritários e assim, garantir a testagem de covid-19 até a chegada de mais testes, devido ao avanço da Ômicron, "baseado na recomendação da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), de janeiro de 2022".

Sobre as declarações de não haver testes de covid-19 e Influenza nas unidades de saúde do Jardim Ângela, a CRS (Coordenadoria Regional de Saúde) Sul informou pela SMS que "em nenhum momento as unidades da região do Jardim Ângela ficaram sem o exame para diagnóstico da covid-19".

E que tanto a UBS Santa Lúcia quanto a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Jardim Ângela, ambas administradas pela OSS (Organização Social de Saúde) Cejam (Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim), atenderam pacientes com sintomas gripais e com quadro completo de funcionários.

Durante o mês de janeiro, foi informado que 587 testes RT-PCR e 266 TRA (Testes Rápidos Antígeno) foram realizados na unidade de saúde do Santa Lúcia, e 5.022 testes RT-PCR e 1.697 TRA realizados na UPA Jardim Ângela.

"A SMS não interromperá a realização dos testes de covid-19 na capital, pois dispõe de contrato para a realização do RT-PCR para atender a necessidade da população. Em dezembro de 2021 os testes de covid-19 foram recebidos do Ministério da Saúde e do Estado de São Paulo, suprindo a demanda até a presente data", diz a nota.

Agência Mural
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