O motivo pelo qual o novo filme de Harrison Ford foi um dos maiores fracassos de bilheteria de sua carreira é o mesmo que fez com que ele aceitasse o projeto e o que deve ser o maior incentivo para o público de outros países ir aos cinemas: K-19: The Widowmaker é uma história sobre um episódio da Guerra Fria dos anos 60 contada sob o ponto de vista dos russos, que não traz nenhum personagem americano.O thriller dirigido por Katherine Bigelow (de Caçadores de Emoção e Estranhos Prazeres) é um dos projetos mais ambiciosos a ser financiado por Hollywood nos últimos tempos e uma rara oportunidade de ver um nome tão poderoso quanto Ford arriscando tanto sua reputação.
A história real é sobre o submarino nuclear K-19, apelidado de “fazedor de viúvas” por conta de acidentes que ocorreram com a tripulação antes mesmo da partida.
Pressionadas pela corrida nuclear, as autoridades russas resolveram acelerar a viagem inaugural mesmo sabendo de problemas técnicos e da inexperiência de alguns membros da equipe.
Ford faz o papel do capitão Vostrikov, que resolve fazer testes árduos com os marinheiros durante a viagem, até que o submarino recebe a missão de se instalar na costa dos Estados Unidos, entre Washington e Nova York.
O problema é que uma falha no reator principal começa a esquentar o submarino, apontando para uma possível explosão que detonaria os mísseis nucleares a poucos quilômetros de uma base da Otan, o que poderia ser o início da 3ª Guerra Mundial.
O episódio aconteceu em 1961. Quando os membros da tripulação conseguiram voltar ao país, foram detidos para investigações. Todos os sobreviventes foram absolvidos de responsabilidades, mas tiveram de assinar documentos que proibiam que revelassem a história.
Apenas com a queda da União Soviética, em 1989, é que as primeiras versões do acidente do K-19 pelo lado dos russos começaram a aparecer. A National Geographic produziu um documentário sobre a história nos anos 90 e acabou se associando com a Paramount Pictures para produzir o longa-metragem.
O roteiro, em que Bigelow trabalhou durante quase quatro anos, foi construído a partir de entrevistas com os sobreviventes russos e uma verdadeira operação de guerra foi montada para o uso de um submarino verdadeiro nas filmagens.
“Foi uma experiência muito emocionante”, disse Bigelow à Planet Pop, em Nova York. “Principalmente quando você percebe que eles ainda lembram tantos detalhes da noite em que foram acordados às pressas, às 4 horas da manhã, e perceberam que não se tratava de um teste.”
A participação de Ford foi definitiva para que os russos finalmente confiassem na produção. Foi o ator que conseguiu, junto com Bigelow, convencer as viúvas e os sobreviventes de que o filme teria uma versão correta dos fatos.
Apesar de ter ascendência russa, o ator disse que o motivo para ter aceitado o trabalho foi mesmo “a chance de fazer algo diferente”.
“Achei a história boa, com um bom contexto dramático, bem diferente do que os filmes americanos geralmente procuram”, disse o ator à Planet Pop. “O filme tem um objetivo único de contar uma história russa sob o ponto de vista dos russos.”
A idéia não agradou nem a imprensa americana, que criticou a decisão de que os personagens falam inglês com sotaque russo, nem o público do país, que não se empolgou com a história que não tem vilões e heróis. Ford não parece se importar nem um pouco: ele vai trabalhar nos próximos meses com o diretor estreante Joe Carnahan (de “Narc”), está escrevendo o roteiro de um filme policial e deve voltar a viver Indiana Jones no quarto filme da série, que finalmente deve sair do papel em 2004.
K-19: The Widowmaker, que estréia na sexta-feira nos cinemas brasileiros, não é Os Caçadores da Arca-Perdida ou Blade Runner, mas é um bom thriller para os fãs de conspirações de guerra e filmes de tensão e suspense.
A produção de US$ 80 milhões tem boas cenas submarinas e em alto mar, além de atuações convincentes de Liam Neeson (de A Lista de Schindler) e os menos conhecidos Christian Camargo e Peter Sarsgaard (de Meninos Não Choram).
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