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Bernard Lewis, um cruzado no Iraque
Entre os vários intelectuais responsáveis por dar respaldo ideológico à invasão norte-americana do Iraque, iniciada em 2003, os ditos neoconservadores, encontra-se um arabista de grande nomeada: Bernard Lewis. Trata-se de um erudito, nascido em Londres em 1916, autor de uma respeitável bibliografia sobre os povos árabes e a história do mundo islâmico em geral. Foi dele que, num encontro com o vice-presidente Dick Cheney, teria partido as palavras finais de estímulo a que a guerra tivesse pronto andamento: "Ande com isso. Não vacile!".
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Bernard Lewis
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Não só isso, abandonando as naturais reservas de um acadêmico, Lewis foi um dos primeiros intelectuais a tocar os tambores de guerra. Ao publicar artigos no The Wall Street Journal, intitulados “A War of Resolve” (Uma guerra por resolver) e “Time for Toppling” (Tempo de derrubar) recomendou o imediato emprego da solução militar no Oriente Médio, especialmente contra o ditador iraquiano, não importando se houvesse ou não ligações dele com a Al-Qaeda. Expoente do liberalismo britânico, ele não vê nenhuma contradição entre a adesão ao ideário de John Locke, Adam Schmitt e John Stuart Mill, e a pregação em favor da submissão militar de territórios ou países hostis aos valores do Ocidente.Para ele, como para Paul Wolfowitz, outro ideólogo neoconservador, tanto Saddam como Osama Bin Laden fazem parte de uma “civilização doente”, que rejeita, por pura paixão ao atraso e ao fanatismo, o processo de modernização. Ambos seriam reflexos da tradição tribal árabe imune à argumentação e à racionalidade, que somente podem ser curvados pela presença da força, pelo barulho atemorizador dos bombardeios e pela ocupação direta. Lewis praticamente fez suas as palavras outrora proferidas pelo marechal Bugeaud, o conquistador francês da Argélia, entre 1840-47, a um seu subordinado: "les arabs ne comprennent que la force brutal" "os árabes não compreendem senão a força bruta" (in Mostafa Lacheraf - L'Argelie, p.92)
Bernard Lewis, ainda no seu tempo de acadêmico em Londres, onde se doutorara pela universidade local, em 1939, fora um dos primeiros estudiosos ocidentais a ter acesso aos arquivos do Império Otomano por ocasião da visita que fez a Istambul, a convite, nos começos da década de 1950.Naquela oportunidade, ainda que folhasse páginas do medievo otomano - tempo de esplendor o oposto a Era das Trevas da Europa feudal - deixou-se fascinar pela obra política de Mustafá Kemal Atatürk, o general-estadista que, entre 1923 e 1938, ergueu a Turquia moderna dos escombros deixados pelo decadente e corroído sultanato, derrotado na guerra de 1914-18. Com a espada em riste, como tantos outros modernizadores, tal como o profeta armado de Maquiavel, ele varreu do antigo sultanato otomano tudo aquilo que pudesse lembrar o arcaísmo asiático dos seus conterrâneos, inclusive abalando-lhes os dogmas da religião. A reforma laica imposta de cima para baixo, narrada de modo entusiástico no seu livro The Emergence of Modern Turkey (1961), onde procurou vê-la não pelas lentes européias, passou desde então a ser celebrada por Lewis como a única solução para uma região que desconhecia a existência de instituições liberais e de prática democrática. Explicou a decadência otomana não tanto como resultante de uma espantosa ascensão tecnológica dos paises ocidentais, mas principalmente provocada pela soberba da cultura islâmica, que, por altivez cega, não estimulou as reformas e mudanças necessárias para que a gente do Profeta pudesse também progredir nos campos do conhecimento científico. Para ele, a petrificação/estagnação que ocorreu por grande parte do Quadrilátero Árabe e regiões circunvizinhas deveu-se em razão do Mundo Muçulmano, com exceção da Turquia kemalista, querer viver num planeta à parte, fechado aos novos costumes e desinteressado em inovações outras que lhe chegam de fora. Esta alienação da realidade moderna lhe teria sido fatal, jogando-o na rabeira do conhecimento cientifico e tecnológico contemporâneo.
O choque das civilizações
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Kemal Atatürk, símbolo do caudilho modernizador
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Parte de sua simpatia para com o ocorrido na Turquia, por igual advinha da pouca hostilidade do governo de Ancara para com Israel. Lewis, de origem judaica, foi levado a concluir que esta inédita posição de tolerância dos otomanos em relação ao Estado Judeu decorrera da ocidentalização promovida há muitos anos antes por Kemal. Quando ele se mudou para os Estados Unidos, em 1974 ( fora convidado pela Universidade de Princeton, para atuar no Centro de Estudos Avançados H.G.Wells, e depois integrando a Universidade de Cornell, entre 1986-90), tornado-se um eminente consultor do Departamento do Estado para os assuntos geopolíticos do Oriente Médio, Lewis defendeu uma articulação estratégica triangular que envolvesse o Estado de Israel, o governo turco e os Estados Unidos, no sentido deles evitarem a presença dos soviéticos e exercerem uma pressão firme sobre os países da região mais relutantes em aderirem à ocidentalização. (*) A posição que ele alcançou a partir da década de 1970 como estudioso da história do Oriente Médio atingiu a tais alturas que qualquer política recomenda por ele era automaticamente aplicada devido à autoridade que gozava junto ao establishment norte-americano . Lewis passou a ser chamado entre seus colegas de “deão do Oriente Médio”.[ver R. Stephen Humphreys - Bernard Lewis: An Appreciation. Humanities, vol. 11, no. 3 (May/June 1990), pp. 17-20]. Ele é quem cunhou a expressão “choque de civilizações”, surgida num ensaio intitulado “The Roots of Muslim Rage”, “As raízes da fúria muçulmana”, publicado em 1990, e que depois foi apropriada por Samuel Huntigton para enfatizar a permanência do desentendimento entre o Ocidente e o Islã. Portanto, ele entende que a hostilidade árabe à presença de Israel deve-se basicamente a uma teimosia arcaica dos seus vizinhos e à perene existência de estruturas políticas islâmicas antidemocráticas. Somente com a remoção delas é que o Estado Judeu gozará da paz. (*) O plano mais audacioso em que ele se envolveu naquela ocasião foi dar apoio ao projeto Arco de Crises proposto por Zbigniew Brzezinski, durante a administração Jimmy Carter ( 1976-1980), que também se chamou de Plano Bernard Lewis, para provocar rebeliões fundamentalistas da Irmandade Muçulmana por todo o sul da União Soviética. O resultado prático foi um tiro pela culatra, pois quem terminou sendo derrubado naquela ocasião foi o Xá Reza Pahlevi, ditador do Irã e aliado dos Estados Unidos.
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