"Céu cinza" e "sol escuro": brasileiros narram drama dos incêndios na Europa
Moradores de Madri e Bordeaux descrevem dias de céu escurecido e ar sufocante dianto do avanço das chamas e das cinzas sobre áreas urbanas. Nova onda de calor ameaça piorar a situação."Sufocante", "assustador" e "surreal". Assim descrevem brasileiros moradores de Madri e Bordeaux a sensação escaldante vivida nas áreas próximas aos incêndios florestais recordes que devastam França e Espanha - já tratados pelas autoridades como os maiores da história recente. Mais de 110 mil hectares de floresta foram destruídos, dez vezes o tamanho de Paris, e cerca de 300 mil pessoas precisaram deixar suas casas.
"Foi assustador, parecia o fim do mundo, porque o sol ficou muito escuro", conta a psicóloga Larissa Pereira, moradora de Madri, capital da Espanha. "Foram dois ou três dias de um céu praticamente cinza e um ar muito ruim de respirar."
Nesta terça-feira, o fogo perdeu intensidade nos dois lados da fronteira, mas os países ainda correm contra o tempo para evitar uma tragédia maior antes da chegada de uma nova onda de calor, que pode agravar os incêndios devido às altas temperaturas e à baixa umidade do ar. A expectativa é que os termômetros atinjam 42°C na Espanha e 40°C na França.
"A gente não chegou a ver fogo diretamente, mas viu muita fumaça, muitas ambulâncias, muita gente evacuando e um trânsito surreal", conta Luiza Sabaini. A influenciadora digital viajava de carro pela França e estava hospedada em um hotel em Bordeaux quando a fumaça tomou conta da cidade. "Parecia que a gente estava dentro de um grande incêndio."
Inéditos por sua dimensão, os incêndios que atingem o sudoeste europeu se destacam também pelo avanço sobre regiões povoadas, o que provocou grande impacto em áreas urbanas. A França, por exemplo, realizou a sua maior evacuação desde a Segunda Guerra Mundial e acionou mecanismos europeus de combate às queimadas. Na Espanha, onde dois focos se uniram em um megaincêndio a oeste da capital, um perímetro de 280 quilômetros de fogo obrigou o país a decretar emergência nacional por queimadas pela primeira vez em sua história.
Chamas avançaram rapidamente em Bordeaux
Em Bordeaux, região turística do sudoeste francês, a fumaça chegou como uma onda e tomou conta da cidade.
"Na sexta-feira à noite, eu fui para um jantar. Quando a gente saiu, o céu estava parecendo cena de filme de terror. Estava um nevoeiro completo na cidade, não apenas no céu, mas nas ruas", diz a social media Thanny Negreiros, ex-moradora de Bordeaux que estava na cidade para um casamento.
"As cidades ao redor começaram a ser evacuadas. 'As pessoas estão sendo encaminhadas para ginásios na região de Bordeaux porque não tem condições. O fogo está se espalhando muito rápido, está queimando as casas, as pessoas estão tendo que evacuar, deixando os animais para trás.' Estava todo mundo começando a ficar assustado com a dimensão que a situação estava tomando", relata sobre o dia de sábado, quando as chamas já se aproximavam da região metropolitana de um milhão de habitantes.
No domingo, o fogo chegou a 15 quilômetros da cidade, e avisos de evacuação passaram a ser recebidos por moradores de áreas mais próximas ao centro de Bordeaux. "A gente não sabia se o fogo ia conseguir avançar para a cidade ou não. Foi aí que todo mundo começou a ficar realmente assustado", completa.
Incêndios florestais geram microclima próprio que alimenta as chamas
Grandes incêndios florestais como este são capazes de criar seu próprio microclima. O calor e a fumaça que sobem da superfície formam nuvens de tempestade, gerando ventos fortes e raios que alimentam novos focos. O fenômeno é conhecido como pirocumulonimbus. "Nós lutamos contra um monstro", disse o porta-voz da associação de bombeiros da França, Eric Brocardi.
Essa sensação também foi relatada por Luiza Sabaini, hospedada na sexta-feira em um hotel a oeste de Bordeaux, mais próximo à costa, de onde o incêndio se alastrava.
"Quando chegamos ao hotel, a gente queria ir para as dunas. Mas, na hora que abrimos o mapa, estava tudo debaixo de fogo. Tinha sinal de fumaça mostrando as regiões mais perigosas e a gente estava literalmente em uma das zonas mais perigosas da França", afirma.
"A gente dormiu uma hora e meia. Quando acordei, o quarto estava cheio de fumaça, fedendo a incêndio. Muito. Eu abri a janela e vi uma uma neblina absurda. Não dava para ver nada", conta. O casal decidiu deixar a cidade mais cedo em direção à Espanha, dezenas também decidiram evacuar a região por segurança.
Máscaras nas ruas, medo de aumento das chamas
Quando o engenheiro Eduardo Luz, morador de Bordeaux desde 2024, e sua esposa ouviram falar dos primeiros focos na região litorânea, não se preocuparam devido à distância.
Foi na sexta-feira que a situação se agravou. "Quando chegamos em casa, o apartamento estava cheio de cinza. A gente não estava acostumado com isso", conta sobre a velocidade com que a fuligem avançou durante a noite. No início, ele imaginou que a mudança no ar fosse uma espécie de tempestade de areia, que já havia experienciado em Lyon. "Tentamos improvisar uma espécie de umidificador com ventilador, bacia d'água e panos úmidos para melhorar a qualidade do ar, mas dormimos com cheiro de fumaça a noite inteira."
