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'O Alzheimer faz com que a família se desmanche': leia relato de fotógrafa que cuida da mãe doente

Rosangela cuida da mãe Therezinha diagnosticada com a doença há 13 anos. Ela relata o processo de adaptação a que a família teve de se submeter

19 mai 2022 15h10
| atualizado às 16h09
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Encontrar formas de sustentar a memória viva e funcional é o desafio criativo que move milhares de cientistas, médicos e familiares de pacientes com Alzheimer ao redor do mundo. A fotógrafa e laboratorista Rosangela Andrade conta por que decidiu colocar uma câmera nas mãos da sua mãe, Therezinha Motta Andrade, de 87 anos, diagnosticada com Alzheimer há 13 anos, e percorrer as ruas de São Paulo.

O Estadão abordou nesta semana novos métodos de detecção precoce da doença degenerativa que afeta as mais nobres funções cerebrais, como memória, comportamento, linguagem, raciocínio, entre outras. Leia o depoimento de Rosangela e veja o vídeo que retrata a experiência da família. Ele faz parte do projeto "Alzheimer é possível", concebido pela psicóloga Fernanda Gouveia-Paulino, professora da PUC-SP.

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"Comecei a notar que algo não estava bem com minha mãe quando ela tinha 74 anos e morava em um condomínio em Itatiba (SP). Toda vez que ia visitá-la observava que os móveis estavam em um lugar diferente. O marido tinha que arrastar os armários com frequência. Chegou ao ponto em que os móveis começaram a quebrar de tanto serem arrastados.

Ela também começou a esquecer de onde havia colocado as coisas e não se lembrava das compras que havia feito. Comprava a mesma peça de roupa mais de uma vez. Minha mãe começou a sofrer com essa situação.

Sempre fui uma filha muito presente na vida dela. Aos finais de semana, levava carne e deixava no freezer para que eles cozinhassem ao longo da semana. Um dia percebi que ela havia descongelado tudo de uma vez.

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Essas coisas começaram a provocar discussões insanas. Achava que bastava pontuar os problemas e ela iria entender. Ledo engano. Quando a levamos ao geriatra e ao neurologista, ela não conseguia responder testes que, para ela, pareciam fáceis. Foi ficando cada vez mais irritada com os esquecimentos, mas tinha momentos de lucidez.

Minha mãe havia perdido um filho cerca de 8 anos antes dos primeiros sinais do Alzheimer. Talvez esse estresse emocional e uma possível depressão não diagnosticada possam ter desencadeado a doença.

O Alzheimer faz com que a família se desmanche. Um pouco depois do diagnóstico, o marido resolveu abandoná-la. Minha mãe teve seis filhos (dois já falecidos). Dos quatro, só eu e minha irmã Rosemary cuidamos dela.

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Minha mãe começou a tomar todo tempo da minha vida. Meu casamento também acabou. Como sou fotógrafa, comecei a levar minha mãe ao laboratório. Assim eu podia trabalhar, sem descuidar dela.

Percebi que ela se interessava pelo meu trabalho. Gostava de ficar na sala escura, só com a luz vermelha, onde eu revelava as fotos. Dizia que descansava a vista. Resolvi dar uma câmera para ela quando saíamos para a rua. Com outra câmera, eu registrava os momentos em que ela fotografava.

A ideia foi criar um jogo da memória com as fotos reveladas. Não bastava encontrar a mesma imagem sobre a mesa cheia de cenas. Eu pedia para ela ir falando quem eram as pessoas. Foi uma tentativa de manter minha mãe mais tempo entre nós.

Alguns meses antes da pandemia, no final de 2019, as coisas começaram a degringolar e tivemos que colocá-la em um residencial. Ela começou a perder peso e só depois percebi que o lugar era péssimo. Os familiares precisam ter muito cuidado ao fazer a escolha. Ela foi transferida para um lugar bem melhor. Os medicamentos ajudam, mas de nada adiantam se não houver amor e atenção.

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Minha mãe está com 87 anos. Virei uma personagem para ela. Sou a pessoa que cuida. Às vezes, não sabe que sou a filha dela. Em outros dias, está agitada. Percebi que eu tenho que entrar na dela. Não vou mais sofrer com isso. Se ela diz que sou Nossa Senhora de Fátima, não nego.

Mesmo assim, ela me deu uma grande lição recentemente. Quando eu disse que tinha ido vê-la só para dizer que a amo muito, ela respondeu: "Problema seu". Fiquei pensando que esse é um ensinamento precioso. O sentimento que temos por alguém é problema nosso mesmo.

Ela adora música. Quando jovem cantava em programas de rádio. Não se esquece de algumas letras do Roberto Carlos. Acho que a música é a última memória que se vai".

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