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Da laje no Borel, Ana Luísa treina para ser ginasta olímpica

Aos 12 anos, menina passou a treinar em laje de morro do RJ após ser dispensada do time do Fluminense, e vídeo viralizou nas redes sociais

19 jan 2022 08h00
| atualizado em 26/1/2022 às 10h08
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Menina Ana Luísa treina em laje no Morro do Borel
Menina Ana Luísa treina em laje no Morro do Borel
Foto: Isadora Camargo/Ponte

Debaixo do sol escaldante de mais de 30 graus, Ana Luísa Batista dos Anjos, uma menina de 12 anos, pele parda, braços torneados, cabelo loiro e olhos verdes, realizava estrelas, saltos e piruetas de ginástica olímpica sobre um pedaço de madeira disposto a esmo numa laje com quatro caixas d’água e pilhas de restos de obra. Logo abaixo, pela mureta desse terraço, seus pais, Cristiane Batista Albina da Silva, de 32 anos, e Paulo Cesar dos Anjos, 44, observavam com cautela, receosos de que pudesse titubear e cair no concreto duro ou, pior ainda, em algum prego ou lasca de madeira. 

Foi executando aqueles mesmos movimentos, naquela mesma laje da casa em que residem, no miolo do Morro do Borel, na zona norte do Rio de Janeiro, que, com um vídeo de menos de um minuto, a garota viralizou nas redes sociais, chamando atenção de centros de treinamento, da imprensa e de Gutemberg Fonseca, o secretário estadual de Esportes do Rio de Janeiro, que, acompanhado da equipe da Record TV, visitou-a.

Apesar da comoção generalizada, a jovem esportista encontrava-se sem local apropriado para treinamento desde meados de dezembro, quando foi dispensada do time do Fluminense, no qual, segundo Cristiane, nunca houve garantia de permanência. Graças à indicação de um professor deste time, ela agora passa a integrar o Studio Espaço Físico, o SEF-Ginástica, em Vila Valqueire, na zona oeste da capital fluminense.

 

Antes de se aventurar na ginástica competitiva, Ana praticava a rítmica desde os nove anos de idade, quando foi inscrita por seus pais na escolinha da Vila Olímpica da Mangueira, onde ficou até completar 11 anos. À época, Cristiane, que, desde a gravidez de Ana, sua primogênita, dedica-se às tarefas domésticas, pegava dois ônibus para acompanhar a filha nos treinamentos, ficando no centro esportivo das 14h às 19h. Segundo ela, em questão de meses, a menina saiu da escolinha para integrar a equipe em apresentações pelo estado.

Foi entre seu vício em dancinhas da rede social Tik Tok e o consumo de tutoriais de passos e movimentos novos no YouTube que Ana Luísa se apaixonou pela ginástica olímpica. “Eu tava vendo umas manobras e decidi que queria fazer isso… Eu gosto porque tem mais adrenalina”, diz ela, sorridente, segurando na mão esquerda o kit de maquiagem que, junto de sua prima mais nova, usava para maquilar a fotógrafa desta reportagem (“você tem cara de roqueira”, proferiram elas).

Foto: Isadora Camargo/Ponte

Atualmente, sua rotina consiste em estudar pela manhã, almoçar em casa — gosta de frutas, verduras e carne magra, sem gordura —, e, junto da mãe, pegar três ônibus para o centro de treinamento da Vila Valqueire, onde fica das 14h às 17h.

À noite, retorna para casa nos mesmos três ônibus, tendo que subir um longo labirinto de becos, vielas e escadarias do Morro do Borel, que leva seu nome em homenagem aos Irmãos Borel, que foram donos de uma fábrica de cigarros na região.

Quando em casa, torna a alimentar-se saudavelmente, com a exceção de seu amado pão com Nutella, e, antes de descansar, faz as tarefas da escola. Por conta da agenda ocupada, raras são as noites em que fica acordada para além das 22h. 

“O esporte deu muito mais responsabilidade para ela”, relata o pai. A mãe complementa contando de uma vez que não pôde acompanhar a filha numa apresentação no interior do estado, onde Ana ficou por um fim de semana inteiro: “Quando voltou, a treinadora disse: ‘nossa, Luísa [como chamam os íntimos] é muito organizada!’”

Na escola, desde que se tornou esportista, mantém as notas em uma média entre sete e oito. “Nós dizemos para ela: ‘Você vai praticar seu esporte, mas estudo é em primeiro lugar!’”, explica Cristiane. O ingresso na universidade é altamente estimulado dentro de casa; seu pai, Paulo Cesar, mecânico de caminhões, gosta de ressaltar que, embora não tenha terminado o ensino formal, valoriza muito a educação dos mais jovens, almejando um futuro com bacharelado para a filha. Após uma bateria de entrevistas para os mais diversos veículos de comunicação do país, Ana Luísa diz que talvez se torne jornalista. “Eu gosto de ser entrevistada e gosto de fazer perguntas também”, afirma ela, do interior de seu quarto rosa.

Foto: Isadora Camargo/Ponte

Gravidez de risco

Cristiane e Paulo se conheceram quando ela tinha doze anos e ele já era maior de idade. Ele havia acabado de retornar ao Borel, após anos morando no interior de Minas Gerais, para onde, junto da mãe e de seus seis irmãos, se mudara aos quatro anos de idade, após o falecimento precoce de seu pai. De volta à comunidade onde nascera, passou a residir próximo de Cristiane, por quem, apesar da diferença de idade, apaixonou-se instantaneamente. Contudo, engataram namoro somente após ela completar 19 anos.

Pulando de casa em casa, entre morar de favor e aluguel, ela engravidou de Ana Luísa. As difíceis condições econômicas geraram um certo pavor no casal, ao mesmo tempo que o desejo de ter a criança crescia exponencialmente, dia após dia.

Todavia, a verdadeira complicação surgiu aos 5 meses de gravidez, quando um ultrassom revelou que havia algo de errado com um dos rins da bebê. Com o tempo, veio o laudo: hidronefrose. Segundo os pais, os médicos informaram que a menina teria que operar assim que nascesse, ou o rim que estava bom poderia sofrer uma sobrecarga. 

A cirurgia, de fato, só se deu quando ela já tinha um ano e sete meses. Nesse meio tempo, a imunidade dela se manteve constantemente baixa, levando-a a ser internada, segundo Cristiane, semana sim, semana não — bronquite, infecção urinária e outras doenças acometiam a jovem.

A fé cristã permitiu que a família se mantivesse crente na recuperação da garota, acontecesse o que acontecesse. Desde a operação, Ana Luísa vive uma vida normal, sem restrições médicas, embora tenha de fazer acompanhamento.

Foto: Isadora Camargo/Ponte

Atualmente, mora junto dos pais e de seu irmão mais novo, Arthur, que tem três anos de idade, muita energia, paixão por futebol e um desejo irrefreável por desorganizar as bonecas da irmã, que, ainda nova, reclamava aos pais que queria um irmão mais novo pois “todo mundo tem um”.

Com uma eventual participação nas olimpíadas sempre em mente, Ana Luísa está se preparando para começar uma dieta restritiva, com acompanhamento de nutricionista (“infelizmente”, lamenta ela). Adeus ao refrigerante e à Nutella. Por sorte, é uma criança que gosta de alimentos saudáveis. É o preço a se pagar para seguir os passos de suas ídolas: Flávia Saraiva e Daniele Hypólito.

Ponte
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