PUBLICIDADE

Ações esportivas estimulam crianças com deficiência em BH

Respeitar as diferenças sem colocá-las em evidência é uma das tarefas das ações desportivas das favelas.

26 jan 2022 08h00
| atualizado em 27/1/2022 às 14h08
ver comentários
Publicidade
Arthur e Filipe viveram momentos inesquecíveis
Arthur e Filipe viveram momentos inesquecíveis
Foto: Arquivo Pessoal / ANF

O futebol está presente em todas as camadas da população, não é novidade que ele apareça nas estatísticas como o esporte mais praticado e divulgado do mundo. No entanto, não é o único disponível para ser ensinado e transmitido por gerações. São dezenas as modalidades esportivas que ainda não foram exploradas.

Segundo pesquisa feita pelo buscador Google, nos últimos dois anos, os brasileiros desenvolveram novas paixões além do futebol. De março a novembro de 2020, a porcentagem de pessoas que declararam praticar esporte subiu para 69% em comparação a 2018, que foi 58%.

As modalidades que tiveram maior número de interessados foram o vôlei, com 41% de menções, o basquete, com 21%, e a natação, com 16%. No último levantamento, os esportes citados, haviam tido 26%, 8% e 12%, respectivamente. Já entre as categorias que foram praticadas, a caminhada ficou em primeiro lugar, com 30% das respostas. O futebol ficou em segundo, com 29%. Em seguida vem a corrida, com 23%, a musculação, com 16%, e o ciclismo, com 11%.

Os esportes podem ser coletivos, individuais, com objetivos profissionais ou recreativos, ajudam na melhoria da saúde física e mental e ocupam um papel fundamental: a inclusão.

Com tantas opções, é possível que qualquer pessoa consiga realizar alguma atividade esportiva que proporcione prazer e bem-estar. Foi com essa certeza que a empreendedora social, Débora Batista, fundou, há cinco anos, o Circuito Inclusão. O projeto tem a missão de levar o esporte às pessoas com deficiência física e neurológica.

As atividades acontecem no bairro Pedra Azul, localizado em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. O local oferece futebol para cadeirantes motorizados com deficiência severa, aulas de skate inclusivo, sorvebol, peteca e corrida. São 180 alunos, entre crianças e adultos, e a previsão é de que no primeiro semestre deste ano o número aumente para 240. As inscrições são gratuitas e voltadas para pessoas de escolas públicas.

Circuito inclusão
Circuito inclusão
Foto: Divulgação / ANF

Para Débora, proporcionar esporte para quem tem deficiência é ir além das barreiras comportamentais, é acreditar e fazer com que o indivíduo acredite em si próprio, semeando um novo olhar. Muitos foram condicionados a se conformarem com os poucos auxílios que existem no ambiente onde eles convivem, mas precisam mudar esse conceito. "As famílias moram em áreas periféricas e, por terem uma vida mais simples, se limitam a ideia de que não podem ter acesso à oportunidade de desenvolvimento", conta a empreendedora.

O esporte inclusivo contribui em diversos ensinamentos motores e cognitivos para a formação do indivíduo. Quando orientados de maneira correta, os exercícios têm funções que vão além de cuidados com a saúde e com o corpo. Eles funcionam como interação social, ajudam no pensamento estratégico, na capacidade de praticar a empatia e o respeito ao próximo. "Acreditamos que essa combinação do esporte com inclusão social vai refletir no futuro e fortalecer a autoestima deles", comenta.

O atendimento se estende às cidades metropolitanas de BH, Sabará e Juatuba, e faz a diferença na vida de muitas famílias. Uma delas é a de Aline Margarida, 42 anos, presidente da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Juatuba. Ela perdeu o filho, Arthur, em 2020, devido a uma doença degenerativa. Arthur participou dos eventos de gangorra e skate. Por intermédio do Circuito Inclusão ele foi para a cidade de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, participar de uma corrida inclusiva. E foi além, com uma cadeira de rodas adaptada, o menino entrou no mar pela primeira vez e surfou.

