Do símbolo da paz ao pose padrão: a história do gesto de V nas fotos da cultura pop asiática contemporânea

Sinal de paz na Ásia: entenda como o gesto V de vitória virou marca kawaii, código visual e etiqueta digital em fotos

24 mai 2026 - 13h03

Em grande parte da Ásia, o gesto de "V de vitória" aparece em quase toda foto informal. Crianças, adolescentes e adultos repetem o sinal com naturalidade, como se fizesse parte da própria postura diante da câmera. O que parece um simples hábito visual, porém, resulta de um longo processo histórico que envolve Olimpíadas, propaganda, cultura pop e tecnologia digital.

Esse caminho começa bem longe do turismo em Tóquio ou Seul. Em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Sapporo, no Japão, a patinadora norte-americana Janet Lynn chamou atenção do público local. Ela sorria mesmo após erros e, com frequência, aparecia em fotos e transmissões fazendo o gesto de paz. A imprensa japonesa destacou essa postura descontraída. Assim, a imagem da atleta acabou associada a um ideal de simpatia e leveza juvenil.

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V de vitória – depositphotos.com / AllaSerebrina
V de vitória – depositphotos.com / AllaSerebrina
Foto: Giro 10

Como o "V de vitória" entrou na cultura visual japonesa?

Depois das Olimpíadas, revistas e programas de TV japoneses começaram a repetir o gesto de Janet Lynn. Aos poucos, fotógrafos de revistas femininas passaram a sugerir o "V" para modelos iniciantes. Dessa forma, o gesto ajudava a quebrar a rigidez da pose tradicional. Ao levantar os dedos, a pessoa ocupava melhor o enquadramento. Além disso, criava um ponto de foco claro perto do rosto, o que facilitava a composição da imagem em cliques rápidos.

Na mesma década, campanhas de câmeras fotográficas intensificaram esse processo. Marcas de eletrônicos associaram o "V" à experiência de fotografar amigos e família. Em comerciais, grupos de jovens sorriam, levantavam as mãos e faziam o gesto diante da lente. Com isso, o símbolo deixou o campo político, ligado à paz pós-guerra, e migrou para o universo do entretenimento cotidiano. O "V de vitória" virou um atalho visual para registrar momentos leves, festivos e, sobretudo, fotogênicos.

Por que o gesto se tornou sinônimo de "kawaii" e conforto visual?

Com o avanço da cultura juvenil japonesa, especialmente a partir dos anos 1980, o "V" ganhou um novo significado. Ídolos do J-pop, atrizes de séries televisivas e personagens de mangá reforçaram a associação entre o gesto e o universo kawaii, ligado ao "fofo" e ao "infantilizado". Quando alguém faz o "V" perto do rosto, o gesto suaviza as feições. Além disso, reduz a tensão da pose e cria um clima de brincadeira controlada.

Antropólogos e estudiosos da mídia apontam alguns efeitos práticos desse padrão. Em primeiro lugar, o gesto funciona como um "acessório de expressão". Mesmo quem se sente tímido diante da câmera encontra algo para fazer com as mãos. Em segundo lugar, o "V" equilibra o enquadramento e preenche áreas vazias da foto. Por fim, ele sinaliza uma espécie de etiqueta visual: quem faz o símbolo indica que entende o código social da situação e participa de um clima de grupo.

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  • Suavização facial: o gesto quebra a seriedade e afasta expressões tensas.
  • Equilíbrio composicional: os dedos criam linhas diagonais que conduzem o olhar.
  • Marcação geracional: o hábito identifica grupos jovens ou sintonizados com a cultura pop.

Como o "peace sign" se espalhou pela Coreia do Sul e pela China?

O Japão não permaneceu isolado nesse processo. A forte circulação de dramas japoneses, mangás e programas musicais influenciou outras regiões da Ásia Oriental. Na Coreia do Sul, o gesto ganhou destaque com a consolidação da indústria do entretenimento local nos anos 1990 e 2000. Idols do K-pop e atores de doramas passaram a reproduzir o "V" em entrevistas, sessões de autógrafos e fotos oficiais.

Esse movimento coincidiu com a popularização das primeiras câmeras digitais compactas e, mais tarde, dos celulares com câmera frontal. Assim, cada registro visual reforçava o costume. Fãs imitavam as poses de seus artistas favoritos. Em pouco tempo, o "V" se tornou parte do repertório básico de selfies e fotos em grupo. Na China urbana, o fenômeno seguiu caminho semelhante, impulsionado por publicidade, programas de variedades e redes sociais locais.

  1. Ídolos da música e da TV mostram o gesto em alta exposição midiática.
  2. Fãs copiam a pose em encontros presenciais e registros fotográficos.
  3. As imagens circulam em redes digitais e aplicativos de mensagens.
  4. O gesto vira expectativa social em eventos e passeios fotográficos.

De símbolo de paz a etiqueta digital global?

Com a expansão dos smartphones e das plataformas de imagem, o "V de vitória" ultrapassou fronteiras regionais. Aplicativos de filtros, como os usados em selfies, incorporaram adesivos e efeitos ligados à estética kawaii. Em muitos casos, a interface mostra avatares com o gesto. Assim, usuários de diferentes países entram em contato com esse código visual sem mediação explícita.

Além disso, o gesto ganhou nova função nas práticas digitais. Em fotos e vídeos curtos, o "V" sinaliza prontidão para a câmera. Funciona como um aviso visual: a pessoa se encontra consciente do registro, mas mantém um ar descontraído. Em encontros presenciais que terminam em fotos de grupo, muitos levantam o sinal quase de forma automática. Esse comportamento indica a força da repetição midiática na formação de hábitos corporais cotidianos.

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Hoje, o "V de vitória" integra um repertório global de poses, ao lado de sorrisos padronizados e enquadramentos típicos de selfie. No entanto, sua trajetória pela cultura visual asiática mostra algo específico. O gesto se transformou em marcador geracional, em recurso de conforto estético e em código de etiqueta digital. Dois dedos erguidos diante da lente revelam, ao mesmo tempo, história da mídia, circulação de imagens e modos contemporâneos de ocupar o espaço fotográfico.

v de vitória – depositphotos.com / jamesstar
Foto: Giro 10
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