Artigo Ucho Haddad
Terça, 24 de junho de 2008, 14h12
As incoerências do esporte (*) Ucho Haddad Desde que me conheço por gente defendo a tese de que na vida tudo é passível de perda. Da virgindade ao crédito. Do amor platônico à esperança. Da casa à dignidade. A única coisa que o ser humano não pode perder, em hipótese alguma, é a coerência. E isso [a coerência] é o que muitos atletas, que entendem estar acima do bem e do mal, sequer sabem o que é ou significa. Ser coerente, por exemplo, é agir em consonância com o discurso. É fazer dos próprios atos um reflexo imediato do pensamento. É verdade que conviver com a fama é algo complexo, especialmente porque o sucesso de hoje é no máximo resultado de ontem. Se nada fizermos hoje, amanhã seremos ilustres desconhecidos. Eis o preço da fama. Como ou sem fama, o fato é que o ser humano carece cada vez mais de coerência. E no mundo dos esportes não é diferente, por mais que muitos entendam ser verdadeiros deuses. Mas só eles acham isso. Há dias, Ronaldo Nazário, aquele que um dia algum irresponsável resolveu chama-lo de Fenômeno, embarcou rumo à Paris, não sem antes divulgar uma nota alegando que não tinha mais condição de viver em paz no Rio de Janeiro. Ora, só vive sem paz aquele que procura confusão. Ronaldo Nazário saiu com três travestis, disse que foi um engano, conseguiu calar os que com ele estiveram no motel, e acreditou que a história, aqui no Brasil, o país da piada pronta (a citação é do jornalista José Simão), ficaria por isso mesmo. Se em nossa querida e amada Botocúndia alguém que persegue a excelência em qualquer campo da vida busca ser uma “Brastemp”, não é difícil imaginar o que pode acontecer com alguém famoso, metido a Don Juan, que acaba numa delegacia de polícia por se recusar a pagar um programa acertado com três travestis. Vai cair na boca do povo com boa dose de certeza, e não será por pouco tempo. E não demora muito para que aquele que venera um transexual ser chamado de Ronaldo. À época do entrevero, escrevi sobre os reflexos da atitude de Ronaldo Nazário nos negócios e na imagem de seus patrocinadores. Muito se falou sobre o assunto, mas a continuidade dos contratos de Ronaldo com tais empresas ainda é um mistério. A reboque de um acerto bisonho com uma ínfima parte da imprensa tupiniquim, Ronaldo Nazário surgiu no Grande Prêmio da França de Fórmula 1, em Magny-Cours, a quase 300 quilômetros de Paris, como se fosse a maior e mais ilibada das celebridades esportivas. Muitos dirão que errar é humano, mas ídolos não podem se permitir a esse tipo de situação. Errar é algo fora do cardápio do famoso. E quando isso acontece, comentários maldosos são inevitáveis. No contraponto da polêmica criada por Ronaldo, o piloto brasileiro Felipe Massa, que faz a lição de casa com afinco e competência, deu uma declaração coerente dias antes da vitória na terra de Napoleão. Ao comentar sobre a polêmica que tomou conta da renovação da super-licença – é o documento que autoriza os pilotos da F1 a entrarem nas pistas – Massa disse que era preciso cautela, pois existem patrocinadores envolvidos no processo. E olha que estamos falando da renovação de um documento. A reboque do mote publicitário da finada poupança Bamerindus – o tempo passa, o tempo voa – a vida caminha sempre para frente, e voltar no tempo é coisa de ficção científica e outros quetais que a psicanálise pode explicar. Ronaldo Nazário pode até chiar, e isso ele tem feito com semblante de cachorro de mudança, mas o fato é que por aqui o seu entrevero não será esquecido tão cedo. Até porque, se por um lado o ser humano consome com voracidade a coerência que Felipe Massa exala com naturalidade, por outro não passa um dia sem ter um escândalo para comentar. Diante disso, o negócio é escolher aquilo que melhor lhe cai bem.
Redação WN / T.Martins
|