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Em Salvador, moradores transformam crise em oportunidade

“Empreender é usar um dom para gerar empregos, trazer algo novo ao mercado e fazer a diferença, ou seja, transformar vidas”

30 dez 2021 09h00
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Jéssica Brandão, da Pluma Ventiladores, diz que empreender é transformar vidas
Jéssica Brandão, da Pluma Ventiladores, diz que empreender é transformar vidas
Foto: Flávio Rosário / ANF

Jovens da capital baiana criam o próprio negócio para tentar conquistar a independência financeira e realizar sonhos. Em um país com alto índice de desemprego, empreender se torna uma alternativa para várias pessoas colocarem as ideias em prática.

No Brasil, o índice de desemprego ficou em 14,1% no 2º trimestre de 2021, atingindo 14,4 milhões de brasileiros, de acordo com as informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Conforme uma pesquisa da consultoria Austin Rating (https://www.austin.com.br/), o Brasil tem a 4º maior taxa de desemprego do mundo, entre mais de 40 países. Mas, será que esses dados ajudam a impulsionar o crescimento de empreendedores no país?

O mesmo IBGE aponta que a Bahia tem, aproximadamente, 15 milhões de habitantes, com alto índice de desemprego e é o segundo estado com taxa mais elevada. Ao todo, 18,7% dos baianos em idade produtiva não trabalham, apesar de buscarem emprego.

São dados impactantes que mostram que muitas pessoas procuram fazer algo novo e diferente para abrir empresas. Vivemos uma crise ou são oportunidades?

Uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), entre abril de 2020 e o mesmo período deste ano, aponta que a Bahia teve aumento de 18% no número de pequenos empreendedores, passando de 540.932 registros para 642.540. Em Salvador, o número de microempreendedores individuais (MEI’s) cresceu mais de 22%. Em abril de 2020, eram 103.628 e, em maio deste ano, 126.737.

Para a soteropolitana Jéssica Brandão Leandro, 30 anos, empreender é usar um dom para gerar empregos, trazer algo novo ao mercado e fazer a diferença, ou seja, transformar vidas. Moradora do bairro Marechal Rondon, favela de Salvador, Jéssica fez uso de toda superação pessoal para abrir a empresa Pluma Ventiladores. “Fazemos consultoria sobre o modelo ideal de ventilador para cada ambiente, revenda e aluguel para eventos. Além disso, o nosso técnico instala os aparelhos e prestamos suporte ao cliente em caso de necessidade de manutenção futura”, explica.

Ela fundou a empresa com o intuito de colocar em prática as ideias de inovação que não eram aproveitadas pelos antigos chefes.

“Me indignei com isso e, no meu último emprego, prometi a mim mesma que não trabalharia mais para ninguém. Pensei em como empreender mesmo sem saber muita coisa, apesar de gostar de atendimento”, garante.

A coragem para criar o negócio veio de forma trágica: ela trabalhava como assistente para o ex-cunhado numa empresa do mesmo ramo e ele faleceu. Para honrar os ensinamentos dele, Jéssica criou coragem e abriu o próprio negócio.

“Aprendi sobre o ramo através de um ex-cunhado que trabalhava com isso e me contratou como assistente, mas, após alguns anos, ele faleceu e a empresa fechou. Como sempre gostei de atendimento e já tinha a ideia de não trabalhar mais para ninguém, resolvi abrir meu negócio nessa mesma linha de atuação e continuar aproveitando sobre o que eu já entendia, além de conhecer alguns clientes”, explica.

Amigos e familiares foram fundamentais para que ela tivesse coragem de investir no projeto, principalmente o pai, Elson Leandro, que também já empreendia e a auxiliou no processo.

