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Favelados e periféricos ganham força na literatura do país

Falta de espaço para as obras de autores que não têm como investir em grandes editoras está sendo substituída por projetos independentes

17 jan 2022 08h00
| atualizado às 16h50
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Encanto Marginal retrata o dia a dia do morro
Encanto Marginal retrata o dia a dia do morro
Foto: Rodolfo Ataíde / ANF

Durante décadas, assumir uma identidade periférica era revelar-se como um sujeito pobre, sem acesso à educação de qualidade e um marginal, no sentido literal e pejorativo. As diferenças e desigualdades deixavam a favela cada vez mais distante de ser sinônimo de respeito e poder. Ainda falta muita coisa para que esse povo seja visto com a dignidade que merece, mas essa é uma outra história.

A narrativa de hoje pode fazer a diferença na vida de muitos artistas literários dos morros. A falta de espaço e oportunidade de circulação das obras de autores que não têm como investir em grandes editoras, está sendo substituída por projetos independentes que ajudam a tirar as palavras das gavetas.

Essa é uma das missões de Dereck. O poeta ensina poesias a jovens, de 12 a 24 anos, através do projeto “Poetas da Vila”, na Vila Embaúbas, zona oeste de Belo Horizonte. Ele explica que fez de sua própria trajetória, uma motivação para ensinar, orientar e fazer das palavras um incentivo para desviar o olhar dos jovens dos caminhos errados.

Dereck Carvalho
Dereck Carvalho
Foto: Ayara Mendes / ANF

Desde os 10 anos, ele escreve e, há cinco, decidiu o que gosta profissionalmente. "Por que não criar os Poetas da Vila e multiplicar esse dom literário de brincar com as palavras e escrever sobre sentimentos?", questiona.

O escritor conta que a inspiração dos seus versos está ligada às vivências, acontecimentos e cotidiano do universo periférico. Dereck divulga seu trabalho espalhando poesias pelas ruas e avenidas das cidades por onde passa. "A ideia é fazer com que a poesia alcance mais vidas e atinja milhares de corações", diz.

Autor da obra independente "Eu Escolhi Trajetos para Evitar Tragédias", mais um fruto da própria história de vida na periferia, ele relata que o livro carrega suas memórias e pensamentos sobre o mundo.

Além do talento para a literatura, o poeta é circense, e explica que, antes de conhecer o circo, andava por caminhos infelizes. A partir daí percebeu que a arte pode transformar vidas e mudar desfechos. Ressignificou e compartilhou sua história através de sua obra e, atualmente, é uma referência para a garotada da zona oeste e de outras vilas da capital.

Poesia de Saraus aborda diversos temas
Poesia de Saraus aborda diversos temas
Foto: Divulgação / ANF

O autor discorre sobre os diversos talentos anônimos que se escondem nas favelas e relata sobre como é difícil ser reconhecido e valorizado como artista, enquanto não aparece nas principais mídias e não adquire um bom ganho material. "É triste ter que ser assim, porque nem todo mundo tem visibilidade e são artistas incríveis que geram conteúdos e produzem arte", lamenta.

Produzir a obra e divulgar não foi tarefa fácil para Dereck. Foi um percurso marcado por falta de recursos, mas nenhum obstáculo o fez desistir. Ele redigiu todo o texto num notebook emprestado por amigos. Somente nos três últimos anos, o trabalho tem tido destaque. Pessoas que antes não apostavam em seu talento, agora estão começando a se impressionar com as entrevistas e palestras que ele participa. O livro também virou uma websérie que pode ser vista nas redes sociais do escritor.

E esse olhar diferente das pessoas quando veem alguém próximo fazendo sucesso através da arte foi percebido também por Rodolfo Ataíde, 36 anos, poeta e gestor cultural. "Eu acho que todas as pessoas poderiam escrever um livro, lançar seus textos e ler mais e não colocar o escritor nesse lugar de pedestal", comentou. 

Porém, ler ainda não é hábito do brasileiro, mesmo com o aumento de 36,1 milhões de exemplares vendidos de janeiro a setembro de 2021, 39% a mais, em comparação ao mesmo período em 2020, segundo divulgação do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). Em contrapartida, de acordo com o levantamento da quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizado pelo IBOPE e recomendada pelo Instituto Pró-livro, apenas 52% dos brasileiros leem. Desses, a média de livros lidos do início ao fim é de 4,2 por pessoa. Essa é a única pesquisa em âmbito nacional que tem por objetivo avaliar o comportamento do leitor brasileiro.

