Educação História por Voltaire Schilling Século XX
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História - Século XX
SÉCULO XX

Apertando a rosca

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Atormentada entre outras coisas pelos terríveis custos da política do marido, Nádia Allilúievna, a jovem segunda esposa de Stalin suicidou-se com um tiro no seu quarto no Kremlin. Svetlana Stalin, sua filha, relatou bem mais tarde("Vinte cartas a meu pai") como o pai ficou horas e horas prostrado ao lado do cadáver da esposa murmurando, atarantado, "por quê? por quê?" Num dos raros momentos de desânimo e abatimento total, chegou a ameaçar também a se matar.

Recuperado, sentindo que a oposição que lhe faziam dentro do partido não teria forças para derrubá-lo, mesmo depois das noticias exasperantes que vinham do campo, especialmente da Ucrânia reduzida ao desespero, tomou providências para esmagá-la. O veterano bolchevique Martemia Riutin, que ensaiara com alguns outros redigir um "Apelo a todos os membros do partido" contra Stálin, não demorou a ser condenado a uma pena de dez anos(depois fuzilaram-no).

Numa seqüência atordoante, decretou terríveis medidas draconianas para serem aplicadas ao setor produtivo. O código do trabalho fabril tornou-se militarizado. A mínima falta seria punida com a prisão, a reincidência com a deportação, quando não com o fuzilamento, nos casos de acusação de sabotagem. A classe trabalhadora que devia ser emancipada foi assim reduzida a ser uma massa passiva, obediente e silenciosa. Não muito diferente do destino dos camponeses. Em meio a isso tudo ele ordenou a construção de um luxuoso metrô no subsolo de Moscou, um verdadeiro palácio subterrâneo composto por estações magnificamente decoradas com mármore e candelabros de cristal.

Zhdanov, indicado como comissário da instrução pública, por sua vez, restabeleceu a velha educação da pré-revolução. Nada mais de experiências pedagógicas mirabolantes. A Rússia Soviética voltara à vara e aos castigos, ao uniforme, e aos rigores da antiga disciplina escolar. Na prática Stalin tornou-se um novo czar, administrando despoticamente um império que nascia na Europa e terminava nos confins da Ásia. Ele mesmo, aparentando falsa modéstia, em meio a incessante bajulação que se viu alvo, teve que admitir que o "povo russo não vivia sem um czar".

As bases do stalinismo

Exaltando a industrialização
Como explicação para a crescente brutalidade do Estado Soviético aplicada contra o seu próprio povo, ele alegou que conforme o socialismo avançava num meio atrasado como a da Rússia, maiores eram as negaças e resistências vindas de todas as partes. Por conseqüência, somente recorrendo ao uso da culatra do fuzil e das botinadas é que as coisas progrediriam. O russo comum, preso ainda à canga feudal, primitivo e ignorante, só sairia da sua apatia, marasmo e torpor alcoólico, aos empurrões, ameaças e sacudidas violentas feitas por ele, o "bolchevista exemplar" do leninismo.

Este entendimento das coisas redundou em que quase todo mundo fosse colocado sob suspeição de estar "resistindo" ou "sabotando" o grande salto em direção ao socialismo, cobrando da liderança soviética uma vigilância implacável e permanente, transformando o ditador num paranóico de plantão, sempre atento, percebendo uma conspiração em cada esquina ou mesmo embaixo da sua cama.

Por outro lado, a imposição da autocracia stalinista decorreu do próprio leninismo, visto a defesa feita da função da vanguarda revolucionária. Situação perigosa esta que fora percebida com grande argúcia por Rosa Luxemburgo na sua crítica a Lênin quando lhe disse que a concepção de partido que ele defendia, fechado e disciplinado, liderado por um chefe inconteste como se fora um regimento em manobras de guerra, levaria inevitavelmente a que a direção assumisse a posição de um novo déspota frente a uma massa dócil e atemorizada.

Se num primeiro momento o partido (no caso, o bolchevique), monopolizando a política, colocava-se no lugar do povo como o exclusivo agente da transformação social, numa outra etapa era o comitê central dele, o Politburo, quem usurpava o papel do partido como um todo. Como arremate final e lógico desse crescente substituismo, o ditador terminava por pairar sobre todos, pondo-se acima do comitê-central, do partido e do povo, reinado como um autocrata, um czar vermelho. Fato que institucionalmente confirmou-se durante o chamado Congresso dos Vencedores de 1934, no qual Stálin assumiu a direção inconteste do país.

Na prática, quem por último tornou-se a "vanguarda revolucionária", cumprindo as tarefas as mais diversas por todo o país dos sovietes, da repressão ao controle da produção, foram os agentes chequistas, isto é, os funcionários da polícia secreta (a antiga Checa, depois OGPU/NKVD).

