Este ainda pode ser o ano de Walter Hugo Khouri. Está quase confirmada a realização de uma retrospectiva do cineasta no Centro Cultural Banco do Brasil, organizada por Eugênio Puppo, o mesmo que assinou a recente mostra do cinema marginal. Ele ainda garimpa dois títulos para que o ciclo fique completo, ou seja, com as 24 obras do diretor paulistano. Faltam justamente sua estréia, O Gigante de Pedra, de 1953, e Fronteiras do Inferno, realizado cinco anos depois. Mais detalhes ficam para setembro, data para a homenagem. Agora é preciso celebrar a maior contribuição ao estudo da personalidade Khouri até hoje, ao alcance do adepto da saga “marceliana” nas livrarias. Chama-se O Equilíbrio das Estrelas e foi escrito por Renato Luiz Pucci Jr., cinéfilo, filósofo e fã da matéria que analisou. E é justamente por estas faces variadas do autor que se deve iniciar o reconhecimento da obra. De cara, o subtítulo do livro ajuda a entender o critério, ou melhor, o corte utilizado por Pucci para se aproximar de seu objeto. Um corte presume um não acolhimento completo da obra e Pucci chamou sua investigação de “filosofia e imagens no cinema de Walter Hugo Khouri”. Mas a opção não contempla a falta de ambição. Pelo contrário. O autor se apoiou numa fronteira das mais ricas e polêmicas do cinema do diretor, aquela em que se dá início à trajetória do personagem Marcelo, seu reconhecido alter ego, até o seu fim. Ou seja, da infância em As Amorosas (1968) à velhice em Eros — O Deus do Amor (1981), contabilizando dez filmes.
Ainda que o personagem tenha sido retomado depois — como no mais recente Paixão Perdida, finalizado após o livro — apenas naqueles dois títulos estão contemplados o perfil e a concepção de mundo do personagem. Foi neles que Pucci se debruçou. De lambuja, brinda o leitor com uma aproximação curiosa de Noite Vazia, a peça de resistência, clássico da obra khouriana. Mas nisso já há muito do admirador, do estudante graduado de filosofia que conheceu aos 20 anos seu homenageado com Estranho Encontro, o segundo filme.
Pucci, agora aos 44 anos, explica a extensão: “Há uma idéia generalizada de que Marcelo está em quase todos os filmes, representado em outros personagens e mesmo até em mulheres; acredito que isso se dá com clareza apenas em Noite Vazia, nos personagens masculinos. Por isso a inclusão do filme, além de gostar muito, claro.” Pucci tem razão quando aponta a generalização do alter ego pela obra do cineasta. Discorda da tese e preferiu ser rigoroso estabelecendo com exatidão os momentos em que o personagem nasce e desaparece. É, digamos, uma discussão para os apreciadores mais contumazes do diretor. Mas será importante para o passo seguinte. Ao se deter em dois títulos fundamentais para a compreensão do trabalho de Khouri, Pucci evolui sua análise para um rastro que só mesmo críticos da época não aprofundavam.
A falta absoluta de uma bibliografia dedicada ao diretor o levou a explorar o universo literário que sempre foi fonte e razão do mundo de Marcelo, e conseqüentemente de Khouri. É, por assim dizer, o achado e a baliza de sua tese de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes da USP, em 1998, agora em livro. A descoberta lhe foi tão cara que emprestou de D.H. Lawrence, no romance Mulheres Apaixonadas, o título do livro. O autor inglês é um dos que constam, literalmente, na biblioteca de Marcelo. Pucci é sofisticado. Começa com Platão e seu O Banquete, fielmente seguido em Eros. Depois vem Albert Camus, Heidegger, Céline, Espinosa, Henry Miller, e, da literatura nacional, Clarice Lispector. Busca as ligações da obra de Khouri com a dos autores.
Lembra que As Amorosas tem influência direta de Lawrence, no quadro que se forma pessimista, angustiado e de vertente filosófica. Há mesmo diálogos literais. “Aos poucos, eu fui encontrando nos filmes as provas de que minha idéia era consistente; a literatura, uma muito particular, estruturava o cinema do diretor; se eu achasse um livro marxista, por exemplo, a tese se perderia.” Todo criador presta tributo a um outro, se não mesmo do cinema, da arte em geral, acredita Pucci. Mas ao contemplar a literatura, ele destrona um outro clichê comum quando se fala de Khouri. Admirador de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, o diretor nunca negou seus vínculos com estes cineastas. Mas a relação perdurou — e ainda perdura — injustamente, inclusive sem remeter às obras iniciais dos realizadores sueco e italiano, estas sim influência para o brasileiro. Pucci ressalta esta idéia e também a de que esta relação se voltou contra o cineasta, quando alvo de críticos e da turma do Cinema Novo. Um Bergman do terceiro mundo, um sub-Antonioni, se dizia.
Khouri é um caso de atrito e de injustiça no panorama do cinema brasileiro. Radical em seu gosto de autor, exigia da platéia um grau de reconhecimento, de identificação com aquele universo que propunha. De aparência, digamos, fútil, alienado, seu cinema guardava uma chave de sofisticação que conquistou seguidores e fãs como Pucci. “O que me encantou é que os filmes dele eram elaborados desde o roteiro até a concepção da cena, da elegância da câmera.” Khouri também ousava e uma aproximação habitual é renovada pelo autor com o debatido A Dama do Lago, de Robert Montgomery, que entrou para a história como sendo todo realizado com câmera subjetiva. Este era um recurso também de Khouri. Autoral, misterioso, alienado. O diretor paulistano seguiu carreira reverberando em todos estes conceitos. Nesta trajetória, não só o autor, mas sua obra, também ficou esquecida, desapareceu da contabilização das melhores do país. “Na minha pesquisa, descobri que Noite Vazia foi para muitos críticos o melhor filme brasileiro até então; ele figurava como um dos primeiros na lista de preferidos até desaparecer por completo nos últimos 15 anos.”
O filtro do Cinema Novo, o fato de o movimento também ser prolífico na discussão e publicação de obras, contribuiu muito para esconder a resistência de Khouri. Pucci quer que seu livro abra as portas para novos estudiosos. Há muito ainda a ser feito. Por isso mesmo, o autor não teve a ambição de abraçar a obra completa. Acredita que mais fechada, o debate pode ser mais rigoroso e democrático. A idéia é espanar os velhos conceitos não muito convincentes e deixar brilhar os que parecem cada vez mais se solidificar. Pucci lembra que críticos que condenaram o diretor em décadas passadas, como Jean-Claude Bernardet, hoje saúdam sua obra. Paulo Emílio Salles Gomes e Rubem Biáfora eram do time que antecipou sua admiração por ele. Agora de volta, o debate do cinema de Khouri pode prosseguir, à frente da tela ou das páginas de um estudo sério.