Artigo Ucho Haddad
Sexta, 12 de setembro de 2008, 19h39
A bola na rede e o fundo do cofre (*) Ucho Haddad Não é de hoje que futebol virou negócio. E, diga-se de passagem, negócio dos bons e para muito poucos. E é nesse exato ponto que centro as minhas dúvidas sobre a lisura de um esporte que move multidões. Muitas foram as vezes que a polícia entrou em cena para prender os espertos que, de maneira criminosa, produzem resultados que interessa apenas a uma ínfima minoria.
Entre 1981 e 1982, quando desembarquei na Europa para atuar como jornalista, fui surpreendido no meio do caminho por uma manchete de capa de uma então badalada publicação esportiva. “Máfia da Loteria” era o tema de capa. Segundo consegui apurar na época, o assunto estava adormecido havia alguns bons meses na gaveta de dois ou três jornalistas. E esse ressuscitar de informações só ocorreu porque a publicação sofria financeiramente com a baixa venda de exemplares nas bancas de jornal. De lá para cá, o tema só cresceu. Quem pensa que o futebol é uma reunião de monges tibetanos, que tire imediatamente o cavalo da chuva. Como afirmei no primeiro parágrafo, futebol é negócio, e por conta disso asperge lama em todas as direções. E a maior prova disso é que até hoje, e não há razão para isso, a contabilidade da CBF é inacessível. Apenas os dirigentes da entidade é quem têm acesso aos misteriosos números do futebol nacional. E quem tanto se protege é porque tem algo esconder. Deixando de lado a porção quadrilheira do futebol, a minha dúvida reside nas estatísticas dos campeonatos e no futuro imediato dos clubes. No Brasileirão, por exemplo, alguns clubes lutam loucamente para chegar ao que se instituiu chamar de grupo de elite. E esse desespero tem uma justificativa. Estar nesse grupo garante acesso a competições internacionais, como a Libertadores da América e a Copa Sul-Americana. Sem participar de um ou outro certame, muitos clubes serão obrigados a cortes de despesas e demissões. É isso que têm afirmado alguns cartolas, preocupados com o que irá acontecer no primeiro dia após o fim do Brasileirão. Com tamanha incerteza na mão, muitos clubes podem perder consideravelmente o brilho. É o caso do outrora viçoso Santos Futebol Clube, que se esforça para não ser rebaixado, a exemplo do que ocorreu com o Corinthians em 2007. É preciso concordar que clubes com popularidade semelhante à do Corinthians devem ser encarados de maneira distinta em termos mercadológicos, mas tudo é possível no contínuo jogo de interesses que marca o capitalismo esportivo. Nem todos os que forem rebaixados terão o apoio financeiro de patrocinadores. E isso pode comprometer a história de muitas agremiações, jogadores e profissionais do esporte. Ora, se essa dura realidade existe para o futebol nacional e seus clubes, não há razão para a seleção escapar disso. Diante do fiasco do onze tupiniquim na última quarta-feira, 10 de setembro, no Engenhão, no Rio de Janeiro, passei a refletir sobre qual seria posição dos patrocinadores da seleção. Levando essa teoria para o automobilismo, quando um carro de competição se envolve em um acidente, grave ou não, a primeira coisa que surge em meio aos amassados e arranhões da lataria é a marca do patrocinar. No peito os jogadores da seleção levam a marca do conhecido Guaraná Antártica e na manga da camisa a da empresa de telefonia celular Vivo. Até que ponto é interessante atrelar marcas importantes à inconteste fulanização do fiasco? E como o futebol – volto a insistir – é um misterioso negócio, sem bola na rede enxerga-se o fundo do cofre rapidamente.
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