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Mãe recupera bebê um ano após doação forçada por sua família

Há mais de duas semanas, um casal protesta do lado de fora de uma agência de adoção no Estado de Kerala, no sul da Índia, exigindo o retorno de sua criança.

30 nov 2021 20h00
| atualizado em 1/12/2021 às 07h24
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Ajith e Anupama conheceram-se enquanto trabalhavam para o Partido Comunista
Foto: Vivek Nair / BBC News Brasil

A luta de uma mãe indiana por seu bebê, durante mais de um ano, terminou em novembro, quando um tribunal decidiu pela entrega da custódia da criança para ela. Soutik Biswas e Ashraf Padanna escrevem sobre um escândalo que causou indignação e uma crise política.

Há mais de duas semanas, um casal protesta do lado de fora de uma agência de adoção no Estado de Kerala, no sul da Índia, exigindo o retorno de sua criança.

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Sob forte chuva e diante de câmeras de fotógrafos, eles acampam sob uma lona numa movimentada avenida da capital da região, Thiruvananthapuram (antiga Trivandrum). Quando a noite cai, eles se abrigam em uma minivan Suzuki, estacionada na mesma avenida.

A mulher segura um cartaz que diz: "Devolvam o meu bebê". Ela afirma que sua família entregou seu bebê para adoção sem seu consentimento, acusação que seu pai nega.

Tradição e castas

Em 19 de outubro do ano passado, num hospital local, Anupama S. Chandran deu à luz um menino, pesando cerca de 2 quilos.

A ativista de 22 anos de idade havia enfrentado um estigma social ao ter um filho fora do casamento com seu namorado, Ajith Kumar Baby, de 34 anos, que já era casado e trabalhava como relações públicas em um hospital.

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O relacionamento e a gravidez geraram uma grande controvérsia na família de Anupama. Ter um filho fora do casamento é um pecado grave na Índia. O que tornou o caso ainda mais polêmico foi o fato de que Anupama Chandran pertence a uma casta mais alta em comparação com Ajith, que é dalit (antigamente caracterizados como "intocáveis", por serem considerados o grupo de menor valor social na sociedade indiana). Casamentos entre pessoas de raças ou castas diferentes não são bem vistos na Índia.

Apesar disso, tanto Anupama como Ajith vêm do que muitos indianos consideram famílias de classe média e progressistas. Ambas as famílias eram fortes apoiadoras do Partido Comunista da Índia (marxista), no governo na região - Kerala é um Estado onde o comunismo parlamentar é tradicionalmente forte.

O pai de Anupama, gerente de banco, também era um líder partidário local, enquanto os avós da jovem foram sindicalistas e conselheiros municipais de destaque.

Formada em física, Anupama foi a primeira mulher a liderar o grupo de estudantes do Partido Comunista em sua faculdade. Ajith era um líder da juventude do partido.

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Anupama protestou com um cartaz dizendo 'Devolvam o meu bebê'
Foto: Vivek Nair / BBC News Brasil

Vivendo juntos

Os dois cresceram juntos na mesma vizinhança e se conheceram enquanto trabalhavam para o Partido Comunista. Três anos atrás, passaram a viver juntos. Ajith disse que estava separado de sua mulher na época - o casal não tem filhos. "Não foi amor à primeira vista, nada disso. Nós começamos como amigos. E acabamos decidindo viver juntos", disse Anupama.

No ano passado, Anumpama ficou grávida, e o casal decidiu ter o bebê. "Nós nunca tivemos dúvidas sobre ter o bebê. Nós estávamos prontos para ser pais", disse ela. Ela deu a notícia a seus pais, que ficaram chocados, um mês e meio antes do parto. Eles a convenceram a voltar para casa para se preparar para dar à luz e a proibiram de manter contato com Ajith.

Quando Anupama foi liberada do hospital, seus pais chegaram para levá-la e a criança para casa. Eles lhe disseram que ela ficaria na casa de um amigo e voltar para casa após o casamento de sua irmã, que estava marcado para ocorrer dentro de três meses. Eles disseram que não queriam convidados curiosos perguntando sobre um novo bebê na casa da família.

Ela alega que seu pai levou o bebê embora de carro ao deixar o hospital. "Ele me disse que estava levando meu filho para um lugar mais seguro, onde eu poderia vê-lo mais tarde", disse a mãe da criança. "Toda a minha alegria simplesmente desapareceu."