Hoje, Aline participa das ações sociais do Circuito e continua mantendo contato com o projeto. O filho Filipe, de 7 anos, não possui nenhuma deficiência e faz parte do curso de Jovens Transformando as Nações. Ela aconselha a todas as mães com filhos com deficiência, ou não, a conhecerem o local. “Ele resgata o brincar que, na maioria das vezes, não existe em outros lugares. Foge do mundo das terapias”, completa.

A pedagoga Alexandra Aparecida, 47 anos, compartilha a mesma opinião de Débora e Aline. A filha Laydiane tem paralisia cerebral e participa das atividades do circuito. A mãe relata que a percepção da melhora é nítida, não só em relação à filha, mas em todas as pessoas que começam a fazer parte do programa.

Laydiane e a mãe
Laydiane e a mãe
Foto: Arquivo pessoal / ANF

O olhar de valorização que as pessoas com deficiência aprendem a ter com os outros, é o mesmo que passam a enxergar a si próprios. As pequenas atividades diárias, antes difíceis de executar, agora são feitas com autonomia e segurança.

Alexandra conta que Laydiane participa de vários campeonatos dando o seu melhor, independente da sua condição física e emocional. "A sua alegria de participar e fazer do seu jeito único já atribui a ela sempre o primeiro lugar. Isso não tem preço", diz orgulhosa.

Para ela, o segredo é não focar na deficiência, e sim, nas possibilidades que contribuem para que pessoas especiais tenham uma vida plena na sociedade. Às mães e a quem cuida e convive com deficientes, a pedagoga deixa o recado: a pessoa com deficiência é capaz e única. Cada um na sua individualidade, tem algo especial para desenvolver seu potencial. Sejam fortes e corajosos, não deixem de dar o primeiro passo por eles, porque mais tarde, eles poderão andar sozinhos.

Respeitar as diferenças sem colocá-las em evidência é uma das tarefas das ações desportivas das favelas. No Morro das Pedras, região oeste de BH, funciona o programa Transforma pelo Esporte, desde maio de 2021. O foco é desenvolver o aluno, valorizando o dom que cada um tem, independente das limitações. Os profissionais são preparados para proporcionarem desporto educacional às pessoas com deficiências físicas e síndrome de down.

São oferecidos os cursos de futsal, judô e vôlei, além de um profissional de assistência social que auxilia nas demandas dos alunos e familiares. O projeto pretende atender 360 crianças e adolescentes. Atualmente, são cerca de 340 beneficiados, 11 deles com deficiência.

O projeto conta com o apoio do Centro Acolher e da Associação Cruz de Malta, do bairro Gutierrez. No início, a cada semana, as aulas eram feitas em locais diferentes, o que impactava no engajamento dos treinos coletivos. Neste mês, as atividades estão sendo realizadas no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do Morro das Pedras.

De acordo com pesquisa realizada pela Vox Populi, a pedido do instituto Mano Down BH, que acolhe pessoas com a síndrome e seus familiares, mais de 188 mil pessoas, somente na capital, têm algum tipo de deficiência, visual, auditiva, física, intelectual, mental ou síndrome de down. O número representa 4,7% da população de 2,5 milhões. 

Segundo o instituto, é o primeiro levantamento do tipo feito em Belo Horizonte. Outras estatísticas disponíveis hoje têm como base o censo de 2010, dados muito antigos. As políticas públicas são insuficientes para atender tantas demandas.

A Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Smel), promove a inclusão social das pessoas com deficiência através da prática de atividades físicas, culturais e do esporte educacional ou de rendimento, através do Programa Superar.

O projeto atende mais de 900 alunos com deficiência física. São oferecidas 16 modalidades: atletismo, basquetebol, bocha regular, bocha paralímpica, dança, futsal, goalball, judô, natação, rúgbi em cadeira de rodas, tênis de mesa, voleibol sentado, patinação, percussão, funcional e parataekwondo.

As atividades são realizadas nos núcleos do Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CREPPD) e UFMG (Pampulha) para 300 alunos. Os outros núcleos de atendimento são as Escolas Estaduais de Ensino Especial: Amaro Neves (Regional Barreiro) e João Moreira Salles (Norte), Colégio Marconi (Centro-Sul), Associação de Deficientes Visuais de Belo Horizonte (Oeste), Associação dos Surdos (Noroeste), Escola Municipal de Ensino Especial Frei Leopoldo (Oeste), Clube Palmeira (Leste).

