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Futebol transforma vida de crianças e jovens em Salvador

Mais de 500 crianças já passaram pela Associação Desportiva Dois de Julho

24 jan 2022 08h00
| atualizado em 26/1/2022 às 10h09
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Mesmo com dificuldades financeiras e falta de patrocínio, a atividade conta com 60 crianças e adolescentes, entre 7 e 17 anos
Mesmo com dificuldades financeiras e falta de patrocínio, a atividade conta com 60 crianças e adolescentes, entre 7 e 17 anos
Foto: Jamile Santos / ANF

Localizada no Bairro da Paz, em Salvador, a Associação Desportiva Dois de Julho desenvolve, há mais de 26 anos, um trabalho de responsabilidade social que gera oportunidades para crianças e adolescentes que, em muitas situações, vivem em condições de vulnerabilidade social e, através do esporte, resgatam vidas que poderiam seguir outros caminhos.

A iniciativa surgiu através de um sonho do atual responsável, o presidente da associação Julio Oliveira, 65 anos, de querer ter poder para ajudar as crianças da comunidade em situações marginalizadas e, por ser amante do futebol, viu o esporte como ferramenta para transformar vidas. Ao longo desses anos, mais de 500 crianças já passaram pelo projeto e uma delas tornou-se professor voluntário.

Mais de 500 crianças já passaram pelo projeto
Mais de 500 crianças já passaram pelo projeto
Foto: Jamile Santos / ANF

A associação teve seu registro em 2015, entretanto, não foi fácil mantê-la viva, devido à situação financeira e necessidade de encontrar um grupo de pessoas que, além de ter a mesma linha de pensamento, pudessem ajudá-lo de forma voluntária, uma vez que a procura para participar da ação começou a aumentar. Atualmente, o projeto é coordenado pela diretora, Jamile Santos, a coordenadora, Iolanda Bispo, os professores de futebol, Inaldo Santos Teodoro e Emerson Porcino, e a auxiliar administrativa, Talita Cardoso, todos trabalhando de forma voluntária.

“A gente sabe que, infelizmente, nem todo mundo quando se aproxima vem com a mesma intenção e quando chega, que vê o processo, as dificuldades enfrentadas, acaba desistindo pelo meio do caminho ou percebe que, na verdade, não era aquilo que estava buscando. Tivemos todo um processo para poder conseguir montar a equipe que hoje faz parte da diretoria da associação”, afirma Jamile.

Mesmo com dificuldades financeiras e falta de patrocínio, a atividade conta com 60 crianças e adolescentes, entre 7 e 17 anos, devidamente cadastrados, e segue firme. Para participar, é necessário frequentar a escola, desta forma, a Associação conseguiu diminuir a evasão escolar no bairro, principalmente, por conscientizar os familiares sobre a importância da educação, fazendo com que, a cada seis meses, os pais encaminhem comprovante de frequência escolar, demonstrando que os filhos estudam no horário oposto ao que estão matriculados no projeto.

“Com estudo, educação e oportunidade, a gente consegue chegar onde quiser. Independente da dificuldade que cada um tem, a gente sempre usa esse lema. Aí assim, a criança vai para o projeto não apenas para jogar bola, hoje ela tem todo um acompanhamento, a partir do momento que entra”, explica Jamile.

O futebol feminino também é presente dentro da associação, porém, precisou de muita insistência por parte das mulheres da direção. Elas se questionavam para entender o que estava acontecendo e começaram a estimular e incentivar as garotas a desenvolver o desejo de jogar bola, até porque não tem um time de futebol feminino dentro do Bairro da Paz para representar a comunidade. Além de organizar, Jamile e Iolanda também jogam futebol e servem de incentivo para as meninas.

O futebol é um esporte que, dentro da sua história, é machista, dominado pelo patriarcado e cercado de preconceitos. É nítida a diferença de salários, as barreiras encontradas e até mesmo o apoio que não chega nem próximo ao que é dado aos homens, principalmente quando o assunto é divulgação.

