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José Adão: 50 anos de luta negra das periferias ao centro

Cofundador do Movimento Negro Unificado em plena ditadura comemora 50 anos de luta: “Cristianismo real é amar as pessoas"

20 abr 2022 11h34
| atualizado às 11h40
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Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Com 50 anos de militância por direitos humanos no Brasil, incluindo a fundação do MNU (Movimento Negro Unificado) e, atualmente, trabalhando na área de educação, José Adão de Oliveira prefere falar mais do coletivo do que de si próprio.

Mesmo ciente da importância dos caminhos que abriu, junto com outros companheiros, aos 67 anos Adão mantém a humildade ao se referir ao legado deixado às novas gerações, que hoje gozam de mais espaço e representatividade na luta dos negros no país.

O envolvimento de Adão nas causas sociais começou pouco depois de ele chegar à zona leste de São Paulo, quando tinha nove anos, deixando, junto com a família, a cidade de Vieiras, no interior de Minas Gerais. Filho de um servente de pedreiro e de uma dona de casa que não sabiam ler e escrever, mas muito cristãos, o menino teve os primeiros contatos com mobilizações sociais dentro da Igreja Católica.

“Comecei no grupo de jovens da Igreja de Santa Terezinha, em Arthur Alvim. Numa perspectiva cristã, a gente analisava letras de músicas, lia matérias de jornais e debatia muitas coisas que havia na sociedade. Isso foi importante para moldar o meu olhar sobre o mundo. Tempos depois, fui convidado para integrar a Juventude Operária Católica - JOC, que tinha como lema ‘desjulgar e agir’”, relembra Adão.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Mesmo com apoio de parte do clero à ditadura militar, a Igreja Católica tinha na época uma ala progressista muito combativa em relação às violações de direitos humanos cometidas pelo governo brasileiro. Nomes de religiosos como Dom Hélder Câmara e Dom Evaristo Arns se destacavam dentre os opositores ao regime. Eram esses exemplos que Adão e seus amigos tinham como referência no início dos anos 1970, quando eram ainda crianças.

“Com aquela idade eu já participava da Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz. Paralelo a isso, entrei no Alicerce, que era um grupo de estudantes secundaristas dentro da Liga Operária que dialogava com universitários. Participei de várias reuniões da USP [Universidade Estadual de São Paulo]”, conta Adão.

Durante a juventude, José Adão teve que conciliar a militância com diferentes serviços. Trabalhou como mecânico e em uma fábrica de sapatos. Mas foi na função de carteiro, emprego conquistado aos 19 anos, que fez com que aliasse o ofício com as questões sociais.

Em 1975 foi criado o jornal Versus, publicação alternativa que, por meio de poesias, quadrinhos e narrativas de ficção, denunciava regimes autoritários que estavam em curso na América Latina. A função de Adão inicialmente era vender e distribuir os exemplares em diferentes pontos da cidade de São Paulo. O periódico foi o pioneiro ao incluir uma seção dedicada às questões da população negra. 

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Além de Adão, outras pessoas que viriam a fundar o MNU também faziam parte do Versus, como a jornalista Neusa Maria Pereira. “Muita gente que colaborava com o Versus era da Convergência Socialista, que vinham da Liga Operária. E foi dentro da convergência que surgiu o Núcleo Negro Socialista, onde alguns integrantes instituíram o Afro Latino América. O artigo [‘Em defesa da dignidade das mulheres negras em uma sociedade racista’] escrito em 1977 pela Neusa, falando das violências sofridas pelas mulheres negras enquanto gênero, raça e sexo, fez mudar a linha editorial do jornal e passar a entender a importância da causa negra”, relembra Adão, que hoje faz parte do Fórum Municipal de Educação de São Paulo.

Em 18 de junho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, Adão, junto com outras lideranças negras, fundou Movimento Negro Unificado, que viria a ser o mais importante coletivo para representação negra no país durante o processo de redemocratização. “Quando começamos, pautando as questões raciais dentro da sociedade, era muito pior o cenário político do país. Tudo que se tem hoje é graças à luta nossa e de todo o movimento democrático”, reconhece. 

Ao acompanhar e participar de perto do momento histórico que o país passaria, de uma ditadura militar para uma esperançosa democracia, Adão percebeu quais foram as falhas que culminaram na manutenção das oligarquias no poder e a continuação de um política repressiva contra os pobres, que poderia ter sido diferente com a nova Constituição que seria promulgada em 1988.

“Muita gente que estava ao nosso lado naquela época, que faziam parte do PMDB e depois formaram o PSDB e foram se aliar anos depois com o PFL, que era o partido da ditadura formado pelos herdeiros das elites colonialistas e liberais. Isso em um país com histórico racista e entreguista”, critica.

Se em 2022 não é fácil ser um jovem negro periférico de esquerda, a tensão, segundo Adão, era bem maior quando se vivia em um regime abertamente repressivo, como era durante a ditadura militar. Num tempo em que até reuniões em grupo dentro de casa eram dadas como suspeitas de subversão, Adão revela que seus pais, ao mesmo tempo que ficavam temerosos com a situação, entendiam a importância daquele momento.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Meus pais eram analfabetos, mas como sempre disse minha mãe, ela não entendia das letras, porém entendia tudo o que se passava. Ela servia café e uns bolinhos para a gente, mas nunca houve conversas com os meus pais sobre esse assunto dentro de casa. Quando a coisa começou a ficar mais pesada, com algumas pessoas da Liga Operária sendo presas, houve militantes que tiveram que sair de São Paulo e alguns deles ficaram na casa de uns parentes meus no Rio de Janeiro”.

Dona Rita, mãe de Adão, hoje com 96 anos, é sempre citada pelo filho em diferentes momentos da entrevista. É dela que o ativista afirma trazer a humildade de compartilhar feitos tirando qualquer tipo de protagonismo ou vaidade de si e de colocar em prática os ensinamentos religiosos da juventude em favor dos mais necessitados.

“Ela tem uma coisa que muita gente que vai para igreja não tem, que é a vivência do cristianismo real. Que é amar as pessoas, independentemente de qualquer coisa, querer o bem delas”, define Adão.

Ponte
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