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História - Século XX
SÉCULO XX

O secretário-geral

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Foi durante este período de frustrações é que Stalin abandonou o comissariado das nacionalidades, posição que havia ascendido devido a sua tese, para torna-se secretário-geral do partido comunista da URSS.
Inicialmente o cargo era meramente burocrático, pois as iniciativas políticas eram tomadas por Lênin. A partir da morte do líder, em janeiro de 1924, a situação inteira do partido passaria por substanciais modificações. O vazio deixado rapidamente foi preenchido por Stálin e sua gente.

As pompas fúnebres realizadas em honra ao fundador do Estado Soviético, já anunciavam os efeitos desses fatores. O secretário-geral, apresentando-se ao público como herdeiro direto do líder morto, encarregado de prestar as últimas homenagens a ele, proferiu um discurso que se assemelhava mais a uma ladainha religiosa, permeada de juramentos de fidelidade à causa, do que um sincero pronunciamento em homenagem a um camarada morto. Krupskaia, viúva de Lênin, lamentou o evento, pois preferia que o marido fosse prestigiado com a construção de escolas e creches do que com aquele desperdício de energias gasto em incensá-lo.

No entanto, atrás do cerimonial fúnebre bizantino encenado pelo secretário-geral, afloravam a miséria, o atraso, o misticismo e a barbárie asiática do país. A mumificação de Lênin e seu encerramento em mausoléu simbolizaram o congelamento de uma época. A fase heróica da revolução de 1917 encerrou-se com ele, ao tempo que ele abandonava o reino humano para pertencer à mitologia e à mistificação stalinista.

Rumo à ditadura total

A fila para o velório de Lênin (janeiro de 1924)
Ao sufocarem qualquer tipo de oposição ao novo regime, os bolcheviques pensavam ser essa a melhor forma de defender sua ameaçada revolução. Lançaram assim as sementes do estado monolítico que se seguiu. Ao proibirem a existência de facções entre os próprios integrantes do partido, terminaram por reforçar ainda mais o poder do secretário-geral que controlava a máquina burocrática.

Ao impedirem manifestações de descontentamento fora do partido, era fatal que essas terminassem por eclodir dentro da própria organização. E quanto maiores fossem as insatisfações mais violentas seriam as rusgas intestinas entre os velhos camaradas. Deste modo, "a ditadura das massas" prevista por Marx como etapa necessária da transição para o socialismo, tornou-se gradativamente a "ditadura sobre as massas" exercida por um autocrata.

De 1924 a 1929, várias coligações foram estabelecidas entre Stalin e seus companheiros do Comitê Central. Num primeiro, constituído uma tróica, ele aliou-se a Zinoviev e Kamenev para neutralizar a "ameaça bonapartismo" de Trotski (que foi banido para uma região central da URSS, e depois expulso do país). No momento seguinte, encontrou em Bukharin um aliado contra seus ex-colaboradores e finalmente, reduziu-o também ao silêncio.

As sucessivas vitórias de Stalin na luta interpartidária se deveram em parte à subestimação de seus camaradas. Apesar das duras referências feitas por Lênin em seu testamento político sobre o comportamento grosseiro dele, eles resolveu confiar-lhe tarefas cada vez mais importantes, em grande parte impressionados com a aparência de trabalhador comum que dele emanava. Quem poderia imaginar que aquele homem quietão, um tanto soturno e cinzento, desprovido de carisma, revelaria enorme talento e virtude tática para colocar-se à proa do Estado, a ser o Vojd, o chefe de todas as Rússias?

Para os "ocidentalistas" bolcheviques formados na Europa, Stalin não passava de uma versão atualizada do dziermy-imorda, o burocrata grão-russo, chauvinista, cruel e arrogante, que tanto Lênin lamentava existir na velha Rússia. Sentiam-se repelidos por seus gestos rudes, seu humor vulgar e a tendência dele para a simplificação.

Todavia, era ele quem representava as condições reais do país. Seria pueril atribuir as vitórias de Stalin a manobras de bastidores ou identificá-lo simplesmente como o irmão siamês do atraso russo: o alter ego do passado tártaro, o último Grão-mongol, ou ainda o "Gengis Cã sem telefone", como preferia Trotski.