“Meu pai me orientou sobre como gerir, comprar material e negociar; me deu dicas muito boas, acreditou em mim e abraçou a minha ideia. Além disso, me incentivou, trabalhou comigo por um tempo, inclusive instalando ventiladores, quando não tínhamos ainda um técnico fixo, e me ofereceu o melhor de tudo. O amor de pai é fundamental para qualquer um seguir firme”, fala emocionada.

Quem pensa que empreender é uma vida fácil, está enganado. Jéssica destaca os problemas: “os desafios foram a falta de capital de giro e de experiência. É muito difícil gerir uma empresa, pois imprevistos surgem a todo momento. Um dia você está indo super bem, no outro tudo desanda e você precisa achar uma solução imediata, esses altos e baixos são bem desafiadores, abala o emocional, nos desestabiliza”, conta.

Entretanto, a determinação e a força de vontade não a fizeram desistir.

“Mesmo com as dificuldades, continuei trabalhando, pois queria ter liberdade de colocar as minhas ideias em prática e levar um trabalho diferenciado aos meus clientes. Quando nosso propósito é forte e acreditamos na nossa verdade, tudo fica leve e vale a pena. Para enfrentar os obstáculos, busco estudar, inclusive me matriculei recentemente num curso de formação de empreendedores. Lá aprendo sobre vários temas relacionados ao dia a dia de quem empreende: planejamento, gestão de negócios, vendas, produtividade e gestão financeira”, diz.

Agarrar as oportunidades

Empreender no dicionário Aurélio significa deliberar-se a praticar, propor-se, tentar e pôr em execução. Além disso, dedicação de tempo, esforço, assumida de riscos financeiros, psicológicos e sociais, além da contribuição com as necessidades sociais e a busca pela satisfação econômica.

Para Edelton Silva de Souza Barbosa, que criou o próprio negócio aproveitando uma oportunidade de momento, empreender significa agarrar as oportunidades. Aos 39 anos, ele comanda uma empresa de telefonia móvel, a EdelTelecom.

Edelton Barbosa fundou a EdelTelecom e se orgulha por ser referência para seus funcionários
Edelton Barbosa fundou a EdelTelecom e se orgulha por ser referência para seus funcionários
Foto: Flávio Rosário / ANF

“Eu não tinha nenhuma ideia de empreender. Trabalhava numa empresa privada, na área de telecomunicação, mas ela começou a demitir as pessoas e contratar os interessados como prestadores de serviço. Aceitei. Começaram a demandar serviços para mim, assumi as responsabilidades das atividades. Foi nesse momento que tive a ideia de montar o meu próprio negócio, no ano de 2018, como MEI. Após alguns dias, a produção da empresa diminuiu, com isso busquei outros parceiros e fui me qualificando”, explica.

Morador do subúrbio, na capital baiana, comunidade de Boa Vista do Lobato, o empreendedor diz que é um orgulho ajudar a região na qual sempre morou.

“Me sinto feliz porque eu vejo a empresa fazendo a diferença na vida das pessoas. Me orgulho quando vejo meus meninos [colaboradores] conquistando os objetivos com dignidade”, orgulha-se.

Além de fazer uma gestão empresarial, Edelton orienta os funcionários por meio de reflexões.

 “Todos têm que ter foco. O que você quer? O que quer conquistar? Quer reformar uma casa, ou juntar dinheiro? Quer comprar um carro ou uma moto? Tem que ter algum foco. Não pode trabalhar e viver 365 dias aleatoriamente. Tento colocar essas reflexões na cabeça deles”, enfatiza.

Edelton mostra preocupação com a ocupação dos jovens da sua região. Ele ressalta que oferece oportunidades para todas as pessoas, mas prioriza os moradores da favela. “Quando eu posso, priorizo as pessoas aqui do bairro. Ofereço oportunidades para os jovens, pois eles precisam trabalhar. Com isso, nossa comunidade só tem a ganhar”, pontua.

O empreendedor fala sobre gerar em emprego num país que existem milhares de desempregados, principalmente na Bahia.

