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Esportes de aventura levam inclusão às periferias de Salvador

Projeto Trilha das Flores torna acessível práticas esportivas como rapel, tirolesa, natação e arco e flecha

7 jun 2022 05h00
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Parque São Bartolomeu, Salvador.
Parque São Bartolomeu, Salvador.
Foto: Divulgação

Na capital baiana, praticantes de esportes de aventuras na natureza auxiliam moradores de comunidades das periferias e pessoas com deficiência a encontrarem diversas possibilidades para transformação social e acesso a atividades esportivas como rapel, tirolesa, natação e arco e flecha.

As atividades ocorrem por meio de iniciativas como o Trilha das Flores, que oferece práticas de esportes para a população por meio de parcerias com atletas e instrutores locais num dos mais lindos cartões postais de Salvador, o Parque São Bartolomeu, um dos maiores remanescente da Mata Atlântica em área urbana, de nosso país.  

Aluna de arco e flecha, Glaucia Almeida, de 23 anos, moradora do bairro de Ondina comenta que o esporte conecta as pessoas das periferias com realidades diversas, gerando uma nova perspectiva de possibilidades, além de permitir o acesso ao lazer e às saúdes física e mental. “A arquearia me faz ouvir com paciência a mente e o corpo, além de compreender o quanto é necessário silenciar a pensamentos no momento certo para ter foco. Aprendo a ter mais segurança e confiar mais em mim mesma. Eu levo o que aprendo na arquearia para diversos âmbitos da minha vida”, enfatiza.

Glaucia Almeida, que é uma mulher com deficiência, negra e LGBTQIA+ encontra no esporte a oportunidade de ocupar espaços que antes não eram de fácil acesso para essas minorias. Ela conta que começou a praticar esporte por indicação da irmã, e escolheu arquearia pela história e por causa dos antepassados. “Comecei a praticar o esporte por indicação da minha irmã, que me mostrou que, de fato, era um esporte acessível e extremamente interessante. E escolhi a arquearia, porque ela que me conecta com a história de meus antepassados. Para mim ele representa força, liberdade, autoconhecimento e autocontrole”, diz.

Praticante de arco e flecha há seis meses, Glaucia sonha em se tornar uma paratleta, pois o esporte possibilitou que ela conhecesse o próprio corpo e auxiliou-a num maior equilíbrio para sua mente.

 

Trilha das Flores

“Muitos jovens acompanham pela televisão ou internet atividades esportivas, mas por falta de condições não desenvolvem suas habilidades esportivas. Na Trilha das Flores temos este compromisso em tornar as práticas esportivas acessíveis a todos, inclusive para pessoas com deficiência, pois temos paratletas que competem em torneios, trazendo sempre bons resultados”, conta Glauber Machado, 33 anos, morador do bairro de Pirajá, Coordenador e um dos fundadores da iniciativa popular ‘Trilha das Flores’.

O Trilha das Flores é um movimento ambiental dos Parques São Bartolomeu e Pirajá. De acordo com Glauber o projeto tem o objetivo de lutar pela preservação dos parques florestais em Salvador, e foi potencializado durante a pandemia. “A juventude do parque estava ociosa. Nos preocupamos com o contexto socioeconômico dos frequentadores do parque e considerando o potencial para esporte no lugar, iniciamos o programa esportivo para os jovens da comunidade”, pontua.

Segundo o coordenador, o parque é um dos maiores remanescentes de mata atlântica, em área urbana, do Brasil, pois envolve uma área de preservação ambiental da Bacia do Rio do Cobre -São Bartolomeu-, incluindo uma represa e cascatas. O Trilha das Flores atua diretamente nas comunidades de Pirajá e São Bartolomeu, mas as atividades são abertas a todos. “Temos alunos de vários bairros da cidade. Hoje estamos ampliando a nossa atuação para outros parques de Salvador, como por exemplo: Parque da Cidade e Parque dos Ventos”, diz.

A associação desenvolve parcerias com federações e coletivos de grupos esportivos com ações visando tornar a prática esportiva acessível a comunidade. “Atualmente temos as escolas de arquearia, de natação, rapel, tirolesa, trilha ambiental, trilha Aquática. As atividades são gratuitas e também com tarifa social no valor de R$ 10”, explica Machado.

Glauber Machado - Coordenador do Projeto Trilha das Flores
Glauber Machado - Coordenador do Projeto Trilha das Flores
Foto: Acervo pessoal.

Ele ressalta que além dos moradores, qualquer pessoa pode participar das atividades esportivas. “Para participar pode ser morador da comunidade dos parques com a vontade de praticar esportes. Além disso, moradores de outras localidades podem participar das atividades com a gente, pois temos alunos de várias comunidades em nossos esportes. Algumas atividades requerem autorização médica, como por exemplo a atividade de natação”, comenta.

As práticas esportivas acontecem durante toda a semana. “Temos aulas quase todos os dias da semana. Arquearia terça e quarta-feira, das 14h às 16h; a escola de natação: quarta, sexta e domingo, das 5h30 às 7h30. As trilhas ambiental e aquática acontecem mensalmente; e o rapel e tirolesa, a cada 15 dias”, conta Glauber.

O Coordenador do projeto destaca ainda que o movimento ambiental tem o sonho de implementar um centro socioambiental e também potencializar as atividades esportivas da periferia. “A nossa intenção é formalizar a implantação do centro socioambiental Trilha das Flores, como também potencializar as práticas esportivas no parque para ‘levar as vozes’ das florestas para uma Olimpíadas. Queremos tornar as comunidades protagonistas nas práticas esportivas”, conclui.

Arco e Flecha

“O esporte é sem sombras de dúvidas uma das mais poderosas ferramentas de integração e inclusão social, principalmente entre as comunidades”, diz o soteropolitano ambientalista, Anderson Nascimento dos Santos, 46 anos, morador do bairro de Pirajá.

