Baianas de acarajé: mulheres fortes guardiãs do sabor e da tradição

Foto: wikimedia commons Rodrigues Pozzebom

Mais que culinária, a Baiana do Acarajé é símbolo da resistência afro-brasileira. Sua história entrelaça fé, ancestralidade e luta pela liberdade, visto que os bolinhos de feijão com dendê financiaram terreiros e cartas de alforria. Assim, ser baiana do acarajé é profissão centenária, feminina e sagrada, concedida pelos orixás.

Foto: wikimedia commons Rodrigues Pozzebom

O acarajé nasceu da tradição iorubá, onde “acará” significa bola de fogo e “jé” comer. Ao atravessar o Atlântico, manteve sua força simbólica, tornando-se alimento ritual e também sustento econômico. Dessa forma, o prato carrega tanto sabor quanto espiritualidade.

Foto: Claudia Baiana wikimedia commons

A atividade da baiana de acarajé remonta ao começo do século 18, quando as chamadas escravas de ganho saíam para vender doces e salgados nas ruas de Salvador, Recife e Rio de Janeiro, e levar lucro aos seus senhores. Porém, guardavam parte do dinheiro e, com isso, muitas compraram a própria liberdade. O tabuleiro tornou-se arma contra os grilhões.  

Foto: Arquivo Nacional

Na África, mulheres já vendiam alimentos como forma de autonomia. No Brasil, essa prática se manteve, garantindo às escravizadas não apenas renda, mas também protagonismo social. Assim, o comércio ambulante foi herança e resistência.

Foto: Antônio Milena/Agência Brasil

Cada etapa do quitute é exclusivo. O feijão-fradinho é batido manualmente com cebola e sal até formar uma massa, guardada em grandes potes plásticos junto ao fogareiro nos fundos da barraca. Modelados e fritos no azeite de dendê na hora, os bolinhos são abertos e recheados com vatapá, caruru, vinagrete, camarões e um molho de pimenta especial.

Foto: Divulgação FUNDAÇÃO PALMARES

Do feijão-fradinho ao azeite de dendê, tudo carrega significados ligados aos orixás. O ato de fritar e servir, portanto, não se resume à culinária: é oferenda, tradição e espiritualidade.

Foto: Fonseca001 wikimedia commons

E a roupa da baiana, não poderia ser diferente, é parte essencial do ofício. Saia rodada, pano da costa, turbante e fios de contas revelam a ligação com os orixás. Não há dúvidas: arrumar-se para vender acarajé é também vestir a ancestralidade.

Foto: Arismar Fonseca domínio público

Ser baiana do acarajé é trabalho concedido pelos orixás às mulheres. Essa exclusividade reforça o caráter sagrado da profissão, que une fé e sustento. A mulher negra torna-se guardiã de um patrimônio cultural.

Foto: Divulgação

As baianas seguiram vendendo acarajé e obtendo fonte de renda vital. Além disso, com o símbolo de preservação cultural, a tradição atravessou séculos e se manteve viva.

Foto: Matthijs Strietman wikimedia commons

Em 2005, a atividade das baianas de acarajé foi registrada como patrimônio cultural imaterial do Brasil no Livro dos Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan),

Foto: DiegoL569 wikimedia commons

O Governo da Bahia, inclusive, oferece cursos para aprimorar o ofício das baianas. Além de técnicas culinárias, há palestras sobre empreendedorismo e boas práticas. A tradição, portanto, se alia à modernidade.

Foto: REPRODUÇÃO FACEBOOK

Em Salvador, foi inaugurada no fim de 2025 a primeira efígie de uma baiana de acarajé, homenageando Cira do Acarajé, precursora de um dos tabuleiros mais famosos da cidade. O monumento foi erguido na praça Oxum Baeté, no bairro de Itapuã, onde fica uma das barracas que levam o nome da baiana. É memória viva em praça pública.  

Foto: Divulgação Fundação Gregório de Mattos

Segundo a Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau, Receptivos e Similares (ABAM), aliás, só em Salvador existem cerca de 3,5 mil baianas. No Brasil, aproximadamente 10 mil pessoas trabalham na atividade, sendo 90% mulheres. Esses números revelam a força da tradição.

Foto: André Koehne/Wikimédia Commons

Além disso, ao formalizar o negócio como Micro Empreendedor Individual (MEI), a baiana de acarajé garante acesso a benefícios como aposentadoria e salário-maternidade. Assim, o tabuleiro se torna também instrumento de cidadania e segurança social.

Foto: LiadePaula/MinC

Apesar das tentativas de apagamento, as baianas mantêm viva sua prática ancestral. O acarajé é resistência contra o esquecimento e afirmação da identidade afro-brasileira. Cada bolinho, portanto, conta quem é o Brasil.

Foto: José Oliveira flickr

Hoje, pessoas de diferentes religiões e gêneros vendem acarajé. Contudo, é importante lembrar que a origem é sagrada e feminina. A diversidade convive com a ancestralidade, mas não deve apagar sua raiz.

Foto: Imagem de Adriano Gadini por Pixabay

O acarajé e suas baianas tornaram-se ícones da Bahia e do Brasil. Mais que comida, são expressão de fé, cultura e luta. Assim, cada tabuleiro é altar, cada venda é história, e cada baiana é guardiã da memória.

Foto: :LiadePaula/MinC

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Foto: wikimedia commons Rodrigues Pozzebom