Ainda conforme divulgação do Retratos da Leitura no Brasil, a quantidade de leitores que ganham entre 5 e 10 salários mínimos é maior do que quem ganha menos. Conclui-se que quanto menor a renda e as condições sociais, maior o número de não leitores.

Rodolfo foi um dos que conseguiu contrariar essa estatística, apesar de relatar que as escolas que frequentou tiveram um papel negativo em relação à leitura e à poesia. Ele explica que não adquiriu o apoio necessário de professores e a educação que recebeu não teve influência na sua relação com a literatura. "Eu tive um processo traumático com a poesia, sabia que eu gostava e que queria ler, mas não tive essa ponte. Fui até a poesia de forma espontânea, individual", relembrou.

Sobre a família, Rodolfo reforça que é de origem humilde, filho de empregada doméstica e porteiro. Teve o incentivo dos pais para estudar, mas os próprios não tiveram a cultura da leitura em suas trajetórias e não puderam ser os mediadores e influenciadores do filho. Ele, que diz ser o primeiro da família a ter uma ligação profunda com a literatura, compreende as dificuldades dos pais, que vieram do interior e tiveram que trabalhar muito, e se emociona ao afirmar que eles são suas inspirações.

Outras influências na vida literária do autor foram os livros que ele leu em sua jornada. Destacou a obra “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, e “Poema Sujo”, de Ferreira Goulart; ambos retratam a vida do povo brasileiro. "Quanto ao ‘Poema Sujo’, me impressionou desde a linguagem ao formato do livro. O texto me impactou de forma profunda e eu me senti integrado e conectado à poesia a partir daquele momento", diz o poeta.

Ele é autor do livro de poesias "Encanto Marginal", publicado pela editora independente Literato. A obra reúne textos que o escritor guardou por anos e fala sobre as pessoas da periferia e da região metropolitana.

Rodolfo desabafa sobre o tempo em que se sentia deslocado por ser poeta num ambiente onde poucos escolhem esse caminho. Mas, quando viu seu livro sendo lançado, percebeu que as pessoas começaram a se relacionar com ele de forma positiva, se sentindo representadas: “a literatura agrega um tipo de valor. É uma pena que ela não seja tão acessível pra muita gente e eu tento desmistificar isso”.  

Rodolfo Ataíde
Rodolfo Ataíde
Foto: Arquivo Pessoal / ANF

Hoje o escritor também faz parte do Sarau no Ribeirão, localizado em Ribeirão das Neves, região metropolitana de BH. O sarau é produzido nas periferias e favelas da cidade e busca fortalecer e divulgar os poetas e escritores do município.

Ir além das expectativas é uma tarefa em comum que os moradores periféricos e favelados, que querem se destacar, precisam fazer. Para os artistas, é uma missão ainda mais desafiadora. Camila Félix, 28 anos, arquiteta e escritora, começou a escrever na adolescência, assim como Rodolfo. Também foi desmotivada na escola pública e no aglomerado onde viveu. Ela afirma que não foi apoiada em sua inclinação à escrita, pelo contrário, dificultaram o contato dela com os livros: “eu escrevia muitos contos e tentei mostrar a um professor de português, mas ele não me respondeu, não me incentivou”.

Somente por volta dos 18 anos, Camila começou a frequentar eventos literários e se juntar a pessoas que também escreviam. Conta que nem na faculdade, quando mais velha, conheceu pessoas que tinham o hábito ou o amor pela leitura. "Para os poucos que eu contava que escrevia, não acreditavam, nem questionavam mais sobre a escrita. Minha vida inteira me senti assim, deslocada", recorda.

Camila Félix
Camila Félix
Foto: Camila Félix Arquivo Pessoal / ANF

Hoje, a periferia está presente em suas obras. Camila mora no Pilar, região do Barreiro em Belo Horizonte, e escreve suas experiências inspiradas nas vivências em seu ambiente. Publicou três livros e tem vários poemas de sua autoria. A obra "Atlas dos Saraus da RMBH" é um livro que tem mapeamento, entrevistas e informações sobre os eventos literários da capital e região. "Minha inspiração foi o desejo de registrar a história e o movimento de ocupação urbana desses encontros", explicou.

A segunda publicação da escritora foi o livro de poemas "Asfáltica", que aborda a vida na cidade a partir da literatura contemporânea e da escrita urbana. "A Turba" é outra obra de poemas que trata de situações de abuso, de machismo e de empoderamento das mulheres.

Camila também teve dois poemas divulgados nas antologias Identidade, da editora Venas Abiertas e Versidade: extremos poéticos, da editora A Borda Cultural. Cedeu entrevista no livro “História Afetiva” de leitores e bibliotecas em Belo Horizonte, publicado pela Secretaria Cultural de BH.

