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Conheça o saber ancestral das ervas do Morro do Salgueiro

Mulheres e homens se mobilizam para continuar a tradição ambiental através do grupo Erveiras e Erveiros do Salgueiro

31 dez 2021 09h00
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Conhecimento ancestral dos erveiros e erveiras do Morro do Salgueiro
Conhecimento ancestral dos erveiros e erveiras do Morro do Salgueiro
Foto: Marcelo da Paz / ANF

Salgueiros são árvores graciosas. Não é por isso que o Morro do Salgueiro, na Zona Norte carioca, é denominado assim, mas faz todo sentido, pois tem um ambiente fértil, onde mulheres e homens formam um grupo de erveiras e erveiros, pessoas que zelam pela preservação das plantas. A iniciativa surgiu em 2019, quando alguns moradores perceberam a necessidade de preservar e conhecer as mais diversas espécies da flora salgueirense.

Tias e tios, como são carinhosamente chamados na favela, contaram com a ajuda de médicos do posto de saúde, Heitor Beltrão, para agregar informações técnicas sobre os benefícios e propriedades de cada erva que nasce no morro. Desde então, os encontros do grupo passaram a acontecer na tradicional Padaria Caliel, mas, devido à crise sanitária causada pelo coronavírus, a padaria parou de receber o encontro presencial que acontecia mensalmente. A comunicação, por enquanto, tem sido virtual. Por isso, a equipe de defensores ambientais migrou todas as conversas para o WhatsApp, respeitando o isolamento social necessário.

Antes da pandemia, o grupo se reunia semanalmente para dividir saberes
Antes da pandemia, o grupo se reunia semanalmente para dividir saberes
Foto: Marcelo da Paz / ANF

Relembrando sua entrada no Grupo das Erveiras e Erveiros do Salgueiro, o forte caráter presencial do projeto antes da pandemia e a manutenção das atividades, ainda que remotamente, Denise Santos conta que sua entrada no grupo se deu por conta da horta Atitude, pela qual é responsável. “Eu colocava as ervas lá e, vendo isso, o pessoal me chamou para participar. Antigamente, todos se tratavam com as ervas. O grupo veio para resgatar essa cultura, é uma questão de preservação já que quase todas as espécies estão sumindo. Algumas só encontramos nas matas, porque já nascem, naturalmente, nos meios de pedras. As plantas trazem uma alegria enorme e não só nas hortas, mas também como forma medicinal, é o caso da cidreira e a hortelã-pimenta. Aprendi muito com esse grupo”, garante.

Denise Santos em colheita na horta Atitude
Denise Santos em colheita na horta Atitude
Foto: Mariano Magalhães

Os próximos passos da equipe são levar as técnicas sobre cultivo e colheita para produzir um herbário, a fim de levar conhecimentos ambientais para outros lugares e catalogar as ervas espalhadas pela favela, pensando no diálogo com as novas gerações. Além da missão de garantir e aproveitar integralmente as hortaliças, mostrando para todos o potencial que há nos quintais de suas casas e nas matas que circundam o morro.

O recorte de gênero e a ancestralidade latente são marcas centrais no trabalho das mulheres pretas do Salgueiro, por isso, um dos objetivos é fazer prevalecer e manter viva a memória das matriarcas da comunidade. No entanto, como o próprio nome sugere, as erveiras e erveiros do Salgueiro têm homens desde sua formação original.

Tia Silvia é uma das erveiras mais antigas do Morro e ajuda a manter viva a memória das matriarcas da comunidade
Tia Silvia é uma das erveiras mais antigas do Morro e ajuda a manter viva a memória das matriarcas da comunidade
Foto: Marcelo da Paz / ANF

Janaína Soares, erveira de longa data, diz que os adultos têm que incentivar as crianças: “na minha infância tudo era mais difícil financeiramente e os nossos avós usavam muito as ervas. As coisas eram livres de agrotóxicos. Acho uma pena as crianças não terem muito contato com a natureza. Cabe a cada adulto incentivar crianças à plantar, colocar a mão na terra, mexer na natureza. Isso chama a atenção delas para que venham a se interessar e conhecer o poder das ervas.”

Janaína ensinando o que sabe sobre as plantas
Janaína ensinando o que sabe sobre as plantas
Foto: Marcelo da Paz / ANF

Alimentação que vem da natureza

Em dezembro de 2020, o Inquérito Nacional sobre a Insegurança Alimentar e a Covid-19 no Brasil, realizou uma pesquisa em 2.180 domicílios localizados em áreas urbanas, nas cinco regiões do país. Os resultados mostraram que em 55,2% dos lares as pessoas convivem com a insegurança alimentar. Somente 44,8% das casas tinham segurança em algum nível.

Débora Silva, técnica em nutrição, diz que as ervas e os vegetais deveriam ser plantados nas casas para auxiliar no combate à fome. “A natureza nos proporciona uma infinidade de ervas e plantas com valores medicinais/nutricionais, são nossos temperos naturais, trazendo complexidade de sabores aos pratos do dia a dia, e ajudando a deixar o preparo mais saudável. O cultivo é muito acessível e deveria ser incentivado em campanhas do Governo para que as pessoas não precisassem passar fome. As ervas são nosso conforto, nos alimentam de dentro para fora e de fora para dentro. São fáceis de manter, crescem rápido e, o fato de dedicarmos uma hora do dia para cuidar delas, também traz tranquilidade e menos estresse aos nossos dias. A natureza é nossa grande aliada”, garante.

É de conhecimento popular o uso de ervas, e é passado de geração para geração, independente de crença. Preservar, cuidar e fomentar o plantio delas são passos que vêm de longe e que ainda estão vivos na memória e cultura das populações periféricas mundo afora.

 

ANF
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