Busca

Pressione "Enter"

Cobertura completa Sites de cinema Grupos de discussão Colunistas Os melhores filmes Notas dos filmes Todos os filmes Roteiro de cinema O que está passando no Brasil



Atriz francesa se emociona ao recriar na tela ícone de seu país


Béatrice Agenin, como
Sarah Bernhardt (Vantoen
Pereira Jr./Divulgação)

Ela era a encarnação perfeita das figuras de Manet: mulher moderna, com sua sexualidade ameaçadora, sua promessa de desestabilizar todo o mundo masculino com um simples olhar e, principalmente, uma atriz que exibia uma presença física que não deixava o mais sonolento espectador desgrudar os olhos de seu semblante. "Sara Bernhardt foi um mito tão poderoso que, apesar de seu comportamento e forma de vestir únicos, a imagem mais forte que ficou é o de uma mulher combatente, militante, uma feminista, enfim", comenta a atriz francesa Béatrice Agenin, que interpreta, em Amélia, novo filme de Ana Carolina, a musa de Oscar Wilde (Salomé), Alexandre Dumas Filho (Dama das Camélias) e Victorien Sardou (Tosca).

Atriz de teatro com longa carreira na Comédie Française, Béatrice Agenin confessou, em entrevista ao Estado, que ficou emocionada ao ser convidada por Ana Carolina para interpretar uma personagem-mito da cultura francesa.

"Tudo o que rodeia a história de Sarah Bernhardt parece irreal, provoca sonhos", conta, extasiada. "Como eu não conhecia Ana Carolina e nem ela a mim, pedi que fizéssemos uma leitura do roteiro para nos conhecermos, o que fizemos em minha casa, em Paris."

O resultado foi uma atração mútua - enquanto a diretora percebeu que a francesa imprimiria uma doçura ao papel de Sarah, a atriz notou que a sensibilidade da brasileira era essencial para tratar de uma personalidade tão cara ao franceses. "Ana conseguiu falar de um tema forte com muito charme, conduzindo o elenco de uma forma admirável."

O eixo central de Amélia é o conflito entre o "mundo culto" e a "barbárie", tratando-se de uma ficção que toma como partida um fato real. Em 1905, Sarah Bernhardt, em crise pessoal e profissional, é influenciada por sua fiel camareira brasileira, Amélia (Marília Pera, em participação especial), a apresentar Tosca, no Rio. No dia do desembarque, porém, Amélia morre de febre amarela. E a lendária atriz passa a conviver com as irmãs da camareira, Francisca (Myrian Muniz) e Oswalda (Camila Amado), além da agregada Maria Luiza (Alice Borges), que deixam o desolador sítio em Cambuquira, interior de Minas, para servir na Corte como costureiras de madame Bernhardt.


Adaptação - A convivência, no entanto, se revela completamente impossível, não só pelas diferenças de língua, mas pelos costumes e tudo o que tornou uma civilização mais forte que a outra.

"Naquela época, uma viagem de barco poderia levar semanas, portanto, havia um ritmo de adaptação e as pessoas tinham tempo de pensar e de aproximar-se aos poucos dos lugares a que chegaria", observa Béatrice. "As pessoas preparavam-se psicologicamente, mesmo se as diferenças sociais pareciam estabelecer abismos imensos entre aquelas de classe e educação privilegiadas, em relação às que não tinham direito a nada."

O conflito que Ana Carolina apresenta faz eco a uma tragédia contemporânea, acredita a atriz francesa, que enfrentou uma situação semelhante (jamais havia pisado na América do Sul), mas em condições diferenciadas. Enquanto Sarah Bernhardt queixou-se das más condições do Rio do início do século ("Li uma de suas cartas em que reclama que o filho Maurice cuspia sangue e que o imperador do Brasil (Pedro 2º) deixava-se arrastar em uma carroça puxada por quatro mulas cansadas"), Béatrice enfrentou os contrastes: hospedou-se em hotel luxuoso, andou em carro com motorista particular, mas se surpreendeu com as favelas e os menores que dormem em caixas de papelão na rua. "Uma miséria violenta, à beira do século 21!"

Durante os dois meses em que permaneceu no Brasil, porém, Béatrice preocupou-se em recriar um mito. De ascendência judia, alta, esguia, ruiva, de olhos azuis (cor que mudava conforme os ditames do espírito) e com um nariz levemente adunco, Sarah Bernhardt (1844-1923) não só dominava fisicamente o palco como apresentava uma qualidade lendária: uma voz vibrante, suave, melodiosa, emitida com uma clareza incomum. "Pesquisei em três livros, observei muitas fotos e absorvi todas as indicações de Ana Carolina para compor a personagem, mas não quis fazer apenas uma recriação histórica e sim apresentar uma mulher apaixonante, dona de uma coragem extraordinária em uma época em que o sexo feminino quase não tinha direitos."

Apesar da farta documentação à disposição, Béatrice notou que Sarah soube criar ao seu redor uma teatralização e uma lenda que a tornam uma exceção.

"Talvez tudo seja falso ou verdadeiro, por isso meu desafio foi dar-lhe humanidade", pondera. "É preciso acreditar mais nos personagens `reais' interpretados por Myrian Muniz e Camila Amado, pois Sarah é uma estrela."

Algumas das lendárias histórias que cercam a figura de Sarah Bernhardt (como o esquife que mandou fazer para repousar após as refeições e decorar seus papéis) são sutilmente abordados no filme e encantaram a atriz francesa.

"Certamente ela utilizava esse caixão para intrigar e divertir-se, porque Sarah adorava criar situações inventivas e engraçadas", comenta Béatrice, que se apoiou em três livros históricos e uma porção de fotos para compor seu personagem - como Sarah Bernhardt tinha aversão ao cinema, praticamente não existem imagens de suas atuações.


Acidente - Mas a principal história que cerca o mito de Sarah Bernhardt envolve o acidente sofrido no Teatro Lyrico, no Rio, em outubro de 1905. A atriz representava a Tosca e, nos instantes finais, quando a personagem se atira em um precipício para fugir dos policiais, sua queda era amortecida por uma pilha de colchões, atrás do cenário. Não se sabe ao certo se a quantidade era insuficiente ou se os colchões foram deslocados do ponto da queda. A verdade é que Sarah, ao se precipitar, bateu violentamente o joelho contra o chão e perdeu os sentidos. A atriz suportou ainda dez anos sentindo dores até que sua perna direita foi amputada.

Em seu filme, Ana Carolina tomou liberdade para revelar quem retirou os colchões do lugar certo, o que colaborou para reforçar o drama entre Sarah e as irmãs de Amélia. "Pouco me importei com a veracidade da história contada pela diretora, mas me preocupei com o fato de isso reforçar a diferença entre aquelas mulheres tão distintas", afirma Béatrice. "Sarah pagou pela sua superioridade cultural e social, pelo fato de, inconscientemente, ser diferente."

Interpretar a grande diva francesa representou um marco em sua carreira, reconhece Béatrice. Em um momento em que até na França alguns produtores de cinema não sabem quem foi Sarah Bernhardt, a oportunidade oferecida por Ana Carolina foi única. "Uma coragem inesquecível." (O Estado de S. Paulo)

 

Copyright © 1996-2000 Terra Networks, S.A. Todos os direitos reservados. All rights reserved.