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Bolsonaro usa vídeos antigos da internet e fake news como 'prova' de fraude na urna

O presidente afirma desde 9 de março de 2020 que teria provas sobre fraudes no sistema eleitoral, mas apenas usou live para atacar TSE e resgatar vídeos falsos e fora de contexto

29 jul 2021 20h30
| atualizado às 22h58
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BRASÍLIA - As provas de fraude nas urnas eletrônicas que o presidente Jair Bolsonaro prometeu apresentar, nesta quinta-feira, 29, foram uma mistura de fake news, vídeos descontextualizados que circulam há anos na internet e análises enviesadas sobre números oficiais da apuração dos votos.

Ao longo da transmissão ao vivo pelas redes sociais, porém, Bolsonaro admitiu não ter provas, mas, sim, "indícios" de irregularidades no sistema, embora desde março do ano passado venha prometendo exibir comprovação das fraudes.

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"Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São indícios. Um crime se desvenda com vários indícios", afirmou. "E digo mais: não temos prova, (quero) deixar bem claro, mas indícios de que nas eleições para senadores, deputados, pode ocorrer a mesma coisa. Por que não?"

Na live, Bolsonaro e o coronel da reserva Eduardo Gomes, assessor da Casa Civil, levado por ele ao Palácio da Alvorada para exibir vídeos e recortes, não apresentaram, no entanto, nem mesmo indícios de que os resultados das eleições de 2014 ou 2018 foram fraudados.

O presidente Jair Bolsonaro na live desta quinta-feira, 29.
Foto: Twitter/Reprodução / Estadão

Bolsonaro dedicou os primeiros 40 minutos da live para atacar adversários petistas e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luis Roberto Barroso, com teorias conspiratórias. "É justo quem tirou Lula da cadeia, quem o tornou elegível, ser o mesmo que vai contar o voto numa sala secreta, numa sala escura no TSE?", perguntou ele, numa referência ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

A primeira "denúncia" foi um vídeo amplamente desmentido por agências de checagem, como Projeto Comprova e Estadão Verifica, que circula na internet desde 2018. Na gravação, um homem se apresenta como desenvolvedor de sistemas e mostra um "simulador simplificado da urna eletrônica". O programa que ele mostra no computador não guarda qualquer relação com o sistema usado pelo TSE desde 1996 e aperfeiçoado periodicamente.

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A transmissão também usa vídeos aleatórios de apoiadores, em 2018, dizendo que as urnas não aceitavam o número 17, que identificava Jair Bolsonaro. Na live, o presidente não apresentou locais em que os casos teriam ocorrido, tampouco se os casos foram devidamente apurados. O Estadão Verifica apurou que o vídeo no qual um homem alega ser "fácil fraudar" as urnas eletrônicas por meio de alterações no código-fonte é falso.

Outra estratégia do presidente foi lançar dúvidas sobre o ritmo da apuração dos votos de 2018 nas diferentes regiões do País. Segundo essa teoria, o ritmo dos votos que ele recebeu não poderia sofrer alterações a partir do momento em que 53% das urnas estavam apuradas. A alegação não faz sentido. A contabilização dos votos não é distribuída de maneira uniforme durante a apuração. Na live, Bolsonaro também apresentou vídeos editados de analistas comentando a apuração.

O "analista" escalado por Bolsonaro também fez menção expressa a uma denúncia protocolada no TSE ainda em outubro de 2018 segundo a qual números apresentados no mesmo horário pelo TSE e pela GloboNews seriam diferentes. A Justiça Eleitoral já reiterou várias vezes que as divergências se deram apenas por causa da velocidade da distribuição dos resultados para as emissoras de TV.

Ao mesmo tempo em que Bolsonaro apresentava suas denúncias, o TSE encaminhava a jornalistas diversas checagens rebatendo pontos do discurso sobre fraudes na urna eletrônica. Problemas nas teclas da urna e a suposta exclusividade do Brasil no uso do sistema eletrônico foram alguns dos pontos do discurso do presidente desmentidos pelo tribunal.

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No começo da transmissão, Bolsonaro disse ter relatos de pessoas que tentaram votar em seu número de candidato, na eleição presidencial de 2018, e foram "impedidas" pela urna, ao passo que as que escolheram Fernando Haddad (PT), não enfrentaram problemas. O TSE esclareceu que, neste caso, os eleitores estavam tentando votar em um candidato a governador, e não a presidente, o que inviabilizaria o número 17 na urna.

Em outro momento, o presidente disse que só três países no mundo usam a urna eletrônica sem voto impresso: Butão, Bangladesh e Brasil. Sobre esse ponto o TSE afirmou que 23 países usam urnas com tecnologia eletrônica em suas eleições gerais. Outras 18 utilizam a urna em pleitos regionais. "Entre os países estão o Canadá, a Índia e a França, além dos Estados Unidos, que têm urnas eletrônicas em alguns Estados", diz um trecho da checagem do TSE.

Bolsonaro defendeu várias vezes o voto impresso, que chamou de "democrático". A proposta de emenda Constitucional (PEC) que estabelece essa modalidade tramita numa comissão especial da Câmara e o governo tende a perder a votação. O presidente atribui a possível derrota a Barroso, que se reuniu com dirigentes partidários. O presidente disse várias vezes que a apuração dos votos será feita "pelos mesmos que tornaram Lula elegível e que o tiraram da cadeia". A apuração dos votos, porém, é feita de forma pública.

Militares ?

Sem provas, Bolsonaro usou sua live para defender que os militares possam se manifestar sobre o sistema de votação. Na semana passada, o Estadão revelou a ameaça feita pelo ministro da Defesa, Braga Netto, de que não haveria eleições em 2022 se o voto impresso não fosse aprovado pelo Congresso. Apesar de a ameaça ter provocado grande mal-estar político, Bolsonaro insistiu na defesa da posição dos militares.

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"Alguns desses criticaram militares do meu lado, dizendo que isso não é uma questão para nós tratarmos. Que é uma questão política. Não. Todos são obrigados a votar no Brasil, de maiores de 18 anos até os 70. Então, interessa a todos nós. Essas eleições têm a ver com a nossa soberania nacional, nosso relacionamento com o mundo todo", afirmou.

Nos últimos dias, Bolsonaro acirrou seu movimento a favor do voto impresso. A proposta que tenta estabelecer a mudança na apuração sofreu um revés político na Comissão Especial que discute o tema. Contrários à proposta, dirigentes de 11 partidos se mobilizaram para derrubar a votação, que só não foi feita antes do recesso parlamentar por causa de uma manobra política do presidente da Comissão, deputado Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), que adiou a discussão. Com a medida quase sepultada no Congresso, Bolsonaro e o ministro da Defesa fizeram a ameaça de não haver eleições, caso o voto impresso seja derrotado.

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