Anderson Santos - Instrutor de arco e flecha.
Anderson Santos - Instrutor de arco e flecha.
Foto: Aline Silva Castro

Anderson conta que antes de ser instrutor foi aluno de arco e flecha, e durante as aulas percebeu que o professor precisava de um auxílio nas atividades. “Foi uma experiência positiva quando comecei a treinar. Percebi que o meu professor precisava de uma pessoa para ajudar, pois nas aulas tinham cerca de 15 alunos para instruir e orientar. Quando apareceu uma oportunidade fiz um curso de instrutor para ajudar o projeto”, revela.

Além de auxiliar o professor, Santos define que outra motivação para que ele se tornasse instrutor foi a possibilidade de oferecer um melhor “caminho” para as pessoas das comunidades, por meio do esporte. “Um dos motivos que me levou a fazer curso de instrutor foi ajudar os jovens das comunidades, já que a melhor forma de os incluir na sociedade é através do esporte. A gente tem o rapel, o arco e flecha, natação. Tudo isso para que eles tenham melhores possibilidades na vida. Eu tento tirar esses meninos do mundo das drogas”, finaliza.

Morador da comunidade de Águas Claras e idealizador da escola de Arquearia Zeferina, Paulo Henrique Magaldi Merlino, 40 anos, é outro instrutor do projeto. Para ele, o esporte é motivador na busca do aperfeiçoamento pessoal, tanto físico como mental, tirando muitas pessoas do sedentarismo, por exemplo.

Paulo Henrique Magaldi Merlino, durante o Campeonato Brasileiro de 2021
Paulo Henrique Magaldi Merlino, durante o Campeonato Brasileiro de 2021
Foto: Vânia Melo

Paulo Merlino, que também é instrutor de arco e flecha, salienta que este esporte é importante para as comunidades, pois trata-se de uma modalidade Olímpica que exige disciplina e foco. “O arco e flecha se torna um esporte de extremo benefício para a população com menos amparo de educação e saúde, pois além dos ganhos físicos, como a melhora da postura e do condicionamento respiratório, o arco e flecha ajuda no desenvolvimento da capacidade de concentração e foco e, isto influi diretamente no rendimento dos praticantes nas atividades cotidianas”, garante.

Merlino ressalta que a prática do arco e flecha é complexa e realmente exige o auxílio de um instrutor para o real aprendizado. “Existem técnicas e regras para praticar o esporte que dificilmente serão desvendadas de maneira autodidata. No entanto, com a ajuda de instrutores certificados e uma infraestrutura mínima, o esporte é amplamente acessível e fácil de ser aprendido”, afirma.

O sonho do instrutor, que ainda compete, é participar ativamente de competições internacionais. Como diretor técnico e instrutor, ele revela que deseja que a Bahia seja referência no esporte, tanto na qualidade dos seus atletas como na organização das competições baianas.

Conforme Paulo Henrique, a associação Trilha das Flores apoiou o projeto social iniciado por ele e hoje tem por volta de 20 praticantes no projeto e 11 são registrados na federação baiana. "A escola de Arco e Flecha Zeferina é filiada à Federação Baiana de Arco e Flecha, em nosso projeto há uma total sinergia e identificação com a região do Parque São Bartolomeu e com a luta diária dos integrantes da comunidade de Pirajá”, afirma.

Rapel e Tirolesa

Tiago Machado Barreto, 32 anos, mora na comunidade do São Caetano e, é líder do grupo Favela Vertical, responsável pelas práticas esportivas de rapel e tirolesa. “Na prática eu sou líder, pois eu tenho os conhecimentos técnicos para montagem tanto da tirolesa quanto do rapel, além de manutenção dos equipamentos, mas não me rótulo assim, porque somos todos iguais. Portanto, não temos alunos, somos todos aprendizes, proporcionamos experiência radical a aventureiros com segurança. Logo, todos nós somos alunos e professores”, diz.

Tiago Machado Barreto - Instrutor de rapel e tirolesa.
Tiago Machado Barreto - Instrutor de rapel e tirolesa.
Foto:

O instrutor explica que com a autorização dos responsáveis já é possível praticar tirolesa a partir de seis anos e rapel a partir dos 9 anos. “A tirolesa a partir de 6 anos com autorização do responsável. Já o rapel a partir de 9 anos também com autorização do responsável. Além disso, qualquer pessoa com coragem e disposição pode praticas esses esportes”, esclarece.

Tiago Barreto tem como objetivo popularizar o esporte para oferecer oportunidades de acesso às pessoas que queiram praticar, mas não tem condições financeiras e nem acesso para isso.

Natação

Para Jean Souza Bruno morador no Bairro de Pirajá, 37 anos e atleta amador de Maratonas Aquáticas, a natação nas comunidades é capaz de transformar vida e de afastar o jovem da vida pregressa.

Jean Bruno - Instrutor de natação.
Jean Bruno - Instrutor de natação.
Foto: Triad Fotos

O atleta, que é instrutor de natação, diz que esportes aquáticos nas comunidades, ajudam na saúde dos praticantes, além de ensiná-los a evitar afogamentos. “A natação oferece qualidade de vida por ser um esporte que exige esforço do corpo inteiro e também diminui o risco de afogamento. Costumo dizer que natação não é luxo, mas sim uma necessidade”, conta.

Jean diz que a equipe do Trilha das Flores oferece todo o suporte, além de ajudar no marketing e comunicação dos parceiros. “A equipe do Trilha das Flores nos dá todo o suporte, além de nos ajudar no marketing de mídia. É um trabalho em conjunto”, conclui.

 

         

ANF
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