Intervindo nas Artes

Não só isso, Stálin um leitor voraz, dono de uma biblioteca de 20 mil volumes, entusiasta como Lenin da função social da literatura e da cultura em geral, decidiu também intervir diretamente nas artes da ficção. Depois de seduzir Máximo Gorki a voltar para a URSS, de onde tinha saído frustrado em 1921, marcou uma reunião com mais de 60 escritores na mansão Ryabuchinski que reservara ao famoso novelista.

Num tom forte, exigiu dos presentes que doravante mostrassem a vida "avançando para o socialismo. Isto é, e será, realismo socialista", conclamando a que eles se tornassem os "engenheiros de almas humanas", um braço do partido na formação do Homem Novo.

Proposição que se tornou oficial durante o Primeiro Congresso Pan-soviético de Escritores, em 1934. Imiscuiu-se de tal modo nas artes cênicas e cinematográficas que até as músicas e as letras que serviam como fundo musical para os filmes soviéticos eram alteradas por ele, quando não roteiros inteiros tinham que ser reescritos para poderem ser aprovados por ele.

Mais, tarde, logo após a Grande Guerra Patriótica, como os russo chamaram a guerra contra a Alemanha nazista, foram os grandes músicos como Schostakovich e Katchaturian os principais atingidos pela direta interferência estatal.

O Grande Terror

Stalin e Kirov, amigos íntimos
A coletivização e a industrialização acelerada, com todo o preço humano que cobrou, ainda seriam um mal menor para o que se seguiu. Em 1º de dezembro de 1934, Kirov, um dos mais importantes quadros do alto escalão stalinista foi assassinado em Leningrado. Tal como durante a Revolução Francesa o atentado contra Marat serviu como sinal para que o Terror fosse imposto pelos jacobinos, a morte de Kirov foi o pretexto para os grandes expurgos de 1936 a 1938, decretados por Stalin.

Tanto Charlotte Corday como o jovem Nicolaiev, os respectivos assassinos de Marat e Kirov, contribuíram involuntariamente para uma avassaladora histeria paranóica que cobriu de sangue a França de 1793 e a URSS de 1936. Os tiros contra Kirov assinalaram o fim do que a poetisa Ana Akhmátova denominou de "anos vegetativos" inaugurando os "anos carnívoros", o tempo das grandes matanças.

Para Stalin não restavam mais dúvidas que seus antigos rivais tornaram-se inimigos "objetivos" da Revolução. Kirov era quase um irmão siamês dele, por isso sentiu o crime de um modo muito pessoal, como se fora praticado contra ele. Havia um cérebro por detrás daquilo, pensou, um cérebro maligno que conduzia tudo em surdina e que fatalmente iria atentar contra o próprio líder da revolução.

Ninguém senão Trotski é quem, do exílio, manipulava os cordões das marionetes da contra-revolução. Tratava-se de um renegado que se aliara a Zinoviev e a Kamenev, antigos companheiros de Lênin, para tentar tirá-lo do poder. Sem duvida nenhuma eles formavam um Centro Unido antisoviético Trotski-Zinoviev para detonar as conquistas de 1917. Eram “ terroristas” que certamente mereciam o destino que o ditador lhes reservou.

O mundo inteiro surpreendeu-se então quando em 15 de agosto de 1936 foram anunciados os propósitos do governo soviético em colocar em julgamento toda a velha guarda do bolchevique, os veteranos do Outubro Vermelho. A surpresa aumentou ainda mais com o rol e a gravidade das denúncias apresentadas pelo procurador-geral Andrei Vichinski, que eles foram obrigados a responder.

Era uma lista de comprometedoras acusações de sabotagem, espionagem, conspiração, etc. em estreita relação com a GESTAPO de Hitler, o imperialismo inglês ou japonês. Stálin não hesitou em acusar ex-integrantes da alta hierarquia do seu partido e do seu governo de estarem mancomunados com os inimigos da pátria soviética.

Submetidos a um ritual de humilhações e torturas sem fim, alternadas com ameaças às famílias deles, o ditador arrancou-lhes confissões absurdas, assentadas na formulação jurídica defendida por Andrei Vichinski segundo a qual “a confissão é a rainha que paira sobre todo o tipo de evidências”. Condenados sem apelação foram entregues aos serviços de V.M.Blokhin, o algoz-mór da NKVD que supervisionava as execuções.

O Terror não se restringiu somente aos quadros partidários e administrativos da burocracia civil, pois nem mesmo as Forças Armadas soviéticas escaparam da depuração, perdendo os seus comandantes supremos, entre eles o jovem marechal Tukachevski. Até a Polícia Secreta ficou sem os seus chefes: Iagoda, e depois Iejov, presos e executados.

Stalin convenceu a todos que a URSS sofria de uma dupla ameaça: o nazi-fascismo lá fora, e os espiões e sabotadores atuando por dentro. Era um conluio diabólico que visava destruir as "conquistas da revolução" e o legado de Lênin. A psicologia de povo sitiado muito contribuiu para que o ditador pousasse de defensor intransigente da pátria que podia ser profanada a qualquer momento por potenciais traidores e incontáveis "inimigos do povo".

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