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Clube de bilionários tem nas mãos o espaço de debate no ambiente digital

Riqueza gerada pela tecnologia tornou um pequeno grupo de ricaços em árbitros, financiadores e moderadores das informações que alimentam as conversas públicas

29 mai 2022 05h10
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Há uma nova característica no espaço digital dos EUA: a mudança tecnológica e as fortunas que ela criou deram a um pequeno grupo de indivíduos extremamente ricos a capacidade de atuar como árbitros, moderadores e financiadores não apenas das informações que alimentam as conversas da nação, mas também da estrutura que as reforçam.

Caso se conclua, o acordo de Elon Musk para comprar o Twitter permitirá que ele cumpra o desejo de relaxar as restrições ao conteúdo publicado na rede. Ele se juntará a Mark Zuckerberg, o número 15 na lista de bilionários da Forbes, que manda nos algoritmos e na moderação de Facebook, Instagram e WhatsApp.

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As informações que circulam por essas redes são cada vez mais produzidas por publicações controladas por bilionários e outras dinastias ricas. É uma situação que tem alarmado os especialistas.

"Estamos muito dependentes dos caprichos pessoais de pessoas ricas, e há pouquíssimos pesos e contrapesos sobre eles. Elas podem nos levar em uma direção progressista, conservadora ou libertária, e há muito pouco que possamos fazer em relação a isso," diz.

Alguns políticos veem comemorando a situação. O senador republicano Ted Cruz chamou a aquisição do Twitter de "o acontecimento mais importante para a liberdade de expressão em décadas". Enquanto isso, ativistas progressistas e até alguns funcionários do Twitter reagiram com medo de que mais desinformação e discurso de ódio possam circular em maior volume.

Musk não foi claro em relação ao que planeja fazer com o Twitter, embora tenha dados várias pistas, entre elas sua objeção à "censura privada que vai muito além da lei".

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Ativistas de esquerda têm uma visão diferente da moderação das praças digitais. "Mesmo se Musk fosse a pessoa mais inteligente do mundo, tivesse o melhor coração e tivesse sido tocado por Deus, eu não gostaria que ele tivesse todo esse poder", disse Robert McChesney, professor da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, contrário ao acúmulo de propriedade dos meios de comunicação.

Investimentos

Enquanto isso, outros bilionários vêm diversificando seus interesses para financiar partes mais amplas do processo democrático nos EUA, indo além de seu enorme papel como doadores de campanhas e para organizações políticas. Zuckerberg gastou US$ 419,5 milhões para financiar administradores eleitorais durante as eleições de 2020, provocando indignação entre os republicanos e aplausos entre os democratas. "Concordo com aqueles que dizem que o governo deveria ter oferecido esses recursos financeiros, não os cidadãos", disse Zuckerberg em comunicado na época.

Muitos de seus colegas bilionários vêm aumentando os investimentos em jornalismo e em especialistas, com o objetivo, em muitos casos, de moldar a compreensão dos eleitores a respeito de seus papéis no mundo. Laurene Powell Jobs, viúva de Steve Jobs, comprou uma participação majoritária da revista Atlantic em 2017. O CEO da Salesforce, Marc Benioff, comprou a revista Time em 2018.

Bill Gates, fundador da Microsoft, gastou dezenas de milhões de dólares por meio de sua fundação para financiar diretamente o jornalismo em veículos como a rede de rádio NPR, que cobre questões com as quais ele se preocupa, como saúde e meio ambiente. Outros financiaram iniciativas editoriais mais limitadas, entre eles o rico chinês exilado Guo Wengui, que trabalhou em projetos de comunicação com Stephen K. Bannon, ex-assessor do ex-presidente Donald Trump.

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Mas essas são apenas as mais recentes incursões dos ultrarricos como donos de veículos de comunicação tradicionais. Rupert Murdoch fez sua primeira aquisição nos EUA em 1976, quando comprou o New York Post antes de lançar a Fox News e depois adquiriu o Wall Street Journal, enquanto Bloomberg criou a Bloomberg LP em 1981.

Tanto Murdoch quanto Bloomberg investiram de forma pesada no jornalismo opinativo por meio da Fox News e da Bloomberg Opinion, respectivamente. Eles seguem a tradição surgida no século passado, quando famílias ricas e seus descendentes, como William Randolph Hearst e a família Sulzberger, dona do New York Times, passaram a dominar as maiores empresas de comunicação.

Moderação

O papel das redes sociais, que substituíram em grande parte os jornais como fonte de informações, complicou a questão, em parte porque um número muito reduzido delas é tão preponderante. Uma pesquisa de 2019 do Centro de Pesquisa Pew descobriu que 62% dos americanos sentiam que as empresas de mídias sociais têm "muito controle sobre as notícias".

Brendan Nyhan, cientista político e professor do Dartmouth College, que faz pesquisas a respeito da desinformação e seus efeitos na democracia, disse que as redes sociais permitem que Zuckerberg e Musk tenham a "maior influência sobre o fluxo de informações que já foi possível na história da humanidade".

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O que é mais preocupante, segundo Nyhan, é a falta de transparência em relação à forma como essas plataformas controlam as informações publicadas. Democratas e republicanos já manifestaram interesse em aumentar a fiscalização antitruste, assim como ter novas restrições legais que limitam a imunidade que as redes sociais usufruem ao moderar o debate. Como era de se esperar, há profundas divergências em relação a como deva ser essa moderação.

Na União Europeia, os legisladores têm avançado com leis que exigem que as redes reprimam o discurso ilegal na Europa, geralmente protegido pela constituição americana. As propostas também exigem transparência dos algoritmos.

"A melhor maneira de garantir isso é ter um novo alinhamento entre grandes empresas, oligarcas e povo americano", diz Kara Frederick, diretora de política de tecnologia da Fundação Heritage.

Ben Wizner, diretor da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), diz que o principal desafio apresentado pelo controle individual das redes sociais e do jornalismo é, em sua essência, a escala.

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"Estamos falando de um pequeno grupo de pessoas que exercem um controle extraordinário sobre os limites das nossas conversas", disse Wizner. "O importante para a mídia e para o jornalismo é que exista um ecossistema diversificado que represente os interesses de muitos."

No que diz respeito a Musk, ele parece estar gostando de seu enorme novo poder. Recentemente, ele tuitou um insulto a Bill Gates, por discordar da venda de ações da Tesla feita pelo fundador da Microsoft.

Quando a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez postou um tuíte criticando quando "algum bilionário com um problema de ego controla de forma unilateral uma enorme plataforma de comunicação e a distorce", Musk respondeu sugerindo que ela estava a fim dele. "Pare de dar em cima de mim, sou muito tímido", ele tuitou. Ela respondeu: "Estava falando do Zuckerberg". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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