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Circo nas periferias de BH tem missão de resgatar e incluir

Projetos de circo social formam profissionais através da magia da solidariedade comunitária

23 jun 2022 - 15h07
(atualizado às 15h09)
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Circurumim em ação no malabares
Circurumim em ação no malabares
Foto: Arquivo Pessoal

O circo é uma manifestação popular que tem o objetivo de divertir e surpreender o público. Artistas como malabaristas, contorcionistas, palhaços, mágicos, entre outros, percorrem as cidades e se apresentam de forma periódica em cada local. A origem etimológica vem do latim, circus, que significa círculo ou anel. O termo remete às arenas romanas, lugares onde se praticavam esportes e lutas. Mas além de ser uma arte cênica, o circo tem exercido um papel fundamental nas periferias e favelas do país.

Na vida de Moisés Macedo, 40, morador de Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, o circo representou muito mais que entretenimento. Ele conta que iniciou as atividades circenses muito cedo, participou de programas e projetos, mas que o padrasto era autoritário e machista, e achava que gostar de arte era um problema. Aos 14 anos foi expulso de casa e acolhido por amigos mais velhos. “Como era ele quem pagava o aluguel eu tive que sair. Hoje sei que não foi uma decisão fácil para minha mãe, então encaro isso como uma oportunidade”, relembrou.

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Gambiarra divide o horário para atender crianças e adultos no mesmo espaço
Foto: Arquivo Pessoal

Moisés, mais conhecido pelo nome artístico, Palhaço Gambiarra, se tornou professor de Educação Física da rede pública e decidiu repassar tudo que aprendeu para a comunidade onde cresceu: o resultado foi muito bom. Hoje temos vários artistas trabalhando e dando aula de circo.

A paixão pela arte levou o palhaço a fundar a escola de circo do Ribeirão no bairro Tony, há mais de 20 anos, porém, perdeu o espaço ano passado. “Quando parei de pagar as contas e passei a responsabilidade para a associação, começaram a cortar a luz, a água e o local ficou insalubre”, explicou.

Apesar de ter investido na estrutura do local e não ter recebido o retorno, ele não desanimou. Continua com o projeto em uma associação no bairro Mantiqueira, periferia da capital, e complementando as atividades em outros espaços que têm condições para a realização dos aéreos.

Gambiarra faz questão de incluir nas aulas tudo que existe num circo tradicional, mesmo com a falta de verba. Atende em torno de 30 alunos entre seis a 38 anos. As aulas são gratuitas, voltadas para pessoas da periferia e ele ainda oferece o lanche por conta própria.

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Ryann cresceu determinado e se dedicando às artes circenses
Foto: Arquivo Pessoal

O professor tem uma filha  de 18 anos, que também está seguindo a tradição circense, que é vivenciar a arte transmitida pelas gerações anteriores. Ele acolhe os jovens com o mesmo carinho em que foi acolhido em sua infância. Ressalta que existe uma grande procura dos públicos LGBTQIA+ pelo circo. Um deles, é o aluno Ryan Luciano, 19, que ele considera como filho. É gay não binário, artista desde os 13 anos e participa de quase todas as atividades. Ryan fala que sempre teve uma conexão com o circo e que ele estava traçado em seu destino: foi ele que me escolheu, ele já sabia que ele era pra mim. O jovem também é cabeleireiro, maquiador, bailarino, trancista, designer de sobrancelha e estudante do Senai. “Conciliar tanta coisa exige força, resistência e equilíbrio. E isso eu já aprendi no circo”, brinca.

Ryan fundou o Circurumim, projeto social parceiro do Movimento Ocupa Curumim que atende crianças, adolescentes e jovens comunitários do entorno de Neves. Os professores são voluntários e o projeto não tem nenhum patrocínio. O cocriador, Rodrigo Santos, 24, reforça que os materiais das oficinas, uniformes, lanches e equipamentos são fornecidos pelos próprios professores e o projeto sobrevive com a ajuda da sociedade civil, artistas e produtores culturais da comunidade.

Rodrigo praticando o tecido acrobático
Foto: Arquivo Pessoal

“O objetivo principal do Circurumim é utilizar das metodologias e pedagogias do circo como mecanismos de resgate social da criança, adolescente e jovem que vive em situação de vulnerabilidade social. E chamar atenção das autoridades públicas para os direitos ao acesso às fontes de cultura garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente”, destacou. Além das aulas, o Circurumim participa de ações de impacto social, feiras, campanhas de doações de roupas, brinquedos e cestas básicas.

Mesmo com os obstáculos, os projetos circences dessas comunidades têm formado artistas que já integram o mercado artístico em todo o país. O palhaço Gambiarra cita diversos alunos que atuam dando aulas e fazendo apresentações em outros Estados. Associa a persistência da classe ao seu nome de palhaço: Gambiarra porque conheci um senhor com esse apelido que trabalhava em muitos projetos sociais e também porque eu gostava de fazer uma coisa e outra, meio que uma gambiarra, uns remendos para fazer a coisa funcionar.

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Para todos os entrevistados, o que o circo representa em comum é a mágica de mudar a forma de enxergarem o mundo e atuar como elemento transformador.

Alegria e criatividade preenchem o Ribeirão
Foto: Arquivo Pessoal
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