Em 'Early Life Crisis', Nettspend abre caminho rumo ao futuro

Com seu projeto mais recente, o jovem destaque do rap empurra a estética caótica do rap subterrâneo da internet para o centro da cultura do hip hop

12 mar 2026 - 08h48

Talvez, no futuro, a gente veja um documentário sobre o desfile Gucci outono/inverno 2026 em Milão, a primeira coleção de Demna na marca, e um evento sísmico no mundo do rap subterrâneo. Ou, pelo menos, desse tipo de cena. Desfilaram no show Fakemink e Nettspend, dois pilares do que executivos de gravadoras e gurus de marketing apostam que fala com o espírito do tempo da Geração Z.

Foto: Barry Brecheisen/Getty Images / Rolling Stone Brasil

Nettspend ocupa um canto do rap que vem ganhando rapidamente mais influência sobre o formato e a textura do gênero — uma verdadeira subcultura jovem. O projeto de 2024 de Nett, *Bad Ass F\cking Kid (2024), já tinha sido um momento marcante para o artista de 18 anos, que assinou com a Interscope Records em 2024. A assinatura veio na esteira de uma sequência de hits virais, em especial "That One Song" e "*F\ck Swag", de 2024, que estabeleceram Nett como uma voz formidável dentro da sua geração. Essas faixas exibiam sua tendência a pirotecnias vocais que explodem em plumas de emoção crua.

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Em Early Life Crisis (2026), lançado na sexta-feira, há menos daquela sensibilidade tradicional em torno de melodias e estrutura, e mais inclinação ao estilo maximalista do "rage", que passou a dominar o rap subterrâneo centrado no ambiente digital. Os resultados são mistos. Em faixas como "who tf is u", Nett consegue extrair uma cadência envolvente do caos sonoro. 808s raivosos dão à sua voz um colchão onde pousar, refratando suas arestas mais afiadas até ganharem forma. Em outros momentos, como em "Pain Talk", com participação do astro do rap subterrâneo que também tem alcançado o grande público OsamaSon, as coisas se perdem no turbilhão.

A essa altura, o som padrão do rage rap — baterias no limite, usadas sem parcimônia, arranjos de acordes frenéticos, quase espasmódicos, e letras frequentemente gritadas, em mantras, entregues num berro apaixonado — virou uma abreviação previsível de acenos a um público mais jovem. No caso de Nettspend, o som acaba pesando sobre tudo o que faz bem. Suas cadências leves como pena se afogam no redemoinho da produção.

YoungBoy entra em "masked up" e entrega o verso de rap mais envolvente e direto do álbum, conseguindo aplicar seu flow sulista ao espírito do tempo do rap subterrâneo e deslizando sobre o tempo raivoso da batida. Ao lado de YoungBoy, em particular, a fragilidade de Nettspend como rapper fica difícil de ignorar: ainda é meio distante como narrador e também não evolui muito como letrista ao longo deste projeto. Ainda assim, há momentos suficientes de engenhosidade — o docemente sinistro "<3 me", que soa como um Carti vintage apaixonado, ou "paris hilton" e "sick", que acertam em cheio o som do rage rap, infundindo uma sensação de melodia no ruído — para fazer o álbum funcionar no geral.

"Shades on" sampleia o single de 2013 "23", de Mike Will Made-It e Miley Cyrus, e também parece um possível cruzamento com o grande público. A familiaridade brilhante da batida combina bem com os vocais de Nett e dá um vislumbre de como o mundo do rap pode metabolizar os novos sons que borbulham do rap subterrâneo. A música de Nettspend brilha nos seus cantos mais experimentais, onde o caos, por um instante, se resolve em algo mais intencional. Se a passarela da Gucci insinuou para onde a cultura jovem está indo, Early Life Crisis (2026) soa como um rascunho inicial volátil, mas impossível de ignorar.

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Rolling Stone Brasil
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