Foram muitos os livros que ela leu, mas foi o "Desassossego", do Fernando Pessoa, que fez a autora se apaixonar pela poesia.

Bárbara Vitória, 22 anos, estudante de Letras da UFMG, microempresária e educadora, é autora de diversos poemas e composições musicais. Participa de três projetos literários: da ANELCA (Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes), em Ribeirão das Neves, do "A tantas mãos", e do “Coletânea de Contos, Crônicas e Poesias”. Também fundou o "Poesia de Status", que reúne versos com temas variados, como pandemia, política e racismo. A obra foi selecionada num concurso literário nacional. Dentro do “Poesia de Status”, ela inseriu a categoria "Hap na Rede". O intuito era desmistificar a ideia de que o hap não é uma arte relevante como a poesia erudita.

A trajetória de Bárbara começou com 10 anos, quando ganhou um diário da mãe e passou a escrever mais. Ela fala que sempre teve incentivo para a escrita, mas não recebeu motivação para ler poesias. "Esse é um déficit na educação brasileira. A poesia não é uma linguagem objetiva, as pessoas têm muita dificuldade de ler e ela não é ensinada do jeito certo na escola", comenta.

Bárbara tem projetos literários solos em andamento. Pensa em desenvolver um formato que vai agradar a todos os públicos e atender a demanda atual. "Às vezes eu consigo acompanhar a história melhor pelo audiobook, talvez pela ansiedade ou falta de concentração no livro físico", exemplifica.

Ela teve muitas realizações e alegrias com suas palavras, mas também decepções e traumas. Bárbara é perfeccionista e se cobra muito por causa de experiências passadas que marcaram sua vida. Conta que sofreu preconceito em uma escola por ser de Neves e ter o cabelo crespo. Aos 14 anos ela escreveu um jornal anônimo e, entre outras publicações, denunciou as agressões que existiam na escola.

A adolescente decidiu se entregar para não ver outros alunos serem acusados injustamente de escrever o jornal anônimo. Fez uma carta para a diretora confessando ser a autora, no dia de apresentação de Páscoa, na qual cantou uma música que ela compôs e não foi aplaudida. "Eu me senti muito mal, estava muito nervosa. Tomei dois sermões de duas horas e meia cada um", disse.

Bárbara foi mal compreendida e passou a sofrer mais bullying do que antes. Recebeu críticas também sobre sua música e sua apresentação. "A diretora simplesmente falou que na escola dela não havia bullying. Era brincadeirinha de criança", reviveu Bárbara, com um sorriso distante, de quem não apagou a cena da memória.

A diretora era freira e criticou o conteúdo do jornal. Na época ela queria ser jornalista e ficou bem desmotivada com os comentários: “se você quer ser jornalista, você tem muito a melhorar”, ela disse. "Me senti tão culpada que joguei o jornal fora", lamentou Bárbara, que hoje confessa que se sente culpada, mas sabe que não deve, pois não tinha nada de errado com o jornal.

Francisco Danilo de Lima Ferreira, 32 anos, professor e poeta, escreve desde os 12 anos e, assim como Bárbara, já se sentiu incompreendido. Desabafa sobre muitas pessoas não entenderem a arte como algo que deve ser valorizado. "Isso é triste, mas tem a ver também com a falta de incentivo cultural por parte dos governantes do país", lamentou.

Mais conhecido como Chicão, o poeta é um dos fundadores do coletivo "Entre Letras e Retalhos", da Faculdade de Letras da UFMG. Criou o zine "Antropopixo", um trabalho que une a literatura e a fotografia. Ele se inspira desde a literatura de Cordel, até a poesia marginal, como Chacal e companhia.

"Filosofia de Buteco" e "Corte na carne" são outros trabalhos do autor. Já participou de algumas coletâneas de poemas, como no Concurso Travessia, na UFMG, e Web Zine, do Coletivo Semifusa. Todas as obras são independentes.

Chicão é da cidade de Assaré, no Ceará e mudou para Ribeirão da Neves há 18 anos. Conta que cresceu lendo e decidiu ingressar na Faculdade de Letras. Dessa forma, sempre esteve envolvido com a arte e isso resultou num impacto positivo. "Além disso, ver, por si, já é um fator que influencia demais no que faço. A observação do meio é a minha gasolina", reflete.

Chicão e seus versos
Chicão e seus versos
Foto: Arquivo pessoal / ANF

Nem todos os autores que vivem nos morros têm coragem de se assumir como tal. Ainda há aqueles que preferem guardar suas obras a sete chaves por motivos desconhecidos ou por medo de críticas, como aconteceu com a Bárbara.

