O cineasta brasileiro Walter Salles, diretor de Central do Brasil, classificou o filme que está rodando sobre o Che Guevara como "uma viagem de descobrimento" da América Latina.O diretor terminou na última quarta-feira parte das rodagens do filme Diários de Motocicleta que fez no Chile e que recria a viagem de Ernesto Che Guevara pela América Latina.
Segundo declarou ao jornal Últimas Notícias, o filme não só procura retratar os anos de "cristalização da personalidade" do revolucionário argentino, como também procura ser uma viagem de descobrimento do continente.
"Trata-se de uma viagem de iniciação por excelência (...) de toda uma geografia, não só física, mas também humana", destacou. "É a possibilidade de olhar nosso continente a partir de um ponto de vista que nos é próprio", acrescentou.
Para o jovem diretor, trata-se de levar ao cinema, com "fidelidade" e "precisão", a viagem realizada por Che Guevara e pelo biólogo Alberto Granado - amigo de Guevara e também argentino, agora residente em Cuba - em 1952 pela América Latina.
Naquele ano, Guevara, um estudante de medicina de 23 anos, viajou de moto por vários países do continente, quando ainda faltavam sete anos para a revolução cubana. A moto era um velho modelo Norton, de 500 cilindradas.
A aventura, que depois de vários meses foi vivida a pé por causa de problemas com a moto, chamada A Poderosa II, levou Che ao México, onde conheceu Fidel Castro e se uniu à revolução em Cuba.
"O filme trata de um período de sua vida pouco conhecido. Entre as características de Ernesto Guevara estavam, além de uma admirável integridade ética, seu grande desejo de conhecimento. As viagens que fez são, talvez, uma chave para entender o que fez depois, e isso foi o que me atraiu pelo projeto", comentou Salles.
Questionado sobre a relação que estabeleceu com Alberto Granado durante a rodagem do filme no Chile, o diretor de Abril despedaçado o classificou como "um jovem de 80 anos, um homem de humor e de uma inteligência fora de série".
"O encontro que tivemos no Chile não deixa espaço para manipulações no filme", disse Salles, que acrescentou que é um privilégio ter liberdade para realizar um filme sem censuras nem imposições ideológicas.
O filme Diários de Motocicleta conta o apoio do Instituto Sundance, dirigido por Robert Redford e que tem como objetivo promover e apoiar financeramente o cinema independente.
"Foi uma honra ser apoiado por Redford", disse Salles, que adiantou que depois do filme sobre Che pensa em levar para o cinema o romance O caminho da baleia do escritor chileno Francisco Coloane, falecido em agosto deste ano.
"A adaptação está quase pronta, após dois anos de trabalho", revelou, enquanto lamentou que no Brasil não tenha sido divulgado o que chamou de "perda de um escritor extraordinário, do porte de Conrad ou Jack London".