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Max Headroom e o hacking mais misterioso dos anos 80

Max Headroom é um DJ Virtual dos anos 80, um fenômeno cyberpunk que inspirou um dos mais misteriosos hackings de todos os tempos

4 jul 2022 - 21h12
(atualizado em 5/7/2022 às 12h09)
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Max Headroom, com Ronald Reagan e a Guerra das Colas é a cara dos anos 80, mas o que nem todo mundo sabe é que ele fez parte de uma inusitada invasão analógica, que permanece um mistério até os dias de hoje.

Não exatamente cgi.
Não exatamente cgi.
Foto: channel 4 / Meio Bit

Max Headroom era um VJ no The Max Headroom Show, no Canal 4 britânico. Eu explico: Antigamente músicas não vinham em streaming, a gente ouvia em um negócio chamado rádio, e éramos apresentados a novas músicas em programas de TV, onde elas eram acompanhadas de um vídeo, isso era chamado videoclipe, e os programas eram apresentados por VJs, de Video Jockeys, mais detalhes, pergunte a seus pais.

O diferencial é que Max Headroom seria o primeiro personagem digital, feito em computador. Uma proposta ousada, visto que em 1985 computadores não eram exatamente avançados, e o orçamento de conserto de geladeira da TV britânica dificilmente permitiria essa ousadia.

E não permitiu mesmo, Max Headroom era na verdade Matt Frewer, com uma maquiagem pesada que, com efeitos de edição faziam com que ele se parecesse com o que o público imaginava que um personagem 3D pareceria.

Max tinha um jeito único de falar, com "falhas", repetições, variações de timbre, como se fosse uma Inteligência Artificial defeituosa. O conceito era que ele estaria invadindo o programa de clipes, e apresentando por conta própria. Era tudo muito estranho, e se serve de console, nos Anos 80 a gente também não entendia muito bem o que ele era:

Max Headroom teve direito a um longa contando sua origem, no melhor estilo cyberpunk que estava na moda na época. Foi o "Max Headroom: 20 minutos no futuro". Sim, totalmente esquecível, e sim, tem inteiro no Tubo. Não recomendo.

A linguagem moderna e a postura rebelde e anárquica fizeram de Max Headroom um sucesso entre os jovens ingleses e americanos, que viam nele um avatar cyberpunk da contracultura, se opondo às corporações sem alma.

Claro, do mesmo jeito que as máscaras de Guy Fawkes usadas pelo Anonymous rendem royalties ao grupo Time Warner, Max Headroom rendia dinheiro ao Channel 4, mas esse tipo de nuance está além da compreensão do adolescente médio.

Max Headroom teve três temporadas, totalizando 29 episódios, fazendo bastante sucesso no curto período entre 1985 e 1987. Mais tarde uma nova série de 14 episódios foi criada para a TV americana, mas não há relatos de que alguém tenha assistido. Mesmo assim a estética do personagem se tornou marcante.

Ela é usada em De Volta Para o Futuro 2, quando Marty McFly, no distante futuro de 2015 visita um café temático dos anos 80 sendo atendido por avatares de Ronald Reagan e do Aiatolá Khomeini, na mais pura estática Max Headroom.

Mesmo assim o mais curioso caso envolvendo o personagem aconteceu em 22 de novembro de 1987, em Chicago. Durante a apresentação do Jornal das 9 da WGN-TV, o sinal foi interrompido. Depois de 15 segundos de tela preta entra no ar um sujeito com uma máscara de Max Headroom, com um som cheio de interferências. Com menos de 30 segundos os técnicos da emissora conseguiram mudar a freqüência de comunicação entre o estúdio e a antena transmissora, e o sinal voltou ao normal. Mais tarde, no mesmo dia outro canal sofre interferência também.

O WTTW passava um episódio de Dr Who, quando foi interrompido por outro vídeo do mesmo sujeito. Dessa vez ele começa a falar coisas sem sentido, ataca a WGN, xinga Chuck Swirsky, um locutor esportivo local, parodia slogan da Coca-Cola, e leva palmadas no traseiro com um mata-moscas.

O sujeito fez seu show sem interferência, pois não havia nenhum engenheiro de plantão nos transmissores na torre Sears, e os técnicos na emissora assistiram a tudo, impotentes.

Tecnicamente a invasão não foi complicada. No tempo dos sinais analógicos, bastava você ter um transmissor mais potente do que o da emissora, e o transponder na torre retransmitira o seu sinal. O problema é que além de precisar saber as exatas freqüências, o hacker precisava de um transmissor extremamente potente, e ao contrário de Plutônio, em 1985/87 não se vendia esse transmissor em farmácias.

O FBI entrou na jogada, pois interferir com telecomunicações é crime federal, com pena de US$100 mil de multa e um ano de cadeia. O FCC entrou com uma investigação paralela, e as emissoras envolvidas também colocaram seus melhores homens no caso.

O máximo que concluíram foi que o sujeito estava em algum lugar entre as duas antenas. Ninguém nunca assumiu a autoria da ação, não há nenhum motivo ou ganho financeiro, ou político. Tudo se parece mais com uma intervenção dadaísta, chaotic neutral como dizem os jovens descolados.

Os envolvidos permanecem desconhecidos, e até poderiam aparecer, o crime prescreveu depois de cinco anos, mas preferiram o silêncio.

Em 2010 um usuário do Reddit fez uma detalhada pesquisa que apontou dois suspeitos, mas depois eles foram descartados e a investigação voltou pra estaca zero. Até hoje esse é um dos mais misteriosos e curiosos casos de pirataria de todos os tempos.

Max Headroom e o hacking mais misterioso dos anos 80

Meio Bit
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