No sábado, a preocupação passou a incluir o impacto emocional, devido à apreensão com amigos e colegas de trabalho que foram evacuados durante a noite. "Desde sexta-feira, a gente acordava e a primeira coisa que fazia era olhar os mapas da evolução do incêndio e acompanhar as notícias, com medo de que tivesse avançado mais do que no dia anterior."
Nas ruas, ao menos metade dos pedestres passou a usar máscara de proteção, diz ele. Segundo Thanny Negreiros, as farmácias rapidamente lotaram com clientes buscando os equipamentos. Todos os brasileiros ouvidos pela reportagem experienciaram sintomas como incômodo na garganta ou dores de cabeça.
Segundo Luz, a situação só começou a melhorar na segunda-feira. "Desde que estou na França, nunca tinha passado por uma experiência tão próxima assim. Eu percebi que muitas pessoas do trabalho também estavam meio perdidas. Não parecia uma situação normal nem algo que as pessoas encaravam como rotina."
Chamas perderam força na Espanha antes de nova onda de calor
Na Espanha, o fogo consumiu 77 mil hectares e atingiu regiões historicamente secas de Madri e Ávila, a oeste da capital. Apesar da iminente onda de calor, o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse que o país começou a "enxergar uma luz no fim do túnel" nesta terça-feira, após dias em que as autoridades afirmavam ser impossível conter totalmente as chamas. O país suspendeu o estado de emergência decretado em 23 de julho.
A psicóloga Larissa Pereira, que vive em Madri há mais de dois anos, relata que o ar ficou ainda mais pesado nos últimos dias. Os efeitos das queimadas foram sentidos mesmo na capital espanhola, apesar da distância dos principais focos de incêndio, que se alastravam pela região montanhosa nos arredores da cidade. Nas ruas, muitos moradores passaram a usar máscaras de proteção por recomendação das autoridades, e diversas empresas autorizaram o trabalho remoto.
"Foi muito estranho. Acho que começou semana passada e não conseguiram controlar, porque se espalhou muito rápido justamente pelos ventos. Você acordava de manhã e o céu estava escuro, estava cinza, realmente. E era um cinza, não um cinza nublado, um cinza muito carregado", conta ela.
"Quando saía o sol, parecia aquela bola de fogo laranja escuro. A qualidade do ar era horrível para respirar. Principalmente no sábado passado, mesmo com o calor que fazia, nós tínhamos que fechar todas as janelas, porque o cheiro era muito forte, muito ruim", continua.
Brasileira fala em "catástrofe"
A empresária brasileira Dani Marcolla trata as queimadas como uma "catástrofe".
"A pior da história da Espanha. Todo verão tem uma tragédia como essa, mas neste caso estamos falando de mais de 90 mil pessoas. As pessoas estão perdendo tudo, inclusive muitos animais", relata.
Mesmo para quem vive na região, o cenário é incomum. Moradora de Madri, a tradutora espanhola Paula Martin afirma que os efeitos dos incêndios começaram a ser sentidos na noite de sexta-feira.
"Nós começamos a perceber que a nuvem cheia de fumaça e cinzas estava se aproximando, e começou um cheiro de queimado absurdo", conta à DW. "No sábado, em Madri, tínhamos aquela nuvem enorme e a recomendação era fechar todas as janelas, não sair ou tentar não sair", acrescenta.
Segundo ela, a qualidade do ar piorou durante o fim de semana, com clara presença de partículas nocivas à saúde. Martin também relata casos de colegas que tiveram de deixar suas casas devido às evacuações ou ficaram isolados em localidades próximas à capital por causa do avanço das chamas.
Na terça-feira, a qualidade do ar voltou a melhorar, mas ainda era possível ver no horizonte uma fina camada de fumaça, relata Martin.
Segundo o governo espanhol, ao menos 20 mil pessoas agora poderão voltar para casa. Diversas comunidades, porém, seguem interditadas, como Robledo de Chavela, Zarzalejo, Fresnedillas de la Oliva e Valdemaqueda, além dos municípios de Pelayos de la Presa e Santa María de la Alameda.
Fernando Casado, prefeito de Robledo de Chavela, entende que as próximas horas de terça-feira serão cruciais, devido à chegada da nova onda de calor à região. "É verdade que à noite o incêndio é como um gato adormecido, mas durante o dia pode se transformar em um leão poderoso."
Desde o início de julho,14 pessoas morreram devido aos incêndios na Espanha, incluindo um idoso dentro de seu carro na última semana. Também nesta terça-feira, uma mulher atingida pelas chamas no sul do país no começo do mês não resistiu aos ferimentos, tornando o incêndio florestal que atingiu a província de Bédar, em Almería, em 9 de julho, o mais letal do país duas décadas. Na ocasião, o fogo se espalhou a uma velocidade de 100 metros por minuto em seu pico, impedindo a fuga das vítimas.
Europa vê risco prolongado de incêndios
A Europa enfrenta, desde o início do ano, sucessivas ondas de calor e uma seca prolongada, em um cenário que cientistas associam às mudanças climáticas provocadas pela ação humana. As altas temperaturas ressecaram a vegetação que havia crescido após períodos mais úmidos, aumentando o risco de incêndios de grande escala.
Embora os focos de estejam concentrados no oeste europeu, autoridades da União Europeia alertam para o risco de propagação do problema a outras regiões do continente. Segundo a comissária europeia Hadja Lahbib, condições extremas também são esperadas em países como Hungria, Eslováquia e República Tcheca, além da Península Ibérica, onde a situação pode se agravar nos próximos dias.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.