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Proteína encontrada no veneno da surucucu pode ajudar hipertensos

Cientistas do Butantan e da Unifesp encontram peptídeos no veneno de serpentes brasileiras, que poderão ser usados futuramente em remédios para hipertensão

6 dez 2023 - 14h44
(atualizado às 17h55)
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Cientistas do Instituto Butantan e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) investigam serpentes peçonhentas brasileiras em busca de novos componentes para remédios. Em dois estudos diferentes, apoiados pela Fapesp, o grupo identificou peptídeos — fragmentos de proteína — que podem beneficiar pessoas que tratam a pressão alta (hipertensão) devido ao potencial efeito anti-hipertensivo.

Foto: Pavel Dodonov/CC-BY-2.0 / Canaltech

Um dos peptídeos mais promissores para os hipertensos foi encontrado no veneno da surucucu-pico-de-jaca ou apenas surucucu (Lachesis muta). Enquanto isso, outro foi localizado nas toxinas hemorrágicas da jararaca-de-barriga-preta (Bothrops cotiara), também conhecida como cotiara.

Potencial dos venenos

"Os venenos não cansam de nos surpreender" pelo seu potencial, afirma Alexandre Tashima, professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e coordenador dos estudos, para a Agência Fapesp.

Embora os estudos com o veneno desses animais já seja tradição na ciência brasileira, novas análises sempre podem identificar moléculas e peptídeos com usos desconhecidos na medicina. "Apesar de tanta tecnologia disponível, ainda há muito a ser estudado nessas toxinas", acrescenta o pesquisador.

Quando se pensa nas cobras, algumas espécies estão em risco de extinção e, se não forem estudadas hoje, podem nunca mais ser. "Temos que aproveitar a sorte de poder estudar essas espécies, pois muitas devem ter sido extintas antes mesmo de serem conhecidas", comenta Tashima.

Surucucu

No primeiro estudo publicado na revista Biochemical and Biophysical Research Communications, o grupo se concentrou na cobra surucucu, encontrada em diferentes pontos da América do Sul.

Cientistas investigam o veneno dae serpentes, incluindo a surucucu, em busca de proteínas com efeitos medicinais (Imagem: Sávio Stefanini Sant' Anna/Instituto Butantan)
Cientistas investigam o veneno dae serpentes, incluindo a surucucu, em busca de proteínas com efeitos medicinais (Imagem: Sávio Stefanini Sant' Anna/Instituto Butantan)
Foto: Canaltech

No total, foram rastreados 151 peptídeos, sendo que 126 deles foram reportados pela primeira vez. Entre eles, estava o Lm-10a. Este é um fragmento de toxina hemorrágica, ou seja, é parte da proteína que causa hemorragia alocada nas presas da serpente.

No entanto, a sua função é mais próxima a dos peptídeos que inibem a enzima conversora da angiotensina (ACE) e que podem inibir a pressão arterial, como o medicamento captopril, prescrito para o tratamento de hipertensão e para alguns casos de insuficiência cardíaca. O efeito anti-hipertensivo ainda precisa ser melhor estudado, mas é uma aposta promissora.

Jararaca-de-barriga-preta

Além da serpente surucucu, os pesquisadores investigaram jararaca-de-barriga-preta, recorrente no Sul do Brasil, e descreveram os achados em artigo na revista Biochimie. Desta vez, foram encontrados 197 peptídeos no veneno desta espécie, incluindo 189 nunca descritos.

Entre os peptídeos do veneno da espécie, os autores destacam o Bc-7a. Isso porque esse fragmento tem a potencial capacidade de controlar a pressão arterial, o que deve ser confirmado em estudos posteriores.

Efeito para hipertensos

Hoje, já existem tratamentos contra a hipertensão seguros e eficazes, mas isso não descarta a importância de pesquisas em busca de novos fármacos e de substâncias com aplicação na área da biotecnologia. Além disso, os pesquisadores destacam que os atuais medicamentos ainda são associados a alguns efeitos adversos indesejados, como tosse seca, tonturas e excesso de potássio no sangue.

Para entender se esses peptídeos podem ser realmente benéficos, é preciso continuar as pesquisas e verificar os efeitos em testes pré-clínicos e, posteriormente, clínicos (com humanos). No futuro, isso pode culminar em novos remédios.

Fonte: Biochemical and Biophysical Research CommunicationsBiochimie e Agência Fapesp      

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