Em contato com um escritor da favela do Dandara, em Belo Horizonte, que pede para não ser identificado, ele conta que prefere não se expor, mas quando se sentir preparado vai compartilhar seus textos em formato físico e virtual. "Por enquanto eu tenho vergonha, me sinto diferente e tímido para dizer que escrevo. Já fui criticado na escola por estudar demais e gostar de poesia, então eu prefiro ficar em off", desabafou o escritor anônimo.

A arte é motivo de orgulho e deve ser compartilhada, principalmente se vier com histórias de superação das populações menos privilegiadas da sociedade.

É dessa forma que pensa o professor de filosofia Juarez Coelho da Silva, 42 anos. Ele dá aula em uma escola pública que estimula a criatividade dos alunos a investirem em seus dons artísticos. "Hoje temos muitos alunos com esse talento. Em uma sala com 40 pessoas, temos sempre três ou quatro com o talento literário. São grandes escritores, muitas meninas e alguns meninos", explica o professor.

O destaque na fala de Juarez, "hoje em dia" é porque nem sempre foi assim. Ele compartilha com a ideia de que a educação dos anos 90 em escolas públicas era precária quando se tratava de incentivo à arte. Relembra que nunca um professor falou que ele poderia ser um escritor, ou até mesmo um engenheiro. Por questões financeiras, não havia a ilusão por parte da própria escola de acreditar que um aluno seguiria por uma profissão diferente do que era considerado normal na época: “por ser comum na minha família motoristas e pedreiros, eles achavam que eu seguiria a carreira”.

Juarez com os alunos de filosofia
Juarez com os alunos de filosofia
Foto: Arquivo pessoal / ANF

O professor diz que a grade escolar é apertada e, às vezes, não dá para observar todos os alunos, mas que em trabalhos escolares eles percebem alguns destaques fantásticos. Já presenciou alguns colegas permanecendo até depois do horário para orientar estudantes que sonham em trabalhar como escritores, jornalistas e poetas. "Os alunos são talentosos e precisam de liberdade. Só com ela eles terão como mostrar o talento individual fora do esporte", comentou.

Juarez faz uma observação sobre a escola ainda apoiar mais o talento esportivo do que o artístico, e que alunos que não gostam ou não praticam esporte não são totalmente vistos. Reforça que, apesar de não receber incentivo e verba de maneira justa e necessária, a escola tem talentos na arte em geral: pintores, músicos, poetas, oradores, atores e muito mais. "Eles são criativos e vivos. Se abrir uma janela, eles abraçam o sol", concluiu o professor.

Para quem tem o dom de escrever e deseja publicar suas obras de forma menos burocrática, participar de concursos literários e saraus, seguem sendo oportunidades que vão facilitar o processo para os autores.

A Borda Cultural: a Borda produtora cultural desenvolve projetos socioculturais para a emancipação das periferias. Busca valorizar as raízes para facilitar o contato entre escritores, pesquisadores e comunidade, garantindo um intercâmbio das diferentes formas da cultura popular e literatura do Brasil.

@abordacultural

Amazon KDP (Kindle Direct Publishing): plataforma que permite a publicação gratuita de livros impressos e e-books para vários países.

@amazonbrasil

Clube de Autores: o Clube de Autores foi o primeiro site brasileiro que permitiu a publicação gratuita de livros de forma 100% sob demanda, para impressos e e-books. O autor pode determinar quanto deseja ganhar por venda e disponibilizar a obra na loja gratuitamente.

@clubedeautores

Coletivoz Sarau de Periferia: o Coletivoz é considerado o primeiro sarau de periferia de BH. Desde 2008 promove encontros, literatura marginal e poesia. Atualmente também divulga os eventos através de lives nas redes socias.

@coletivoz 

Editora a.Berta: a editora a.Berta foi criada em 2018 por William Dias para lançar o seu zine como fechamento do curso de Edições Artesanais que fez durante sua formação em Estudos Literários na UFMG. A a.Berta se tornou parceira do Espaço Cultural Amargem, integrando o local e auxiliando na criação de conteúdos impressos e digitais.

@amargem_vilabispo

Editora Venas Abiertas: a editora Venas Abiertas é uma editora popular de carácter sociocultural, fundada em 2018, como novo selo fomentador da literatura produzida por figuras à margem do mercado editorial.

@editoravenasabiertas

Sarau no Ribeirão: o Sarau no Ribeirão é o encontro de criadores e apreciadores da arte para celebrá-la e disseminá-la na cidade de Ribeirão das Neves.

@semifusacoletivo

Obra que divulga eventos literários da região
Obra que divulga eventos literários da região
Foto: Camila Félix

 

ANF
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