"Chip da beleza": mercado milionário cresce no Brasil apesar de alertas médicos e falta de comprovação científica
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Nos últimos anos, os chamado “chip da beleza” — ou "pellets" — ganharam espaço no Brasil com promessas de emagrecimento, aumento de disposição, crescimento muscular e melhora da libido. Apesar do nome popular, o produto não funciona como um chip eletrônico, mas sim como um implante hormonal inserido sob a pele. A popularidade do procedimento cresceu rapidamente, impulsionada principalmente pelas redes sociais e pela busca por resultados físicos rápidos. No entanto, especialistas e entidades médicas alertam que os benefícios estéticos divulgados não têm comprovação científica consistente.
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Na realidade, o produto consiste em um implante hormonal composto por substâncias como testosterona e gestrinona, elementos com propriedades anabolizantes que carecem de respaldo científico para fins exclusivamente estéticos. Sociedades médicas e órgãos reguladores alertam que o uso desses hormônios visa apenas a modificação da aparência física, sem benefícios comprovados para a saúde de indivíduos saudáveis.
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Ainda assim, o uso para fins puramente estéticos enfrenta forte questionamento na comunidade científica, especialmente pelos possíveis riscos à saúde e pela ausência de estudos robustos que validem segurança e eficácia em longo prazo. Apesar disso, o setor movimenta cifras milionárias no Brasil por meio de um esquema que envolve prescrições médicas, cursos de capacitação para profissionais e parcerias com farmácias de manipulação.
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A prescrição desses dispositivos é classificada por entidades médicas como uma forma de doping, trazendo riscos graves e potencialmente letais, como infarto e trombose. "Existem potenciais conflitos ao código de ética médica, uma vez que estamos vendo o médico induzindo o paciente a fazer o uso de uma prescrição da farmácia ao qual ele pertence", disse ao g1 Bruno Leandro de Souza, conselheiro do CFM.
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Para o Conselho Federal de Medicina (CFM), esse modelo pode abrir espaço para conflitos de interesse, já que alguns profissionais participam de diferentes etapas do processo comercial. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chegou a determinar a proibição da manipulação, comercialização e divulgação desses implantes hormonais, mas a medida perdeu força após pressão do setor.
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"A decisão representa uma importante vitória na nossa luta pela saúde pública. Os implantes têm sido utilizados de forma inadequada e com riscos comprovados para a saúde”, observou na época o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Paulo Miranda.
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Atualmente, embora o uso estético permaneça cercado de restrições, brechas na regulamentação permitem que substâncias autorizadas continuem manipuladas sem definição clara sobre os limites de aplicação prática. Na rotina do mercado, isso significa que os implantes seguem disponíveis em clínicas e consultórios de diferentes regiões do país.
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Nas redes sociais, a divulgação costuma focar principalmente no público feminino. Influenciadores digitais, profissionais da área estética e conteúdos sobre transformação corporal ajudam a fortalecer a ideia de que o “chip da beleza” representa um caminho rápido para alcançar padrões físicos valorizados.
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Especialistas consultados pelo g1 alertam que esse tipo de publicidade frequentemente explora inseguranças relacionadas ao corpo, autoestima e envelhecimento, transformando o implante em porta de entrada para um mercado mais amplo de procedimentos estéticos, suplementação e terapias hormonais.
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A Anvisa reforça esse alerta ao listar diversos riscos graves à saúde associados ao produto. Entre as complicações clínicas possíveis estão a hipertensão arterial, arritmias cardíacas, acidente vascular cerebral (AVC) e o aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos. Além disso, o uso pode causar efeitos colaterais visíveis e sistêmicos, como acne, queda de cabelo, crescimento excessivo de pelos em mulheres, alterações na voz, insônia e quadros de agitação.
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O caso de uma jovem internada em estado grave após colocar implantes hormonais ganhou grande repercussão nas redes sociais no fim de 2023. Ela desenvolveu edema cerebral cerca de 24 horas depois de receber implantes com substâncias como ciproterona, gestrinona, testosterona e ocitocina.
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A ocitocina, conhecida como “hormônio do amor”, possui efeito antidiurético e, em excesso, pode provocar retenção de água e queda nos níveis de sódio no sangue, levando a um quadro de intoxicação hídrica. O caso então chamou a atenção de entidades médicas, que alertaram a Anvisa sobre os riscos desses implantes.
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