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Nos próximos poucos meses, eles a transportaram de uma casa para outra até levá-la para a casa de sua avó, cerca de 200 quilômetros fora da cidade.

S Jayachandran, pai de Anupama, é um líder regional do Partido Comunista indiano
Foto: BBC News Brasil

Quando ela retornou para o casamento de sua irmã, em fevereiro, ela ligou para Ajith e lhe disse que seu filho estava desaparecido. Anupama afirmou que seus pais haviam colocado o filho disponível para adoção.

Ela finalmente deixou a casa dos pais em março e passou a morar com Ajith e seus pais. Eles também começaram a procurar seu filho. Isso se provou um tormento.

Certidão de nascimento

No hospital, eles descobriram que a certidão de nascimento de seu filho continha o nome de um homem desconhecido - não o de Ajith - como o pai. A polícia inicialmente recusou-se a registrar a denúncia do casal sobre um bebê desaparecido. Em vez disso, eles estavam investigando uma denúncia do pai de Anupama sobre ela ter "desaparecido" da casa da família.

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Em agosto, a polícia surpreendeu o casal com uma notícia. Disseram que o pai de Anupama os havia informado que ela havia voluntariamente entregado seu filho para adoção.

O desesperado casal então registrou denúncias junto ao partido governista, do ministro chefe, a agência de adoção e o chefe de polícia do Estado. Eles também registraram uma queixa contra o ministro da Cultura do Estado, Saji Cheriyan, por supostamente ter difamado Anupama depois de ter dito a um canal de notícias que "seus pais fizeram o que qualquer pessoa faria".

No mês passado, Anupama e Ajith também foram a canais de notícia para contar sua experiência. Políticos e oficiais finalmente sentaram e prestaram atenção na história. Legisladores de oposição protestaram na Assembleia estadual, dizendo que isso era um exemplo de "crime de honra". "Foi um crime de honra executado coletivamente pela máquina do Estado", disse KK Rema, uma parlamentar de oposição.

Um tribunal indiano determinou a devolução do bebê para seus pais biológicos
Foto: Vivek Nair / BBC News Brasil

'Criança ilegal'

O pai de Anupama, S Jayachandran, defendeu suas ações. "Quando algo assim acontece em sua casa, como você lida com isso? Eu deixei o bebê no lugar onde Anupama queria que ele ficasse. Ela não tinha nenhuma condição financeira de proteger a criança. Nós também não temos como fazer isso", disse ele a uma rede de notícias.

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"Anupama diz que o pai do bebê é um homem que tem uma esposa. Como eu posso deixar minha filha e seu bebê com ele? Anupama não estava bem depois de ter dado à luz. Então eu entreguei a criança a uma agência de adoção para cuidar dela."

Jayachandran questionava como a família poderia ficar com uma "criança ilegal". Ele disse que entregou o bebê para a agência de adoção apenas após ter ouvido a orientação do Partido Comunista e de um advogado. Quando o âncora do canal de notícias lhe perguntou se ele tinha algo para dizer a sua filha, ele afirmou: "Eu não quero ouvir nada da boca dela".

Depois da comoção do caso, a polícia abriu inquérito contra seis pessoas, incluindo os pais de Anupama, sua irmã e seu cunhado. Eles são acusados de confinamento ilegal, sequestro e falsificação de documento. Todos negaram os crimes.

Um tribunal determinou a realização de exames de DNA num bebê que a agência havia entregado a um casal no Estado de Andhra Pradesh, em agosto deste ano. A criança foi retirada de seus pais adotivos e levada de volta para Trivandrum.

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DNA positivo

Na noite de uma terça-feira, Anupama e Ajith foram informados de que seus DNAs corresponderam ao do bebê. Eles finalmente o viram brevemente numa casa para crianças administrada por uma organização de caridade. Eles dizem que continuarão protestando até que as pessoas responsáveis por terem "traficado" seu filho sejam punidas.

O tribunal ouviu a evidência de DNA no dia seguinte e devolveu a criança a seus pais biológicos. Foi um ano muito difícil, eles disseram.

Anupama passou o tempo todo preocupada com sua criança, que agora tem mais de 1 ano de idade. "Não é o meu direito escolher com quem eu quero viver e ter um filho?"

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