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Espanha 1936, o crucifixo e o fuzil (parte II)
Ocorreu então um fato insólito: os carlistas, devotos do catolicismo ortodoxos, exigiram que os presos, antes de serem justiçados, tivessem direito à confissão, arranjando para tanto um grupo de sacerdotes a fim de cumprirem com a sagrada tarefa de ouvirem as palavras finais dos condenados. Como estes eram uns 50 ou 60, não há precisão, é obvio que cada um deles procurou se estender pelo maior tempo possível presos aos ouvidos do padre, visto que cada palavra naquele momento era uma esperança, o derradeiro sopro da vida de cada um deles. Todavia, a demora daquela liturgia macabra acabou por irritar os falangistas que começaram a se desentender com o carlistas. Os "rojos", para eles, eram gente perdida, ateus de alma irrecuperável com os quais não se devia perder tempo. Chegaram então a um acordo fixando uma meia dúzia de palavras a serem exprimidas por cada um dos pobres diabos que iam ser executados. Encerrada a contenda, dadas as bênçãos, eles foram encostados nos muros e devidamente fuzilados. Feito o trabalho, carlistas e falangistas, irmanados, foram correndo de volta ao centro da cidade para ainda poderem participar da procissão e elevarem loas à Virgem Maria e ao Cristo Rei. (*)(*) num outro episódio, ocorrido num aldeamento perto de Pamplona, os habitantes, invadindo a cadeia local, lincharam mais ou menos uns 50 indivíduos, o que lhes valeu uma reprimenda do bispo que os exortou em apenas em aceitar as sentenças determinadas pelo tribunal militar. Os carlistas, nos outros fuzilamentos que se seguiram, achavam graça que as senhoras da fidalguia local acordassem pela manhã cedo para vê-los dispararem suas armas contra os condenados.
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Os requetés carlistas de Navarra
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A política adotada pelo Vaticano desde que ocorreram revoluções ou insurreições comunistas, entre 1917 e 1923, por toda a Europa, foi em apoio às classes conservadoras e às instituições ameaçadas pela subversão. Postura essa que colocou a Igreja Católica como virtual aliada dos movimentos direitistas (fascistas, nazistas, falangistas, etc.) que começaram a espocar nos anos vinte do século XX. Não foi diferente na Espanha, visto a histórica ligação do alto clero com os grandes fidalgos do país, com a monarquia borbônica e com o exército. Além disso, para muitos observadores, a Igreja Católica agiu em legítima defesa visto que, desde a proclamação da II República espanhola, ocorrida em 1931, os prédios religiosos (catedrais, igrejas, capelas, mosteiros e conventos) viram-se alvo dos ataques incendiários promovidos pelos anarquistas. Contou também como baixas do lado dos sacerdotes a perda de 12 bispos e mais de 10 mil padres e freiras, vítimas dos violentos ataques de esquerdistas das mais variadas tendências e partidos, desde que a Guerra Civil se acirrou. Ainda que dar a outra face e estender o perdão a quem agride seja uma máxima do cristianismo, não foi esse o caminho escolhido pela Igreja Católica da Espanha franquista que, como qualquer outra instituição humana, deixou-se arrastar para a estrada da vingança, apoiando ou silenciando frente aos fuzilamentos dos "rojos". No Brasil, décadas depois dos eventos narrados, o escritor tradicionalista-católico Gustavo Corção, não deixou de celebrar os feitos da aliança entre o Exército e a Igreja da Espanha: Honra e glória à Espanha católica de 1936/Honra e glória a Dom José Moscardó Ituarte, defensor do Alcazar, a seu filho Luis Moscardó, a Queipo de Llano e a José Antônio Primo de Rivera. España libre, España bella Con requetés y Falanges Con el tercio muy valiente..." Honra e glória aos doze bispos mártires e aos quinze mil padres, frades e religiosas, "verdadeiros mártires em todo o sagrado e glorioso significado da palavra" (Pio XI). Honra e glória a todos os que morreram testemunhando com sangre: "Viva Cristo Rey"!» (O Século do Nada, introdução, 1973).
Canal, Jordi – El Carlismo: dos siglos de contrarrevolucion en España. Madri: Alianza Editorial, 2003.Jackson, Gabriel- La Republica española y la guerra civil. Barcelona; Editorial Grijalbo, 1967.
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