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Alunos e professores criam canal de notícias sobre escola

Criado para ajudar a combater a evasão escolar, projeto é liderado por estudantes que aprendem ferramentas de audiovisual na zona sul de SP

22 jan 2022 08h00
| atualizado em 28/1/2022 às 14h47
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Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

"A primeira coisa que a gente faz é posicionar as câmeras, aí ajuda a ligar a mesa de som, microfones e depois separa as músicas”, explica o aluno Pedro Gomes, 15, sobre a produção do Game Show, uma gincana entre as turmas que é transmitida ao vivo nas redes sociais da escola estadual República do Panamá, na Vila Andrade, na zona sul de São Paulo.

O programa é um dos que compõem a TV Vale Nota, criada por professores e alunos da unidade e que possui diversas produções, como games, entrevistas e um canal próprio de notícias sobre o ambiente escolar.

O projeto, que nasceu em 2017 como revista, ganhou as telas durante a pandemia de Covid-19, como uma forma de driblar a necessidade do distanciamento social e também ajudar contra a evasão escolar.

No início de 2021, alguns alunos participavam da brincadeira direto de casa e os que não tinham acesso à internet podiam ir à escola para se conectar. Mas isso foi mudando.

“O Game Show era online, só que começamos a ter problemas com a internet e como a maioria dos alunos já estavam vindo para escola, decidimos fazer aqui”, comenta a professora de inglês Camila Camargo, que junto com o Pedro é responsável pela produção do programa.

Em sala de aula, Camila aposta no uso de recursos midiáticos para as dinâmicas e exercícios
Em sala de aula, Camila aposta no uso de recursos midiáticos para as dinâmicas e exercícios
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

Camila diz que um dos principais motivos para criar o projeto foi a necessidade de ajudar a coordenação pedagógica a chamar a atenção dos estudantes.

“O pessoal da secretaria e da coordenação estavam ralando para trazer os alunos para a escola, mas também vimos a necessidade de fazer algo online para quem estivesse em casa poder participar. A ideia era fazer essa integração e reforçar que a escola também é deles.”

Pedro, que agora está no 9º ano do ensino fundamental, aproveitou o espaço para se desenvolver. "Fiz curso de fotografia e edição de vídeo, mas não tinha usado em lugar nenhum, e aqui na Vale Nota foi um jeito interessante de usar as minhas habilidades", conta.

Os programas são transmitidos ao vivo pelo Instagram e Facebook da escola, onde também são publicados fotos de eventos, vídeos, poemas e outras produções dos alunos.

Quando as aulas voltaram 100% presenciais, em meados de agosto de 2021, os programas contavam com a participação de plateia formada por alunos de diversas classes, além de continuar com a transmissão ao vivo.

“Ouvi muita coisa boa, que muita gente adorou o Game Show principalmente por sair da sala de aula e experimentar uma coisa diferente, com música, com muita risada. Era divertido”, conta a aluna Ana Julia, 11, que já foi apresentadora da gincana online.

Estrutura organizada pela produção da TV Vale Nota antes de iniciar um Game Show
Estrutura organizada pela produção da TV Vale Nota antes de iniciar um Game Show
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

Antes de TV, uma revista

Localizada num bairro entre duas importantes vias da zona sul, a Avenida Carlos Caldeira Filho e a Estrada de Itapecerica, a escola estadual República do Panamá pertence à Diretoria de Ensino Região Sul 2 e atende cerca de 1.500 estudantes de ensino fundamental e médio no último ano letivo.

Inaugurada oficialmente em 2017, a escola recebe o nome do país vizinho a partir de uma parceria entre as secretarias de educação das capitais de países latino-americanos. A direção da escola contou à Agência Mural que esse projeto não existe mais.

No ano em que a escola completava uma década, o diretor se reuniu com alunos e professores para criar a Revista Vale Nota, publicação feita 100% pelo grupo, com artigos, poemas, reportagens e ensaio fotográfico.

Desde então o projeto é conhecido pela comunidade escolar e teve duas edições impressas da revista, posts no blog e nas redes sociais até que no início de 2021 foi criada a TV Vale Nota, inspirado no histórico de produções midiáticas da escola.

Além da professora Camila Camargo, apresentada no início da reportagem, outros dois professores também ajudaram a criar o projeto e trabalham na coordenação das atividades.

Um deles é o professor de artes Fernando Mourão, que já teve uma experiência parecida. “O diretor da escola em que trabalhei não gostava muito da ideia de alunos produzindo mídia, o que dificultava o nosso trabalho. Mas aqui no Panamá é diferente, a direção acredita numa pedagogia com um olhar inovador.”

