JORNALISMO









  Artigo Ucho Haddad
Sexta, 16 de maio de 2008, 13h36


Um afago no descaminho
(*) Ucho Haddad

Entender a vida está cada vez mais impossível. E o futebol, com boa dose de certeza, é o capítulo mais incompreensível do cotidiano. Não se pode negar que tudo que parte da Confederação Brasileira de Futebol, a sempre confusa e misteriosa CBF, é de difícil compreensão, especialmente quando se tem no comando alguém que faz da entidade uma espécie de fundo de quintal particular.

Ontem, quinta-feira (15/05), o técnico Dunga anunciou a lista dos convocados para as próximas partidas da seleção brasileira (os amistosos e as eliminatórias da Copa do Mundo).

Sem muita novidade, o descalabro da lista de jogadores ficou por conta da convocação de Adriano, ex-imperador (sic) de Milão e atual fiasco do Morumbi. Sem ter muito para explicar, Dunga disse que Adriano voltou a jogar, e por isso mereceu ser convocado. Honestamente gostaria de saber em qual emissora de TV passam essas jogadas espetaculares de Adriano, pois até agora a mais indigesta contratação são-paulina não convenceu. Até mesmo os tricolores admitem isso.

Ejetado da Internazionale milanesa por conta de seu comportamento pouco ortodoxo, com direito a declarações estapafúrdias e baladas idênticas, Adriano encontrou no SPFC a tábua de salvação para uma carreira que pode ser considerada apenas como acima da média. Achar que Adriano é um craque é um gigantismo do absurdo, pois até o técnico Muricy Ramalho, que comanda o jogador diariamente, acha que o atacante é apenas um fazedor de gols. E não é sempre que faz.

Quando Adriano chegou ao Morumbi, o SPFC faturou em termos midiáticos, uma vez que durante algum tempo o clube esteve no topo das notícias esportivas. O São Paulo passava por reestruturação interna, e distanciar a opinião pública da realidade dos bastidores era mais que necessário. E Adriano foi uma espécie de boi de piranha com chuteiras.

O glamour da contratação foi pelo ralo e a realidade do cotidiano do atacante veio à tona. Adriano voltou a freqüentar a noite, e a cartolagem tricolor pensou em dispensar o jogador. A ameaça, como sempre, deu em nada. E todo o discurso supostamente moralista foi transformado em multa salarial. O que para Adriano pouco afetou.

Considerado como um dos maiores e melhores celeiros do futebol mundial, o Brasil tem de sobra jogadores muito melhores que Adriano. Como esses talentos são barrados pela sanha capitalista que envolve o futebol, eles continuam vivendo no anonimato que marca as várzeas das periferias.

Não se trata de uma perseguição de minha parte ao jogador Adriano, mas alguém que até outro dia era vítima de alternância psicológica não pode ser convocado para, de chuteiras nos pés, representar a pátria. Mas o técnico da seleção é o “Seo Dunga”, ou no puxa-saquismo típico dos jogadores, professor Dunga.

Com ou sem motivos, a convocação de Adriano é um tapa na cara dos outros jogadores, que ao longo dos últimos meses buscaram um comportamento exemplar dentro e fora de campo. O que não merece louvor, pois todos recebem régia e nababescamente para serem corretos, além de marcar gols.

A volta de Adriano à seleção me obriga a voltar no tempo e relembrar a convocação de Ronaldo Nazário para a Copa da Alemanha. Naquele momento prevaleceram os interesses comerciais e financeiros que envolviam a carreira do jogador. E com Adriano a situação não é diferente.

O fato é que Adriano não passa de um plebeu com a bola nos pés, e quem o batizou de imperador é tão irresponsável quanto ele. Quem teve o privilégio – eu tive – de ver Pelé fazendo o que bem quis com a bola, achar que Adriano é um imperador é um enorme devaneio do pensamento, ou o mundo está repleto de gente pronta para ser enganada.

O que Dunga fez não passou de um afago no descaminho. Mas sua atitude não assusta, pois a alcunha que adotou é diretamente proporcional ao seu nanismo futebolístico.

Redação WN / T.Martins  

   
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