Universidade da China apura se cientista escondeu morte de criança em testes de edição genética
Óbito não foi reportado no estudo de neurocientista e levanta questões sobre a ética na pesquisa; autor do trabalho ainda não se manifestou sobre as denúncias
Uma universidade chinesa investiga relatos de que um teste de edição genética causou a morte de uma menina de seis anos, morte que não foi comunicada no estudo publicado, afirmou a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai nesse domingo, 26. As denúncias são um revés nas ambições da China de se tornar uma superpotência na biotecnologia.
A menina, identificada pelo pseudônimo "Mei", morreu no ano passado aproximadamente uma semana após receber uma infusão espinal de bilhões de vírus projetados para penetrar no cérebro com fins terapêuticos, segundo investigação conjunta da revista Science e do Retraction Watch, plataforma que investiga casos de retratação de artigos científicos.
A Escola de Medicina "opõe-se firmemente à realização de pesquisas científicas médicas em violação da ética da pesquisa científica", assegurou. O comunicado acrescentou que seriam tomadas "medidas severas" de acordo com as conclusões da investigação.
A edição genética é um tipo de tecnologia que permite aos cientistas mudar, remover ou adicionar pedaços do DNA de um ser vivo de forma muito precisa. Na prática, funciona como um editor de textos para o código genético. A técnica mais famosa - CRISPR-Cas9 - age como uma "tesoura molecular" e foi premiada com o Prêmio Nobel de Química de 2020.
O relatório da Science e do Retraction Watch afirma que os pais de Mei, que pagaram mais de 800 mil dólares para financiar o experimento, não foram informados adequadamente sobre os riscos.
Segundo a Science, documentos oficiais e relatos fornecidos pelos pais da menina indicam que o hospital permitiu que o tratamento experimental de Qiu prosseguisse sob uma disposição regulatória que não exige a aprovação de reguladores nacionais.
Após a morte da criança, o hospital pagou uma multa modesta a uma autoridade de saúde local, de acordo com a apuração da Science, mas Qiu não foi sancionado publicamente.
O neurocientista Qiu aspirava desenvolver a primeira terapia de edição genética do mundo direcionada ao cérebro, reescrevendo o gene mutado nas células nervosas da menina para que ela pudesse produzir uma proteína vital, indicou o relatório.
A morte, até agora não revelada, representa um novo golpe às ambições da China de rivalizar com os Estados Unidos como potência biotecnológica, após o escândalo de 2018 envolvendo He Jiankui, um biofísico que produziu em segredo bebês com genes editados.
Conhecido com o o Dr. Frankestein chinês, Jiankui chegou a ser condenado a três anos de prisão por enganar autoridades médicas. Em 2018, a experiência de Jiankui com a edição genética de embriões resultou em gêmeas e, posteriormente, em um terceiro bebê de outro casal.
Em setembro, o Conselho de Estado da China publicou novas que regras que proíbem a modificação do DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos ou embriões. Esse era o tipo de pesquisa que o Jiankui realizava antes de sua prisão.
O líder da China, Xi Jinpíng, colocou como meta que o país asiático esteja na liderança global da ciência e tecnologia em 2049, mirando as comemorações da revolução que levou o Partido Comunista ao poder./ COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
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