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Vulcão em Tonga mexe com o amanhecer no Brasil

Erupção que provocou tsunami lançou partículas que pintam de rosa, lilás e laranja a madrugada em São Paulo, Rio e Minas; poeira vai dar outra volta no globo antes de colorir outros pontos no Sudeste e no Sul

28 jan 2022 19h58
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RIO - A erupção do vulcão submarino Hunga-Tonga-Hunga-Há'apai, no Pacífico Sul, tornou mais colorido - com tons incomuns de rosa, lilás e laranja - o amanhecer em parte do Brasil. O fenômeno, observado nos últimos três dias no céu em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, tem sido causado pelo reflexo da luz solar em partículas lançadas na atmosfera, no último dia 15, pela explosão sob o mar. Com força superior a 500 bombas de Hiroshima, segundo a Nasa (agência espacial dos EUA), a detonação ocorreu a mais de doze mil quilômetros do território brasileiro. Lançou uma coluna de fumaça de 40 quilômetros de altura.

O rolo gigante de poeira e detritos ultrapassou a atmosfera terrestre e chegou à estratosfera. Dez dias depois da explosão, a nuvem chegou ao Brasil, colorindo o nascer do sol.

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"Na estratosfera é muito fácil esse material ser transportado por longas distâncias", explicou Márcia Yamasoe, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. "Por imagens de satélite da Nasa vimos a pluma (nuvem de partículas) atravessando a África e o Atlântico e chegando a São Paulo às 4h00 do dia 26."

O estrondo foi ouvido até no Alasca, a nove mil quilômetros de distância. Provocou um tsunami, com reflexos no Peru, além de uma discreta alteração do nível do mar no Rio. A nuvem de rejeitos vulcânicos também alcançou o Rio de Janeiro e as cidades de Formiga e Governador Valadares, em Minas Gerais.

"Nós estranhamos porque não havia evidência de poluição mais acentuada que pudesse provocar aquela coloração", contou a meteorologista do Climatempo Josélia Pegorim. "Também não havia nenhuma situação meteorológica de inversão térmica que explicasse o fenômeno. Até que alguém da equipe se lembrou da erupção vulcânica e entramos em contato com os colegas da USP."

A meteorologista explicou que a erupção lançou diversos tipos de material à estratosfera, em uma grande nuvem de partículas. A grande maioria deles se depositou rapidamente. Mas os gases formados pelo dióxido de enxofre, que são altamente reativos, permanecem na forma de partículas de aerossol que interagem com a radiação solar.

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"O dióxido de enxofre se transforma em sulfato que, quando interage com a luz solar, nos oferece essa coloração especial", explicou Josélia. "Agora temos chuva e nebulosidade em São Paulo e em outras áreas, mas quando começarem a enfraquecer, vai dar para ver novamente."

A onda gigante provocada pela erupção submarina devastou a região de Tonga. Tee ainda grande impacto em outras ilhas da Oceania, como Samoa e Fiji. Devastou povoados e matou pelo menos três pessoas. A onda atravessou o oceano Pacífico, causando um derramamento de óleo na costa do Peru. Mas também mexeu com o Atlântico, na direção contrária, chegando ao Rio de Janeiro.

O tsunami elevou em oito centímetros o nível do mar na costa brasileira. A elevação foi registrada pela Estação Maregráfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos. A alteração, temporária, ocorreu dezessete horas depois do tsunami.

"Houve uma discrepância significativa entre a previsão astronômica de maré e a altura do nível da água registrada no local", explicou o engenheiro agrimensor Everton Gomes dos Santos, do IBGE.

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Márcia Yamsoe e Josélia Pegolim explicam que não são esperados no Brasil outros impactos decorrentes da erupção e do tsunami. Alguns temeram chuvas ácidas, mas as especialistas descartaram essa possibilidade. As partículas estão na estratosfera, muito acima das nuvens de chuva. Alterações climáticas tampouco estão previstas. "Por aqui ficamos apenas com os efeitos especiais da poluição, ao amanhecer e também ao entardecer, se não houver nebulosidade", disse Josélia.

A nuvem de partículas, entretanto, deve dar ainda mais uma volta no globo terrestre, retornando à América do Sul. De próxima vez, com as partículas mais dispersas longitudinalmente, os efeitos especiais poderão ser vistos de outros estados do Sudeste e do Sul, colorindo novos alvoreceres.

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