A vitória de Stalin e os planos qüinqüenais

As razões da vitória dele foram outras. Venceu por que afirmou ter certeza na capacidade dos russos em confiarem em suas próprias forcas para dar o "grande salto qualitativo" – isto é, deixar de ser uma nação de mujiques, atrasados e supersticiosos, para vir a ser uma potência moderna, habitada por operários, engenheiros e administradores. Venceu por que teve sucesso em injetar na população uma considerável dose de autoconfiança, de que finalmente os russos possuíam um sistema político e ético superior ao Ocidente, da gente soviética ser uma versão modernizada do "povo eleito" cuja mensagem de igualdade social e fraternidade revolucionária regeneraria o mundo, libertando-o da exploração capitalista e colonialista.

Para tanto, pragmático, não teve pejo em apropriar-se das teses oposicionistas da necessidade da União Soviética lançar-se numa "acumulação socialista primitiva", defendida pelo economista Eugeni Preobrazenski, fundamental para sustentar os projetos de industrialização. Entre 1928 e 1929 ele enterrou a NEP, na qual Lênin tanto apostara, anunciando as bases do primeiro plano qüinqüenal, chamado Piatiletka, idealizado pelo comitê de planejamento do estado, o Gosplan (Gosudarstvennyy planovyy komitet)

O que dali em diante chamou-se de a Grande Virada foi um formidável projeto de coletivização das terras e industrialização acelerada da URSS. Para realizá-lo, pondo fim a economia rural familiar implantada pela Revolução de 1917, foram deslocados para as zonas rurais "brigadas de choque" compostas por operários para realizá-la em missão de requisição de grãos. Em vista da desesperada resistência dos kulaks, os culaques, a classe média rural, Stalin despachou contra eles tropas especiais da OGPU, a Polícia Política, e, por vezes, até do Exército Vermelho. Milhões deles foram deportados para os longínquos ermos da Ásia Soviética ou para o gelado norte do país.(*)

O partido comunista levou quatro anos esmagando a pequena e média propriedade rural, destruindo e desterrando as famílias camponesas, forçando os sobreviventes a viverem em fazendas maiores, controladas indiretamente pelo estado através de um regime especial de preços agrícolas. Os últimos vestígios de uma economia individual então desapareceram para que vingasse o império da produção coletiva.

(*) Os camponeses russos estavam divididos em três categorias: os bednyaks eram os mais pobres; os seredniaks ocupavam a camada intermediária entre aqueles e os kulaks, tidos como os mais prósperos, havendo ainda os batraks, os jornaleiros que trabalhavam por safra ou ocasião. Os bolcheviques recorreram ao apoio dos mais pobres na sua luta contra os kulaks.

Fome e miséria no campo

Campanha contra os culaques (pobres contra a classe média rural)
A calamidade social e econômica produzida pela campanha de "desculaquização" foi incalculável. Os anos trinta se iniciaram na Rússia sob o espectro da fome. Como registrou então uma testemunha: "os camponeses comiam cães, cavalos, batatas podres, casca de árvores, qualquer coisa que encontrassem".

A outrora fértil Ucrânia, rica em terra negra, mergulhou no desespero. Lá a coletivização stalinista provocou a maior mortandade que se soube em toda a história daquela parte do país. Os comunistas, na verdade, aplicaram um genocídio contra a população rural e contra a intelectualidade local ucraniana (neste caso Krushev teve um papel destacado na eliminação da "burguesia nacionalista").

Milhares de famílias foram obrigadas a abandonar suas terras e suas aldeias, deixando seus mortos pelo caminho todo. Nunca o dito de Lenin de que o novo regime era "um sistema social baseado em sangria" se justificara tanto.

Um dos efeitos mais perniciosos da reforma de Stálin foi ter eliminado do campo os tipos mais ativos, mais empreendedores, capazes de melhor desempenho no trabalho e que realmente moviam com mais destreza a produção.

Campanha contra os culaques (pobres contra a classe média rural)
Anos depois, num dos encontros com Churchill, Stálin confessou-lhe que os problemas que teve que enfrentar na época da coletivização foram maiores do que os causados pela invasão alemã. "10 milhões. Foi horrível", disse ele ao primeiro-ministro. "Durou quatro anos. Foi absolutamente necessário. Não adiantava discutir com eles. Certo número deles foi reassentada nas partes meridionais do país. Outros foram massacrados pelos próprios camponeses – tal era o ódio contra eles."

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