“Hoje, fazendo parte de um time de futebol feminino, vejo que ainda existe o preconceito dentro de casa, nos próprios maridos. Não incentivam, porque acham que o futebol não é para mulher, que elas têm que estar dentro de casa, lavando, passando e cozinhando. Tem muitas meninas que não podem participar de todos os treinos porque os maridos não apoiam e precisam vir escondidas. Mais de 20 meninas participam do time “Minas de Ouro”, em sua maioria, composto por mães de família e donas de casa. Dá para ver que avançamos um pouco, mas é nítido o quanto o preconceito predomina”, revela Jamile Santos.

A associação, ao longo desses anos, já transformou a vida de diversos jovens que estavam prestes a praticar atos inadequados, mudou a realidade de muitos que pensavam em desistir da própria vida e, após diálogos, apoio e acolhimento das pessoas certas encontrados dentro do projeto conseguiram entender que poderiam seguir outros caminhos.

Gerando oportunidades de sonhar ainda mais alto

O sonho de muitos jovens é ser jogador de futebol e, principalmente os da periferia, sonham com um estrelato e uma nova perspectiva de vida, enxergam no futebol uma saída para uma vida melhor. Muitas vezes eles só esperam uma oportunidade para mostrar seu talento.

O sonho de muitos jovens é ser jogador de futebol e, principalmente os da periferia, sonham com um estrelato e uma nova perspectiva de vida
O sonho de muitos jovens é ser jogador de futebol e, principalmente os da periferia, sonham com um estrelato e uma nova perspectiva de vida
Foto: Jamile Santos / ANF

Em Salvador, o atleta de futebol há 18 anos, Anderson Lima, 44 anos, natural do Rio Grande do Sul e formado em educação física, é responsável por dar oportunidade ao máximo de atletas e jovens de todos os lugares possíveis a realizar o sonho de ser jogador de futebol. Anderson é Scout (um observador técnico) responsável pelo norte e nordeste na captação de atletas para o Fluminense. Ao longo da carreira, já trabalhou para o internacional e Vasco e, há cinco anos, atua pelo Fluminense.

Anderson Lima é Scout (observador técnico) e acredita que o esporte é uma ferramenta de transformação social e que pode mudar a realidade de muitos jovens
Anderson Lima é Scout (observador técnico) e acredita que o esporte é uma ferramenta de transformação social e que pode mudar a realidade de muitos jovens
Foto: Anderson Lima / ANF

Ele acredita que o esporte é uma ferramenta de transformação social e que pode mudar a realidade de muitos jovens: “costumo falar para os meninos que eu converso e dou palestras, que não adianta apenas sonhar na nossa cama e não executar, é preciso correr atrás dos objetivos. E essa questão, de ter uma ação social para formação, para sair do processo que eles estão para evoluir no futebol, é importante. Ajuda de qualquer lado, é sempre importante”, afirma Lima.

Anderson faz parte de um grupo composto por 21 observadores no Brasil, que procuram atletas em diversos lugares: escolas, projetos sociais, competições em todos os níveis de campo. A equipe já descobriu atletas como João Afonso, Valdivia, Rodrigo Moledo, entre outros, mas não é um trabalho apenas de descoberta, pois esses jogadores são lapidados e formados no clube. Não é apenas um processo de olhar.

Diferente de anos atrás, quando os observadores diziam se o jovem estava aprovado ou não, hoje o contato é direto com os responsáveis pelo projeto ou professores que levam os scouts para assistirem.

“A gente trabalha com sonho. Dizer para eles que estavam aprovados ou reprovados, como antigamente, era muito ruim, hoje não fazemos mais isso. A gente passa direto para o responsável, o dono da escolinha ou do projeto e, num segundo momento, a gente entra e conversa com os pais para explicar como funciona a ida do jogador. Mostramos como é o clube, analisamos a disponibilidade deles irem junto com os filhos. Tem esse processo de mudança de um lugar para o outro, que não é fácil e, quando o jogador vai para ficar com a gente, entram outras questões, como a assistência social e psicologia. Tem toda cobertura que a gente dá para as famílias e para os meninos”, conclui.

A iniciativa surgiu através de um sonho do atual responsável, o presidente da associação, de de querer ter poder para ajudar as crianças da comunidade em situações marginalizadas
A iniciativa surgiu através de um sonho do atual responsável, o presidente da associação, de de querer ter poder para ajudar as crianças da comunidade em situações marginalizadas
Foto: Jamile Santos / ANF

 

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