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Amazônia, soberania, mudanças climáticas: O que esperar do discurso do Brasil na ONU?

País abre os discursos no dia 24 de setembro, na estreia do presidente Jair Bolsonaro na tribuna das Nações Unidas

23 set 2019 12h11 - atualizado às 12h29
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NOVA YORK - O presidente Jair Bolsonaro faz, nesta terça-feira, 24, sua estreia na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, sob o olhar e a expectativa de chefes de Estado e representantes dos 193 países-membros da Organização. À sua frente, o presidente brasileiro terá uma plateia interessada em entender quais ações o governo adotará para reduzir o número de incêndios e o desmatamento, e como o Brasil contribuirá para combater as ameaças causadas pelas mudanças climáticas, um dos grandes temas da 74ª Assembleia Geral.

Além da reunião de líderes, está prevista uma cúpula sobre mudanças climáticas. O objetivo é encorajar líderes mundiais a elaborarem políticas públicas capazes de mitigar os efeitos negativos das mudanças do clima. A ONU também será palco de eventos e reuniões diárias com foco nos objetivos de desenvolvimento sustentável — criados em 2015 — e que devem balizar a ação dos países signatários da Organização até 2030. Combate à pobreza, promoção da educação de qualidade, garantia de água e saneamento, erradicação da fome e redução das desigualdades são alguns dos 17 objetivos.

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O Estado ouviu analistas, diplomatas e ex-ministros para responderem: que mensagem o Brasil, responsável pelo primeiro discurso, deve passar na ONU?

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes, o Brasil deve reforçar a imagem de ser um país que defende o meio ambiente, que tem uma matriz energética limpa e uma agricultura competitiva e sustentável. "Eu iria na linha de contrapor toda essa imagem que vem se cristalizando sobre o nosso comportamento em matéria ambiental", disse.

"O discurso deve reafirmar o que constitui a identidade internacional do Brasil. Dar ênfase a temas em que temos destaque, como direitos humanos, paz, desarmamento, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. São nossas credenciais".

O diplomata Marcos Azambuja, um dos responsáveis por organizar a Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, a Eco-92, também enfatiza a liderança do Brasil na área ambiental. "A proteção do meio ambiente é um casamento virtuoso entre preocupações globais e interesses nacionais", afirmou. "O Brasil abre o debate, isso é algo bom e desejável, mas só existe porque nossa voz era ouvida como a expressão de opiniões compartilhadas amplamente, e não isolada. Então, isso é uma coisa a se preservar", afirmou ele, que ainda chefiou as embaixadas do Brasil na França e na Argentina.

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?Veja abaixo outras avaliações

Luís Alfonso de Alba, enviado especial da ONU para mudanças climáticas na 74ª Assembleia Geral

O Brasil é uma nação muito importante globalmente, obviamente a maior economia na América Latina. Estamos muito engajados com as autoridades locais. E creio que é muito necessário continuar a reconhecer a contribuição muito ativa que a sociedade civil, as autoridades e o setor privado brasileiros têm tido. Visitei o Brasil este ano e fiquei particularmente impressionado com o interesse do setor privado (em ações para reduzir o impacto das mudanças climáticas).

Muitas coisas precisam ser feitas para diminuir o impacto e os efeitos negativos mudanças climáticas. No caso específico do Brasil e da Amazônia em particular, estamos encorajando os países da região para ver qual pode ser a contribuição do sistema das Nações Unidas, mas destacando a importância de uma ação coordenada dos países afetados (a Floresta Amazônica está em nove países — Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa).

Roberto Abdenur, diplomata e ex-embaixador do Brasil no Equador, Alemanha, Áustria, China e Estados Unidos

O Brasil enfrentará situação delicada no contexto da Assembleia-Geral. O próprio secretário-geral afirmou a importância da abordagem da crise da Amazônia durante a reunião. Haverá por parte de diversos países numerosas e enfáticas expressões de interesse e preocupação com o assunto. É provável que se recomende a criação de algum esquema ou mecanismo para o acompanhamento de riscos para a sobrevivência da floresta. Talvez surjam ofertas de apoio político, material ou financeiro para medidas que nosso governo tome em defesa da Amazônia.

O governo brasileiro deve ser muito firme na reafirmação de sua soberania, mas não convém colocar-se em postura de confrontação com boa parte da comunidade internacional. Precisamos ter jogo de cintura, e mostrar habilidade, serenidade e moderação em face dos desafios.

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André Guimarães, engenheiro agrônomo e um dos representantes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura

Há 40 anos, o Brasil era importador de alimentos e hoje é um dos maiores exportadores. O Brasil alimenta mais de 1,2 bilhão de pessoas todos os dias. A responsabilidade e o papel do Brasil enquanto provedor de alimentos é inexorável e só deve crescer nos próximos anos. Entretanto, esse papel de player importante no suprimento de alimentos vai depender de nossa capacidade de equacionar a relação entre a produção agropecuária e a conservação ambiental. Caso contrário, não continuaremos abrindo novos mercados. Temos que mostrar ao mundo nossa competência em produzir alimentos de forma sustentável. O Brasil deve aproveitar essas inserções nas agendas internacionais e nos fóruns mundiais para reafirmar o compromisso com a sustentabilidade na produção de alimentos.

Ana Flávia Barros-Platiau, coordenadora da pós-graduação em relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB)

O Brasil está com a imagem negativa porque não soube responder às provocações e acusações que recebeu. Precisa se reposicionar como país responsável e aberto a negociações construtivas. Em outros termos, trocas de farpas demonstram apenas que as autoridades não estão preparadas para enfrentar situações adversas e delas tirar proveito. Alinhamento caudatário não é estratégia. Não fortalecerá a soberania nacional. Os países precisam saber navegar em oceanos de incertezas, instabilidade e imprevistos que tornam as agendas atuais de negociação mais complexas. Então, os temas a serem tratados são relativos a desafios globais: clima, paz sustentável, segurança coletiva e inclusiva, segurança alimentar.

O País deve reconhecer o seu papel no mundo, de protagonista da segurança climática e alimentar em escala global. E, a partir daí, promover agendas multilaterais construtivas e construir uma agenda robusta. O Brasil também deve passar a mensagem de que não está desconectado do resto do planeta. Em tempos de agendas extremamente complexas, pensar nas formas de conexão entre diferentes temas e parceiros estratégicos é vital. Há muito trabalho pela frente em nome da "governança da sustentabilidade" para as futuras gerações. Trocar farpas e se furtar de negociações necessárias não interessam a ninguém.

Fernando Schüler, cientista político e pesquisador do Insper

O Brasil tem dois grandes desafios: primeiro, afirmar o seu compromisso com a questão ambiental, desfazendo esse problema dos desmatamentos, dos incêndios, que trouxe um grande desgaste ao País. É um tema global e vai ser centro de preocupações na Assembleia-Geral da ONU. Em segundo, reafirmar sua posição de compromisso com a questão de direitos humanos, mas também com o tema da abertura comercial, da retomada do desenvolvimento, da abertura para o exterior, mostrar algumas conquistas que o País vem obtendo, como o acordo Mercosul-União Europeia.

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(É preciso destacar) A compatibilização da agenda social de direitos, da agenda ambiental, com a agenda econômica. Por último, reafirmar uma visão global do Brasil como um país comprometido com a democracia global, com o multilateralismo, com questões de direitos humanos, com a paz, e firmar uma posição histórica que sempre teve no sentido de ser comprometido com uma visão multilateral, de promoção de democracia e direitos humanos a nível global.

*O repórter viajou a convite da Organização das Nações Unidas

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