Seu smartwatch, celular ou vape velho podem valer mais do que aparentam
A proliferação da "fast tech" e de dispositivos médicos descartáveis impulsiona o lixo eletrônico global, que pode atingir 82 milhões de toneladas até 2030. Embora a maioria desses itens contenha matérias-primas valiosas como ouro e cobre, apenas 17% são reciclados no mundo, gerando perdas econômicas e impactos ambientais. Para reverter o cenário, especialistas defendem o design modular, a extensão da vida útil dos aparelhos e sistemas de coleta mais convenientes e acessíveis aos consumidores.
Lixo eletrônico cresce em meio à proliferação de gadgets baratos. Especialistas alertam: esses aparelhos descartados contêm materiais valiosos que poderiam ser reaproveitados.De ventiladores de mão a vapes, cerca de 44% dos europeus possuem pelo menos seis dispositivos tecnológicos velhos guardados em casa. Mais da metade deles admite ter aparelhos eletrônicos quebrados ou sem uso, ou simplesmente jogá-los no lixo, em vez de reciclá-los.
Isso é o que aponta uma nova pesquisa da associação europeia de resíduos eletrônicos WEEE Forum, sediada em Bruxelas, sobre o mercado de "fast tech". O termo se refere a eletrônicos de baixo custo, geralmente vendidos por menos de 10 euros (R$ 56,00). Exemplos desse tipo de produtos são luminárias de mesa, fitas de LED, carregadores, baterias portáteis, smartwatchs, ventiladores portáteis e até cigarros eletrônicos descartáveis.
"Esses eletrônicos são uma espécie de equivalente tecnológico da 'fast fashion'", afirma à DW Magdalena Charytanowicz, gerente de comunicação do WEEE Forum.
Quase 40% dos entrevistados disseram já ter descartado um produto de fast tech sem sequer utilizá-lo ou até um mês após a compra. Além disso, quase 60% afirmaram ter usado algum desses dispositivos por no máximo seis meses. Ainda assim, a maioria declarou estar satisfeita com os produtos, apesar da vida útil curta.
Segundo o relatório, isso sugere que os consumidores aceitam o "acordo implícito" da "fast tech": produtos de qualidade inferior que funcionam por um tempo limitado e podem ser facilmente substituídos.
A "Grande Muralha" do lixo eletrônico
Cerca de 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos são descartadas todos os anos no mundo. "É como uma grande Muralha da China feita de lixo eletrônico produzida anualmente", compara Charytanowicz. Segundo ela, esse volume deve chegar a 82 milhões de toneladas até 2030.
Na Europa, aproximadamente 40% do lixo eletrônico é reciclado. No mundo, porém, a taxa é de apenas 17%, o que resulta na perda de materiais valiosos.
Em 2022, as 10,7 milhões de toneladas de lixo eletrônico geradas na Europa continham cerca de 1 milhão de toneladas de matérias-primas como manganês, ouro, cobre e alumínio. Segundo Charytanowicz, esses recursos estão no centro de disputas geopolíticas cada vez mais importantes.
Organizações como o WEEE Forum defendem campanhas de conscientização para explicar por que e como descartar corretamente aparelhos eletrônicos baratos, além de tornar a reciclagem o mais simples possível.
"Mesmo os dispositivos menores valem a pena ser reciclados se contiverem uma placa eletrônica ou bateria", afirmou Charytanowicz à DW.
Ela acrescenta que regras mais claras e em harmonia na União Europeia, atualmente em discussão, poderiam melhorar a coleta de resíduos eletrônicos. Segundo ela, a diretiva europeia em vigor há mais de duas décadas já não acompanha a realidade atual do mercado.
Ainda assim, a melhor maneira de reduzir o impacto ambiental dos eletrônicos continua sendo prolongar sua vida útil por meio de melhor design e reparo. Afinal, a recuperação e reciclagem de matérias-primas exigem grande consumo de energia.
O lixo eletrônico na saúde digital
Outra fonte crescente de resíduos eletrônicos são os dispositivos digitais de saúde, como sensores para diabéticos e medidores de pressão arterial. Embora estejam transformando os cuidados médicos, muitos desses produtos são projetados para uso descartável.
Um estudo publicado na revista Nature em dezembro de 2025 estimou que as vendas de dispositivos vestíveis, voltados à saúde, podem chegar a 2 bilhões de unidades por ano até 2050, gerando cerca de 1 milhão de toneladas de lixo eletrônico.
Jeremy Faludi, professor associado de engenharia de design sustentável da Universidade TU Delft, na Holanda, afirma que o descarte dessas tecnologias apresenta desafios muito maiores do que os encontrados nos eletrônicos convencionais. Isso porque equipamentos utilizados em hospitais podem entrar em contato com sangue ou outros fluidos corporais, exigindo cuidados especiais para evitar contaminações.
"Muitos produtos são projetados de forma que seus componentes não possam ser recuperados facilmente, porque a esterilização comprometeria a parte eletrônica", explica Faludi.
Ele participou do projeto europeu DiCE (Digital Health in Circular Economy), uma iniciativa financiada pela União Europeia para repensar o design de dispositivos médicos digitais, recuperando materiais críticos e reduzindo impactos ambientais sem comprometer a segurança dos pacientes.
Uma das soluções testadas foi o design modular, que permite separar os componentes eletrônicos das partes que entram em contato com pacientes, facilitando a reutilização dos equipamentos.
O projeto, que durou quatro anos e envolveu cidadãos, hospitais e fabricantes de nove países europeus, constatou que cabos reutilizáveis de eletrocardiograma podem reduzir os impactos ambientais entre 81% e 94%. Atualmente, muitos desses itens são projetados para uso único.
As regras sobre resíduos hospitalares também dificultam a reutilização e a reciclagem, especialmente quando variam entre países. Segundo Faludi, cerca de 85% do lixo hospitalar não é infeccioso, mas frequentemente acaba misturado a resíduos contaminados. Melhorias na separação dos materiais e regras padronizadas na União Europeia poderiam ajudar a resolver esse problema.
"Empurrõezinhos verdes" incentivam a reciclagem
Assim como acontece com outros eletrônicos, aparelhos domésticos para os cuidados com a saúde, como medidores de pressão e glicose, muitas vezes acabam esquecidos em gavetas ou descartados incorretamente porque os consumidores não sabem como se desfazer deles.
Projetos-piloto realizados na Bélgica, Espanha e Eslovênia, que ofereceram devolução gratuita pelos correios e máquinas de coleta em locais públicos, mostraram que mais de 60% das pessoas estariam dispostas a devolver aparelhos sem uso se o processo fosse simples.
"O mais importante é a conveniência, para que a reciclagem possa ser incorporada à rotina das pessoas", afirma Charytanowicz.
Ela acrescenta que pequenos estímulos comportamentais, como informar que a reciclagem de um aparelho pode ajudar outra pessoa a ter acesso a materiais reaproveitados, aumentam a disposição das pessoas em fazer o descarte correto.
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