Professor Fernando também é artista popular e estudou arte circense
Professor Fernando também é artista popular e estudou arte circense
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

A ideia que começou em 2017 com a produção de revista, foi recriada e ganhou novas proporções a partir do trabalho extracurricular do grupo. “Aqui foi um lugar dahora pra mim trabalhar então potencializou muito a ideia, ao invés de um Game Show a gente conseguiu fazer uma TV mesmo, com uma programação mais abrangente”, comenta Fernando.

“A gente tem que acompanhar o tempo das pessoas, não o nosso. As redes sociais estão mais presentes na vida dos alunos. A TV surge para manter essa ideia de oportunidade de voz dos alunos, só que em mais espaços além da mídia escrita”, ressalta o professor e co-criador da TV, Rafael da Silveira, 32.

Rafael em aula com uma turma do 6º ano
Rafael em aula com uma turma do 6º ano
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

Atualmente, os alunos que participam do projeto se dividem entre a apresentação, produção e divulgação dos programas nas redes sociais. Não é exigida experiência prévia. A ideia é fortalecer a construção coletiva e oferecer uma pausa aos conteúdos curriculares que “às vezes cansam”, como analisa o professor Rafael. “O nosso amparo pedagógico aqui é mostrar para o aluno que ele pode se inserir na sociedade através da expressão artística e da comunicação”, diz.

Boas notícias

Yasmin Carvalho, 13, está no 7º ano. Ela e a amiga Letícia Silvia, 12, criaram o “Good News”, um jornal só com notícias boas para transmitir na TV Vale Nota.“Notícia ruim a gente vê em todos os jornais”, diz Yasmin.

Para elas, os jornais comuns estão cheios de “notícias ruins”, como “assassinato, roubo, aumento dos preços, da inflação” e decidiram fazer algo diferente. “Não tem nenhuma má notícia no Good News. A Yasmin faz a pesquisa, o roteiro e depois passa pra mim e um outro colega apresentar”, comenta Letícia, que também está no 7º ano.

Yasmin e Letícia, do “Good News”, disseram à Mural que pretendem levar o projeto adiante em 2022
Yasmin e Letícia, do “Good News”, disseram à Mural que pretendem levar o projeto adiante em 2022
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

O depoimento das estudantes mostra uma insatisfação comum: crianças e adolescentes não se sentem representados no jornalismo, como aponta a jornalista e pesquisadora Juliana Doretto.

“Os adolescentes que eu entrevistei nas minhas pesquisas sempre dizem que não se sentem representados no jornalismo e não reconhecem a linguagem como algo voltada para eles e reclamam que a produção muitas vezes destaca notícias ruins”, comenta Doretto, que também é doutora em comunicação com a pesquisa na área.

A pesquisadora avalia que iniciativas como a TV Vale Nota, que adotam formatos jornalísticos para divulgar suas ideias, são uma “oportunidade para que eles [os estudantes] desenvolvam uma mídia que se aproxime mais daquela que eles gostariam de consumir”.

Segundo os professores entrevistados, a escola não recebeu nenhum suporte externo para desenvolver os projetos e as atividades. As produções de programas e coberturas de eventos foram realizadas apenas com o apoio de pesquisas na internet e videoaulas.

Aos poucos a TV Vale Nota aproximou os alunos, que já formaram até uma banda para tocar em eventos da escola
Aos poucos a TV Vale Nota aproximou os alunos, que já formaram até uma banda para tocar em eventos da escola
Foto: Guilherme Zacarias/Agência Mural

Esse tipo de atividade extracurricular é muito comum em toda a América Latina há décadas, em escolas e outros espaços comunitários, como aponta o jornalista e mestre em comunicação Bruno Ferreira.

Segundo ele, produções midiáticas que unem educação e comunicação para ampliar as possibilidades de expressão e transformação social, foram organizadas por teóricos como educomunicação, área que estuda a influência das mídias na educação.

“Conceito que surge após a observação de grupos de comunidades rurais, vulneráveis, latinoamericanos que se reuniam e dialogavam sobre processos que poderiam ser transformados através da comunicação, por meio também de articulações políticas”, explica.

“Se os professores fazem isso com a intenção de que os alunos criem mídias de uma maneira colaborativa, refletindo criticamente sobre o que produzem, estão fazendo educomunicação”, conta Bruno. Ele complementa que “conhecer esse conceito pode favorecer o aperfeiçoamento dessa prática”.

“A gente precisa ouví-los, tentar atender suas demandas e então oferecer um jornalismo que elas nem saibam que precisam”, finaliza Doretto.

Agência Mural
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