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História - Século XX
Século XX

A missão Casement

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A missão de Casement concentrava-se em obter ajuda em armas e em oficiais especialistas, preparados no adestramento dos futuros insurgentes de uma guerra de guerrilhas contra a ocupação inglesa. Os alemães, inicialmente, foram céticos. Não viam qualquer possibilidade de sucesso naquela proposta. Entretanto, não podiam frustrar as expectativas daqueles que vinham lhes pedir apoio. Assim é que finalmente decidiram despachar uma carga de fuzis, uns 20 mil, no lugar dos 200 mil solicitados por Casement, bem como algumas metralhadoras e caixas de munição.

Estimularam ainda a que os soldados aprisionados por eles que serviam na Irish Brigate, aderissem ao plano. Porém, somente 60 deles se ofereceram a Casement. Para disfarçar a operação que se daria nas águas patrulhadas pelos britânicos, os alemães camuflaram um barco mercante como se fora de origem e tripulação norueguesa, dando-lhe o nome de "Aud Norge", entregando-o ao comando do capitão Karl Spindler. O barco teria ainda como acompanhante um submarino, o U-19, que seria a sua sombra, protegendo-o de uma possível abordagem ou de qualquer outro imprevisto.

Ultrapassando o bloqueio feito pela Royal Navy no Mar do Norte e na Irlanda, onde não levantou suspeitas devido a sua bandeira norueguesa, o capitão alemão todavia frustrou-se. Por um problema de comunicação não conseguiu manter contato com ninguém em nenhum dos pontos da costa irlandesa que lhe haviam sido assinalados.

Terminou atraindo suspeitas dos vigilantes, sendo obrigado a render-se para uma belonave britânica. Antes disso, a tripulação conseguiu explodir a carga. Casement, por sua vez, trazido com mais dois companheiros da Irmandade Republicana pelo submarino, foi deixado na baia Ballyheige, na costa de Kerry, no sudoeste da ilha, onde não tardou a ser preso no dia 21 de abril de 1916 pela guarnição local. A operação toda redundara num fiasco.(*)

(*) O episódio do desembarque nas praias das caixas dos fuzis trazidos pelos alemães, que no fim não se concretizou, foi cinematograficamente aproveitado pelo diretor britânico David Lean, no seu filme Ryan´s daugther ( "A filha de Ryan", de 1970), tornando-se uma das maiores cenas de ação jamais filmadas.

Dublin em armas

Mesmo sem o apoio alemão, os preparativos para a sublevação já estavam adiantados em Dublin nos primeiros meses de 1916. Para viabilizar ao que depois denominaram de Easter Rising (o Levante da Páscoa) formaram uma aliança entre várias associações patrióticas tais como: os Voluntários Nacionais, o Exército Irlandês dos Cidadãos, os Rifles da Hibérnia, o Fianna Éireann, o Cumann na mBan e os Foresters.

As mulheres se fizeram representes na conspiração por meio da condessa Markiewicz, que apesar do nome aristocrático era irlandesa e militante socialista.

Às 11 horas da manhã do dia 24 de abril de 1916, vários pontos estratégicos de Dublin foram repentinamente ocupados pelos mil e poucos insurgentes que compunham o Civil Army, o Exército Civil. Nada ocorreu no campo, pois os 32 distritos do interior da Irlanda não se envolveram, limitando-se a ação à capital.

Mesmo tendo conseguido por as mãos em algumas armas, os rebeldes não tiveram sucesso em tomar de assalto o The Castle, o Castelo, o conjunto de edifícios construídos ao redor da Torre Normanda (de 1226), prisão política e sede da Yard local. O Castle passava por ser a Bastilha dos dublinenses, símbolo do domínio e da opressão britânica sobre a nação.
Os patriotas do Exército Civil afixaram uma faixa no edifício do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte da Irlanda que lhes servia como QG com os dizeres "We serve neither King nor Kaiser"( Não servimos nem ao rei nem ao kaiser).

Num primeiro momento a pequena tropa inglesa local, uns 400 soldados, não foram suficientes para contê-los.Mas cinco dias depois a maré reverteu. O governo britânico, envolvido nas grandes batalhas no território francês, não poderia protelar uma operação de cauterização na sua retaguarda insubmissa. Então, de 18 a 20 mil homens desembarcaram na Irlanda para por fim ao levante nacionalista.

Batalha em Dublin

A capital logo sucumbiu ao verdadeiro dilúvio de uniformes cor de mostarda do exército imperial que levou tudo por diante. Em apenas cinco dias de combate no total da operação repressiva somaram-se 450 mortos e 2.614 feridos, sendo que 254 eram civis e 64 patriotas insurgentes. Uma autêntica batalha fora travada nas ruas e edificações da velha cidade. Mais ou menos a metade dos prédios centrais de Dublin foram arrasados pelos tiros da artilharia britânica. A capital dos irlandeses foi assediada como se fora uma fortaleza inimiga.
Os insurgentes haviam lido, nas escadarias do Correio Geral de Dublin, uma declaração de independência assinada por sete membros do Conselho Militar da Irmandade Republicana - a cabeça do alçamento (Padraig Pearse, intitulado Presidente Provisório, James Connolly, Thomas Clarke, Thomas MacDonagh, Sean MacDermott, Joseph Plunkett e Eamonn Ceannt).

Ocorreu que o gesto heróico deles caiu num vazio. Pouca gente aderira. A maioria da população dublinense não concordou com aquilo, acreditando que não era o melhor momento de enfrentar os ingleses em guerra total. Tanto assim que, quando os soldados britânicos desfilavam com os rendidos pelas ruas de Dublin, a plebe local os vaiou e imprecou o tempo todo contra eles.

"Fuzilem-nos todos!"

Prisioneiros marchando sob apupos dos compatriotas (abril de 1916)
Em Londres, os clamores contra os insurretos de abril foram unânimes. Os irlandeses que haviam pego em armas contra o rei eram traidores e deviam expiar com a vida o ato de Judas que praticaram. O governo foi implacável, particularmente com os sete signatários da proclamação republicana. Retirados das celas da célebre prisão de Kilmainham Gaol foram submetidos a cortes marciais sumárias, sem direito à apelação. Todos os sete foram fuzilados e suas sentenças de morte somente tornadas públicas depois deles terem sido executados.

Destino particularmente cruel teve James Connolly, o comandante-geral da brigada que liderou o levante, pois mesmo gravemente ferido foi conduzido amarrado a uma cadeira e posto em frente ao pelotão de fuzilamento. Executaram-no no dia 12 de maio de 1916.

Mas o alçamento, ainda que impopular, trouxe grandes resultados para a Irlanda. A partir dele ficou demonstrado a todos que a continuidade do domínio britânico - começado no longínquo ano de 1169 - era inaceitável. Finda a guerra, eleito um novo governo britânico deu-se início aos trabalhos que conduziram a Irlanda finalmente à liberdade, pondo término a 800 anos de submissão.

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