Para participar do programa basta ter idade superior a seis anos, laudo comprovando a deficiência e disponibilidade de vagas.

Criada para atender pessoas com deficiência auditiva a nível nacional, existe a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS), que é a entidade máxima do desporto surdo no Brasil. A instituição é sem fins lucrativos e atende desde 1984 e hoje tem cinco mil atletas.

Dentro da Confederação tem vários outros projetos, cursos, seletivas e campeonatos voltados para o público.

Segundo a CBDS, a surdez, em si, não implica em restrições à prática de atividades físicas e não existem esportes mais, ou menos, adequados.

A prática de esportes é uma das formas de melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência que se encontram nas favelas do país.

Tipos de esportes: Conheça as modalidades esportivas

A classificação dos esportes é desenvolvida a partir da forma de competição e objetivo do jogo. São sete categorias:

Esportes de invasão: buscam o ataque ao campo adversário a fim de alcançarem sua meta. Geralmente, são praticados por uma bola ou objeto semelhante. O ponto é marcado quando se atinge o gol ou a cesta, por exemplo. Os mais conhecidos são o futebol, futsal, basquetebol, handebol, futebol americano, rúgby, hóquei e polo aquático.

Esportes de marca: são disputas feitas através da comparação das marcas dos competidores. Um exemplo são as corridas, nas quais vence quem realiza o percurso no menor tempo possível. Nos arremessos, a meta é atingir a maior distância. Já nos levantamentos de peso, vence quem levanta o peso maior. São exemplos desses esportes: atletismo, natação, vela, triatlo, ciclismo e as categorias (estrada, pista, bmx e montain bike), levantamento de peso, remo, canoagem, esqui alpino, salto de esqui, escalada, hipismo, crossfit e automobilismo.

Esportes de precisão: têm o objetivo de atingir ou se aproximar de um alvo fixo ou móvel. O objeto que deve acertar o alvo, podem ser projetados de diferentes maneiras, dependendo da modalidade. Pode ser através de uma arma, por um taco ou lançado com as mãos. Alguns exemplos são: o tiro, tiro com arco, boliche, curling (esporte praticado em uma pista de gelo), golfe, croqué, sinuca, bocha, dardos.

Esportes de rede e parede: o objetivo do esporte de rede é jogar a bola por cima de uma rede para o campo adversário, de modo a dificultar a sua devolução. Já os esportes de parede são aqueles em que os competidores alternam-se atacando a bola e rebatendo-a contra uma parede de rebote.

São exemplos de esporte de rede e de parede de rebote: voleibol, vôlei de praia, futevôlei, tênis, tênis de mesa, badminton, squash, padel.

Esportes de combate: são compostos pelas lutas e artes marciais. Cada modalidade do combate possui suas próprias regras e golpes pré-definidos. Podem ser praticadas pelo corpo a corpo ou com objetos. O intuito é realizar pontos golpeando o adversário, dominando-o ou levando-o ao nocaute. São eles: boxe, judô, taekwondo, jiu-jitsu, caratê, muay thai, MMA, esgrima, kendo, luta livre e luta greco-romana.

Esportes de campo e taco: esses esportes visam a proteção da base e rebater a bola de forma em que a equipe adversária demore a assumir o seu controle. Exemplos: beisebol, softbol e críquete.

Esportes técnicos-combinatórios: Os atletas cumprem uma rotina de movimentos e são avaliados por uma banca de juízes. O julgamento é o grau de dificuldade da execução e a precisão dos movimentos. Alguns exemplos: ginástica artística, ginástica rítmica, saltos ornamentais, nado sincronizado, patinação artística, surfe, ciclismo (categoria freestyle), breakdance, slackeline.

Respeitar as diferenças sem colocá-las em evidência é uma das tarefas das ações desportivas das favelas.
Respeitar as diferenças sem colocá-las em evidência é uma das tarefas das ações desportivas das favelas.
Foto: Arquivo Pessoal / ANF

 

ANF
Publicidade
Publicidade