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Diretora mostra passagem de Sarah Bernhardt pelo Brasil
Filme atualiza o clássico de Nelson Pereira para discutir a globalização

Sarah Bernhardt,
interpretada pela atriz
Béatrice Agenin (Vantoen
Pereira Jr.)

Há mais de dez anos Ana Carolina vinha preparando seu filme sobre a passagem de Sarah Bernhardt pelo Brasil. Quando ela iniciou a rodagem, há dois anos, o filme ainda se chamava Páscoa em Março. O título mudou. Ficou sendo só Amélia. O título antigo talvez tivesse mais a ver com os dos filmes que Ana Carolina realizou antes - Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa formam uma trilogia sobre anseios e frustrações das mulheres para discutir o poder. Amélia, por simples que seja (o título), não confirma apenas a importância da diretora no contexto do cinema brasileiro. Confirma que valeu a pena esperar.

É um belo filme, um dos melhores não só da atual fase, mas de toda a retomada. Quando foi exibido no Planalto, numa sessão especial para o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-sociólogo deu sua interpretação - disse que Amélia era o novo Macunaíma, atualizando Mário de Andrade e Joaquim Pedro de Andrade para os anos 90. O presidente errou. O filme é mais Nelson Pereira dos Santos - Como Era Gostoso o Meu Francês. Ana Carolina inverte Nelson e faz o primeiro filme brasileiro a realmente pensar a globalização.

Como era gostosa a nossa Sarah Bernhardt. O filme de Nelson, no começo dos anos 70, foi o manifesto antropofágico do cineasta. Os índios, depois de assimilar as técnicas de combate que o francês podia ensinar-lhes, comiam o personagem interpretado por Arduíno Colasanti. Eram tempos revolucionários, aqueles. Comer o agente colonial era a reação política e ideológica do colonizado. O mundo mudou. Hoje é Sarah Bernhardt, quem, de volta ao seu país, apropria-se antropofagicamente da arte do colonizado e monta em Paris a sua versão de I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, colocando no coro, entre índios de mentira, as três matutas mineiras que estão no centro do relato.

Amélia é Marília Pêra, que pode aparecer pouco, mas tem uma participação decisiva. Ana Carolina dinamitou a participação de Marília e pulverizou-a pelo filme inteiro. São flashes de Amélia que entrecortam o relato. Amélia é a camareira brasileira da grande Sarah. Por força de servilidade - sua vida é servir Sarah -, Amélia torna-se imprescindível para ela. Vive para apaziguar todos os demônios da diva.

Quando o filme começa, Sarah está em crise. Sai do palco meio desfalecida, achando que está envelhecendo, que o público não a ama mais. Amélia trata de reconciliá-la consigo mesma. Sarah vem apresentar-se no Brasil, Amélia convoca as duas irmãs do interior de Minas para que venham integrar-se, como costureiras, à trupe. Com elas vem a empregada. Três matutas na corte.

O diálogo entre essas mulheres e Sarah é sempre impossível. Falam línguas diversas - o francês e o mineirês. A língua é só a expressão de uma falta de comunicação maior que dá sentido ao filme. Amélia trata do embate entre a civilização (Sarah) e a barbárie (o trio de Minas). Trata da não-comunicação, do civilizado e não-civilizado, da cultura e da não-cultura. Na cena-chave, reagindo à exasperação da francesa, Miriam Muniz, uma das três irmãs, reage recitando Gonçalves Dias. A fala terminará incorporada, em francês, por Sarah.

Embora Sarah Bernhardt tenha realmente passado pelo Brasil - e aqui sofreu o acidente que a deixou perneta -, Ana Carolina teceu uma ficção em torno do assunto. Sarah não tinha uma camareira brasileira. Amélia é fictícia, assim como suas irmãs. Mas, em torno delas, tudo é real. A recriação de época, as questões políticas que o filme levanta. Amélia pode não ser nota 10, mas é um acontecimento para o qual o público deve preparar-se - e ficar atento.

Leia mais:
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(O Estado de S. Paulo)

 

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