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Explante: falta de informação afeta mulheres periféricas

Procedimento que visa a remoção de próteses de silicone ganha apelo público e pode ter lei sancionada

7 mai 2022 05h00
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Ainda não tão abordado como deveria, o explante mamário é o procedimento buscado por mulheres que, por razões estéticas ou de saúde, decidem remover os implantes de silicone. O assunto vem ganhando cada vez mais força, principalmente após a veiculação do documentário Explante, produzido pela socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich. O filme, que teve estreia em Portugal, Rio de Janeiro, Niterói e agora Brasília, trata de maneira bastante intensa e pessoal questões como a pressão estética e a Doença do Silicone provocada pelos implantes.

Ingrid, que de maneira muito corajosa expõe suas dores no filme, conversou com a equipe da ANF e contou como o tema surgiu em sua vida.

Ingrid Gerolimich chama a atenção para a Doença do Silicone no documentário 'Explante'
Ingrid Gerolimich chama a atenção para a Doença do Silicone no documentário 'Explante'
Foto: Divulgação

“Eu tinha silicone, mas há muito tempo já havia me arrependido de ter colocado, achava que não fazia mais sentido para a mulher que sou hoje. Um dia recebi o link de um post que falava sobre mulheres que estavam explantando tanto por uma questão de aceitação dos seus corpos, quanto pela chamada Doença do Silicone, e nos relatos dessas mulheres eu me encontrei, porque sentia vários sintomas e nunca tinha associado à prótese. Foi então que tive a certeza de que precisava tirar aquilo de dentro de mim o mais rápido possível”, relembra.

Os sintomas mais recorrentes da Doença do Silicone são dores nas articulações, queda de cabelo, alterações psicológicas e cansaço excessivo. Nas palavras da própria Ingrid: “a doença funciona como um guarda-chuva de várias outras doenças e sintomas causadas pelo silicone, porque o corpo rejeita a prótese e tenta expulsar o silicone, pois ele contém materiais tóxicos.”

Documentário 'Explante' foi produzido pela socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich
Documentário 'Explante' foi produzido pela socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich
Foto: Divulgação

A repercussão do projeto tem sido cada vez mais satisfatória, a socióloga comenta. “São muitas mulheres entrando em contato, contando suas histórias, querendo assistir ao filme. Não tenho palavras para dizer o quanto fico feliz com isso, porque o maior objetivo com esse documentário era justamente fazer a informação circular, para que as mulheres possam saber o que está acontecendo com elas e que a gente possa cada vez mais travar esse debate sobre como a pressão estética está nos adoecendo e nos impedindo de viver uma vida mais saudável e feliz com nossos corpos.”

Silvia Regina, viúva do Mr. Catra, foi uma das mulheres que, ao assistirem ao documentário, reconheceram vivenciar internamente e externamente muitas das temáticas abordadas. “A mídia mostrava tudo muito lindo. Toda mulher preta da favela achava - e ainda acha - que precisa do silicone para se sentir melhor, se sentir completa. Eu tinha calafrios, dores nas juntas dos ossos e jamais imaginei que aquilo pudesse ter relação com as minhas próteses”, relata.

Silvia Regina, viúva do Mr. Catra, diz que informações sobre próteses de silicone chegam incompletas para maioria das mulheres
Silvia Regina, viúva do Mr. Catra, diz que informações sobre próteses de silicone chegam incompletas para maioria das mulheres
Foto: Divulgação

Em uma crítica à falta de informação pública sobre o explante, Silvia Regina diz: “a informação sempre chega picotada para nós. Eu não conheço nenhuma mulher que tenha se consultado com um médico que a deixasse realmente ciente dos riscos do procedimento, pelo contrário, nós só escutamos que não tem contraindicação e nem prazo de validade. Nós temos que ser realmente informadas e a partir das possibilidades decidirmos o que realmente queremos, porque há 20 anos eu coloquei silicone porque eu quis, mas hoje eu quero retirar, além de todos os problemas que ele me ocasionou, hoje eu aprendi a me amar como eu sou. A mulher tem que sentir orgulho de si, nós temos o poder e o direito de nos reinventarmos sempre”, conclui.

Sobre o recorte levantado por Silvia Regina, das mulheres negras que vivem nas favelas, Ingrid comenta: “as mulheres nas comunidades também fazem esses procedimentos, muitas passam anos pagando por eles, fazem crediário, se endividam. E o pior é que muitas acabam parando em clínicas clandestinas, por serem mais baratas, em busca do sonho desse corpo perfeito que vendem para a gente o tempo todo. O que as coloca em uma situação de ainda mais perigo de vida. A pressão estética recai sobre toda mulher, rica ou pobre, cis ou trans, mas sem sombra de dúvida, é a mulher pobre, em situação de vulnerabilidade social e econômica, que mais sofre as consequências dessa pressão, pois ela não terá nem de perto a assistência necessária caso algo dê errado.”

Essa situação parece estar prestes a mudar em breve, pois ao ser impactado pela visão exposta no documentário Explante, o deputado estadual Carlos Minc (PSB/RJ) propôs a criação de um projeto de lei que dará suporte e assistência na rede pública de saúde para mulheres que, por meio de laudo médico, comprovarem os problemas ocasionados com o uso da prótese.

Deputado estadual Carlos Minc (PSB/RJ) criou um projeto de lei após assistir ao documentário 'Explante'
Deputado estadual Carlos Minc (PSB/RJ) criou um projeto de lei após assistir ao documentário 'Explante'
Foto: Divulgação

Com exclusividade à ANF, o deputado deu detalhes sobre a criação e tramitação da lei. “Sou super ligado em questões de saúde, já fiz a Lei das Doulas, do Parto Humanizado, mas não conhecia os problemas ocasionados pelo implante de silicone em profundidade. O filme da Ingrid foi lançado no dia 8 de março, Dia das Mulheres, estava acontecendo uma manifestação no Teatro Municipal do Rio, houve um debate e no debate eu me comprometi a fazer o projeto de lei, que tramitou em tempo recorde."

Das funcionalidades da lei, Minc explica: “os efeitos imediatos da lei são custear o explante, no caso de as pessoas não serem ricas e comprovadamente terem problemas de saúde ocasionados pela prótese, além de dar um quadro da prevenção, discutindo e informando sobre o tipo de complicação que pode ter esse tipo de procedimento.”

O projeto de Lei foi aprovado pela Assembleia Legislativa e segue agora para sanção do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.

ANF
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