“Aqui em salvador muita gente está sem ocupação. Pra mim, é muito gratificante ajudar as pessoas. Eu me cobro cada dia mais, pois sei que muitas pessoas vivem com o que recebem da minha empresa, tiram o seu sustento, pagam as contas e vivem com dignidade. Fico feliz e busco sempre mais parcerias para aumentar as demandas de serviços e, por sua vez, contratar mais funcionários, principalmente daqui do bairro”, conta.

Um dos grandes desafios de Edelton é manter a empresa. Ele destaca quais as dificuldades que enfrenta no cotidiano.

“Gerenciar e liderar uma empresa é um desafio muito grande, minha responsabilidade dobrou. Eu tive e tenho que fazer sacrifícios. Os funcionários me observam muito, sou o exemplo deles. Tenho que me comportar, pois sou uma referência. Tenho que ter uma visão profissional, sem esquecer o lado humano. Tem funcionário que é bom numa coisa, já em outra não. Então o nosso papel é qualificá-lo no que ele mais precisar”, esclarece.

Mesmo com todos os empecilhos, o empreendedor agradece pela oportunidade que teve de criar a própria empresa.

“Tudo aconteceu muito rápido e hoje estamos numa crescente muito boa, agradeço muito a Deus por isso. Agora que a gente já está dentro, mesmo sem ser um sonho meu, vejo funcionar e não quero mais parar, pois sempre estou buscando crescimento, conhecimento, empresas parceiras, qualificando o nosso ambiente com ferramentas novas para poder dar um conforto maior aos nossos colaboradores. Eu não me vejo mais sem empreender, me adaptei à rotina, gosto disso aqui e, para mim, é maravilhoso”, conta alegre.

Em busca de uma remuneração fixa

Um dos setores mais promissores e que mais cresce no país, é o de beleza, afinal, quem não quer ficar com a aparência em dia? Pensando nisso, o jovem, Bruno Braga Purificação, 25 anos, morador do bairro de Castelo Branco, abriu uma barbearia.

Para se tornar barbeiro, ele precisou buscar conhecimentos, através de cursos de qualificação. Bruno trabalhava com música, era backing vocal de uma banda pagode, fazia participação em várias outras da boa terra, mas as dificuldades financeiras o fizeram buscar outros caminhos.

“A música não tinha uma remuneração fixa e eu precisava de um serviço que desse para conciliar com a rotina de shows. Como sempre gostei de cabelos e penteados, comecei a fazer os cortes de cabelo da região”, explica.

Depois de aprender a nova profissão, o barbeiro montou o próprio negócio e ficou feliz com a capacidade de gerir a empresa. “Sempre quis ser o meu próprio patrão. Escolhi a área por aptidão e por ter um mercado amplo”, revela.

Para o barbeiro, empreender na comunidade é uma forma de empoderamento e de incentivo ao próximo “é muito importante as pessoas saberem que existem outros caminhos além do emprego com carteira assinada”, afirma.

Bruno traz algumas dicas para quem quer criar uma barbearia: “os interessados devem ter um capital inicial, ou um investidor/parceiro, fundo de reserva e muita paciência, pois nem sempre o retorno é imediato e isso pode acabar desanimando”, orienta.

O empreendedor conta quais os problemas de ter o próprio negócio: “captação de cliente, divulgação do serviço, ausência de retorno imediato. Tudo isso é um desafio muito grande, pois logo após a abertura da barbearia veio a pandemia e, por conta das medidas do governo, várias vezes precisei fechar nesse período, contudo, felizmente, hoje a situação referente à covid-19 melhorou e consigo manter uma rotina de trabalho”, pontua.

O barbeiro Bruno Braga, fala que é importante as pessoas saberem que existem caminhos além da carteira assinada
O barbeiro Bruno Braga, fala que é importante as pessoas saberem que existem caminhos além da carteira assinada
Foto: Flávio Rosário / ANF

 

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