Há um belo momento em Orfeu Negro. Talvez o único. Dois meninos se sentam à beira do morro, a paisagem do Rio de Janeiro ao fundo, e um deles passa a dedilhar o violão. Como fazia o protagonista, de quem herdam o hábito, querem com a música “chamar” o sol. É o fecho do filme. Mais do que a beleza, é uma das poucas cenas a registrar alguma sinceridade numa obra que é um caso do cinema nacional e internacional. A realização de 1959 é do francês Marcel Camus, mas o material em que se baseou é brasileiríssimo, a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes.Transporta para o universo da favela da Babilônia o mito de Orfeu e Eurídice, o mesmo renovado há pouco por Cacá Diegues. Aliás, este é uma das vozes de protesto contra a fita. Quem quiser se juntar a ela pode conhecer ou rever a obra agora em DVD (ou em relançamento VHS) pela distribuidora Versátil. Primeiro, o equívoco estrangeiro.
Orfeu Negro, lançado por aqui como Orfeu do Carnaval, já que se passa durante a festa, foi adorado mesmo por críticos renomados europeus. Saiu vencedor da Palma de Ouro, no Festival de Cannes, depois de assegurar o Oscar de filme estrangeiro. Só para comparar: na mostra francesa, Camus derrotou Truffaut (que estreava com Os Incompreendidos) e Buñuel (Nazarín). Não é difícil imaginar a razão. Mal os créditos iniciais surgem na tela e já irrompe uma escola de samba a ensaiar no morro — e assim será em grande parte da obra, com sambistas e mulatas na conhecida animação carnavalesca. Nada contra a imagem que costuma celebrar o Rio mais eloqüente.
É convincente, inclusive, para justificar o protagonista também músico e enraizado naquela cultura. Orfeu (Breno Mello, um ex-jogador ruim em campo e no filme) é a representação do conquistador malandro e querido por todos. Também tem o violão mais afinado do morro. Dele saem os trunfos do filme, canções de Tom Jobim e Carlos Lyra, como Manhã de Carnaval e A Felicidade. Impossível esperar mais de um Brasil para exportação. E foi nesse formato que o filme nasceu. A crítica da época explica que a idéia foi do produtor Sacha Gordine. Este sabia do amor de Marcel, o irmão de Albert Camus, pelo Rio de Janeiro e lhe entregou o projeto. O diretor subiu o morro sem pestanejar, inclusive destacando sua mulher, a americana Marpessa Dawn para o papel de Eurídice.
Ela literalmente some com as ótimas interpretações de Lourdes de Oliveira, como Mira, a namorada ciumenta de Orfeu, e Léa Garcia, a fogosa prima de Eurídice. São verdadeiras cabrochas. Por mais dedicadas, não conseguiram escapar da pasteurização. O mundo teria que ver gente feliz, bonita e orgulhosa de seu universo. Há indicações de que Camus se arrependeu não só deste, mas de muitos equívocos, mesmo tendo colhido sucesso pelo mundo. Ao tecer seu comentário demolidor na Cahiers du Cinéma, Jean-Luc Godard lembrou que conhecia o Rio de Janeiro e apontou, com detalhes, todos os erros e absurdos de roteiro e continuidade. Chegou a embirrar com a chegada de Eurídice na barca de Niterói e não no charmoso aeroporto Santos Dumont, onde a vista era fantástica.
Cacá Diegues lembraria da sugestão ao filmar o seu mito. Camus alegou que só depois das filmagens conheceu bem a cidade. Os deslizes transparecem nos movimentos da protagonista até chegar à favela; nos diálogos muitas vezes descuidados e sem sentido, nos recursos esc o l h i d o s p a r a m o m e n t o s fundamentais da trama. O mito dá conta do amor do casal acompanhado de perto pela morte (no filme é o atleta Ademar Ferreira da Silva). Quando Eurídice é vitimada, Orfeu desce aos infernos para buscá-la e o destino de ambos depende de nunca mais se olharem. Camus lança a mensagem numa das cenas mais emblemáticas — para o bem e para o mal —, quando o protagonista vai a um candomblé e ouve sua amada no corpo de uma velha. É essa sucessão de imagens clichês que aos poucos vai matando a boa intenção de servir um retrato honesto e comovente da vida brasileira. São ilusões de um estrangeiro que se esforçou em ser da terra.
Não deixa de ser tocante que se lembre de ícones como Cartola e Dona Zica numa ponta na repartição. Diegues também se deu ao luxo de encaixar — mesmo que fora de contexto — um ídolo musical, Caetano Veloso. Reveste também seu filme de exotismo e talvez não possa culpar tanto Camus pelo dele. É um das diversões do cinema. Com o tempo, alguns equívocos não se mostram mais tão marcantes.